Rua do Arsenal


Ana Lima,

Associada a momentos importantes da nossa História, sobretudo do séc. XX (desde o regicídio ao 25 de Abril de 74), vem-lhe o nome do Arsenal da Marinha, ali construído no século XVIII. Mas desse lado do passeio quase não vemos ninguém. 

É do outro lado que tudo se passa. Aqui é a palavra Portugal que mais se nos impõe. As lojas vendem-na impressa em sacos, t-shirts, isqueiros, reproduções de chaminés, artesanato que oscila entre aquele que é real e o que se produz em massa para alimentar a sede dos turistas que querem levar, para as suas terras, algo que lhes lembre que aqui estiveram. E é exactamente a palavra Portugal que distingue aquela t-shirt das iguaizinhas que foram compradas em Madrid ou Paris…

Ao lado, as mercearias que, essas sim, têm produtos portugueses, vendidos da mesma forma há décadas (manda a tradição familiar que sejam aqui comprados os frutos secos no Natal. E acreditem que não há melhores!).

O bacalhau, exposto em bancas junto à rua, dá-lhe aquele cheiro característico que todos lhe reconhecem. A este junta-se o dos gases que saem dos tubos de escape dos autocarros que param e arrancam e de onde saem pessoas que caminham, quase sempre com dificuldade, por aquele passeio estreito onde se cruza tanta gente.

Mesmo assim ainda há lugar para o mendigo que, quase todos os dias, ali se encontra. Uma escolha acertada, que poderia ser fruto de um estudo apurado de marketing que tivesse estudado o número de pessoas que por ele passam diariamente.

Fintando os autocarros, as crianças brincam junto ao passeio e circulam nas suas bicicletas, enquanto os pais, lojistas, as observam e conversam, numa língua que não identifico, com quem trabalha na loja ao lado, até que um cliente resolve perguntar o preço de um dedal decorado com a Torre de Belém.

Pelo meio, uma loja de jogos onde os apostadores deixam as suas esperanças depositadas até à semana seguinte ou até ao próximo sorteio. 

Parece uma rua só com um lado. Mas aqui não há lados certos ou errados. 

4 comentários em “Rua do Arsenal”

  1. Gosto muito da Rua do Arsenal, por vários motivos.
    Não gosto nada – nada mesmo – é do recinto da nova Praça do Comércio. Linda, plasticamente irrepreensível, mas deserta como um mausoléu. Havia de ser em Espanha… com todos ‘por la calle’.

    1. Bem Laura, em relação à Praça do Comércio parece-me que não é fácil comparar uma praça com a sua escala à de algumas praças espanholas, mais convidativas a estar, apenas estar. A Praça do Comércio, das maiores da Europa, é grande demais para os seus edifícios proporcionarem uma sombra convidativa no Verão e para se tornar acolhedora em tempo mais frio. Depois tem sido, há muito tempo, ponto de passagem e não de estar. Mesmo assim os turistas lá vão andando por lá. Apesar de tudo eu gosto de não a ver cheia de gente. E há outras praças em Lisboa mais aprazíveis que, muitas vezes, não têm ninguém. Nós não temos o hábito da rua tão enraizado .

      1. Sim, sei isso tudo, Ana. Conheço a Praça do Comércio demasiado bem, aliás, em sucessivas passagens, digamos, profissionais. Tal como outras belas pracinhas de Lisboa. Mas mesmo assim… 🙂

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