Quatro anos é muito tempo.


Ana Lima,

Elas não podem mostrar o rosto em público.  Elas não podem conduzir sozinhas. Elas não podem falar directamente com o seu professor. Elas não podem viajar sozinhas para o estrangeiro. Elas não podem ir ao médico por sua livre vontade.  Elas não podem entrar e sair pelas mesmas portas que os homens nos locais públicos. Elas não são contratadas pela maior parte das empresas. Elas não podem falar em direitos sem que sejam castigadas. Ontem ficámos a saber que, daqui a quatro anos, já poderão votar e concorrer nas eleições municipais. Não posso, no entanto, deixar de pensar que em quatro anos muitas coisas poderão acontecer. Esperemos que, entretanto, outros passos sejam dados por forma a alterar a forma como a mulher é encarada naquele país. E que os conservadores e ultraconservadores não aproveitem este tempo para lançarem novas “fatwas” que tornem a medida, anunciada hoje pelo rei, absolutamente esvaziada de conteúdo.

12 comentários em “Quatro anos é muito tempo.”

  1. Gostei, Ana. Para além de pensar nelas, este post faz-me pensar nos (muitos) que dizem que a causa da emancipação feminina está ganha, mesmo nos países onde parece, formalmente, estar.

    1. Pois, Laura… Em muitos países essa causa está ganha mesmo só formalmente. Mas, no caso da A. Saudita e outros está-se, de facto, muito mais atrás!

  2. A menos que a reforma signifique que as mulheres poderão fazer tudo o resto que lhes está vetado (viajar, trabalhar, conduzir, serem operadas sem autorização dos maridos…), não vejo como concorrer e votar signifique alguma coisa.

    1. São donos, exactamente. Sobretudo nos casos em que existem casamentos forçados, alguns combinados ainda durante a infância das mulheres. E nestas coisas, como noutras, a variável classe social influencia bastante. Em classes mais altas a escolha de um parceiro é mais facilitada. Nas outras a sujeição à vontade do pai parece ser a regra.

  3. O rei tomou esta medida após consulta das autoridades religiosas, pelo que não são de temer quaisquer fatwas.

    De mais a mais, a situação das mulheres na Arábia Saudita não tem nada a ver, que eu saiba, com quaisquer fatwas, na medida em que não tem qualquer fundamentação corânica nem religiosa. O patriacarlismo da sociedade saudita é real, mas nada tem a ver com religião. Os sauditas aderem a uma interpretação literal do Corão e do exemplo do profeta – mas nessas fontes não se encontra qualquer fundamentação para essas proibições todas.

    1. Claro que num país ultraconservador onde a segregação de géneros é levada ao máximo teria que haver consulta às autoridades religiosas. Mas de que serve a “autorização” se existe o poder discricionário de, a qualquer momento, criar novas regras que podem inviabilizar qualquer participação efectiva?
      Eu não gosto de falar do que não conheço bem mas, do que tenho lido, são lançadas, de facto, fatwas ” que têm a ver com a situação das mulheres.
      Não são só os casamentos impostos. É a proibição de trabalhar em lojas onde o contacto com homens sós seja possível, obrigando-as a ficar em caixas exclusivas para mulheres e famílias. Também não devem assistir a provas desportivas (por causa da indumentária) ou a novelas turcas, devido à quantidade de cenas nos quartos. A imposição de serem acompanhadas por um guardião sempre que saem à rua dificulta os movimentos e outra fatwa muito discutida era a que falava da necessidade de o niqab cobrir um dos olhos e não apenas o resto do rosto.
      Não admira por tudo isto que a depressão seja muito frequente entre as mulheres. E parece que o suicídio também, apesar das estatísticas não o contabilizarem uma vez que é banido pela Sharia .

  4. Até há muito pouco tempo (pouco mais de 50 anos) a escravatura ainda era legal na Arábia Saudita. É um regime medieval, feito de enormes hipocrisias sociais e de um poderio financeiro tão esmagador como elas. Esta “grande generosidade” do rei não é mais do que um reflexo preventivo, em face da revolução de fundo que está a acontecer nos países árabes. Não vá o diabo tecê-las… porque o diabo, está visto, tem forma e nome de mulher. Quando alguém quer de facto corrigir o que considera errado ou injusto, não anuncia mudanças a quatro anos, fá-las depressa e sem retorno.

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