Há quase 20 anos que não ia à Feira da Ladra. Fui num dos últimos sábados. Continua a ser um local cheio de novidades apesar das coisas velhas que se vendem, sejam elas antiguidades, velharias ou apenas trastes.
Os sapatos usados e já sem forma, os discos que alguém ouviu, as cartas endereçadas com uma letra bonita, as chaves sem fechadura, as fechaduras sem chaves, as bonecas sem pernas ou sem olhos, os olhos sem bonecas.
Admiro quem se levanta cedo para ficar num bom lugar e estende um cobertor onde espalha os objectos mais estranhos, para quem não imagina de onde vieram, e depois volta a recolher quase tudo, vendida que foi apenas uma ou outra peça.
Da minha única experiência como feirante, já lá vão tantos anos, recordo apenas o frio que passei, sobretudo nas primeiras horas daquele dia de Inverno, e a assunção de que o comércio não era, de facto, o meu forte. Mas não foi frustração que senti, antes um alívio por trazer de volta o que afinal não queria vender.
Naquela altura, os que espalhavam as suas coisas pelo chão pareciam-me todos novos, jovens que aproveitavam para fazer uns trocos. Agora tive a sensação que há muitos velhos que, talvez por necessidade ou apenas para passarem o tempo ganhando algum dinheiro, ali ficam, tentando falar inglês com alguns turistas que parecem ser os mais interessados em velhas molduras com fotografias ou alfinetes de ama enferrujados.
– Esse modelo não tenho, responde um vendedor a alguém que queria um carregador para um telemóvel. – Mas ali, daquele lado, talvez arranje, diz, apontando. A solidariedade é substituída mais à frente por uma forte discussão entre dois homens, com muitos palavrões e ameaças à mistura.
Num dos cobertores estendidos encontramos, lado a lado, um livro sobre jardinagem e uma algália.
Alguns passos à frente um russo vende peças que, juntas, já foram fardas militares. Lá estão os chapéus, os casacos… Restos duma União Soviética que já só existe nos filmes. E, com olho para o negócio, mesmo que não venda sempre ganha algum dinheiro emprestando a farda a quem se quiser vestir e tirar uma fotografia.
Não comprei nada. Mas, de graça, trouxe o que queria trazer.

A Ana queria trazer, talvez, esperanças ao desbarato e juras verdadeiras…
Talvez… 🙂
A melhor é a Feira de Antiguidades, Velharias e Artesanato que se realiza sempre no primeiro e no terceiro domingo de cada mês, em Belém, defronte dos Jerónimos. Da Feira da Ladra, a última vez que lá estive, ficou-me nos olhos aquele magnífico panorama entre o Panteão e o belo jardim de Santa Clara. Um dos melhores (e mais desconhecidos) de Lisboa. A feira, que sempre conheci deprimente e decrépita, é apenas um pretexto para ir lá. E serviu de pretexto ao Sérgio Godinho para compor uma das canções da minha vida.
Eu nestas coisas de feiras de velharias confesso que já são tantas em tantos locais que já cansam. Os vendedores são normalmente os mesmos que vão rolando. A Feira da Ladra é, de facto, deprimente e decrépita mas é única. E o sítio é muito bonito, sim.
Quanto à canção do Sérgio Godinho (que inspirou o título do post ) ela ficará para sempre, mesmo que algum dia a feira deixe de se fazer.
Tão estranhos e invulgares são os meterias expostos como a fauna que parece fingir vender ou comprar.
Há uns anos, quando as minhas noites se pegavam com as madrugadas, assisti a uma cena que só ali poderia ocorrer.
Um tipo tentava vender um casaco de cabedal, exibindo-o apenas na mão. Não tinha mais nada exposto no chão como é habitual.
Alguém, bastante mal encarado, perguntou-lhe o preço e começaram no vai e vem do regateio. Quando chagaram a um impasse de valores o vendedor quis valorizar o casaco e, pensou ele, começou a elogia-lo.
– O casaco está como novo. Podes leva-lo para o trabalho…
O ex-futuro-comprador num sobressalto exclamou: Para o trabalho? Vai trabalhar tu!! – e seguiu para a ponta oposta da feira em passo acelerado, como quem disfarça que foge de uma maldição.
Obrigada. É, de facto, uma história que noutro local pareceria estranha mas que, ali…
Alberto Caeiro não desdenharia ter escrito a última frase 😉
Ora, Javali! Alberto Caeiro não deixaria o seu campo e o seu rebanho para ir até à feira. 🙂
Foi a primeira vez que fui à Feira da Ladra. E gostei de ir lá contigo, Ana.
Então tens que repetir. Mesmo sem mim. 🙂
“lado a lado, um livro sobre jardinagem e uma algália”. É uma boa definição da Feira da Ladra, Ana. Eu também não vou lá há anos, ainda bem que não mudou muito…
E podia escolher tantos outros artigos que não encontraríamos juntos noutros contextos… Nisso não mudou, certamente.
Creio que esses “Restos duma União Soviética” já são uma marca comercial. Basta, por exemplo, visitar uma ‘cidade da ladra’:
http://bit.ly/nDiyBI (http://bit.ly/nDiyBI)
Pois… Afinal até na Rússia se vendem estes “souvenirs”! 🙂