É uma terra sombria. Não tem mais do que uma fábrica de algodão, casas de duas assoalhadas onde vivem os operários, alguns pessegueiros, a igreja com duas janelas de vitral e uma rua principal, feia, com apenas cem jardas de comprido. Aos sábados, os rendeiros das quintas em redor vão até lá para um dia de conversa e compras. Nos outros dias, está vazia e triste, como todos os lugares perdidos e distantes do mundo. O apeadeiro de comboio mais próximo é em Society City e as carreiras de camionetas Greyhound e White passam na estrada de Fork Falls, a três milhas de distância. Os invernos são curtos e ásperos, os verões resplandecentes e de um calor atroz.
A Balada do café triste, The Ballad of the sad café,
Carson MCCullers, 1951,
edição da Relógio D’Água, tradução de José M. Guardado Moreira
Eu nunca fui à América, forma de designar um país que tomou para si o nome de todo um continente.
Conheço-o, no entanto, dos filmes e dos livros, como conhecemos, através deles, tantos lugares onde nunca estivemos ou viremos a estar.
E de entre os autores americanos que li alguns são responsáveis pelas primeiras imagens que me vêm à cabeça, se fecho os olhos e penso nele. Não são as metrópoles ou os locais cosmopolitas que surgem em primeiro lugar, mas as grandes extensões vazias e as cidades pequenas demais para elas.
John Steinbeck, com As Vinhas da Ira, lido na adolescência, é um dos responsáveis.
Carson MCCullers, lida mais tarde, é outra. Este A Balada do café triste, é um livro de personagens. São elas, mais que a história, que são a sua força. Mas antes de as conhecermos tomamos contacto com a terra e percebemos que ela pode ter um papel importante na forma como aquelas se comportam. Uma escrita cinematográfica, no sentido em que facilmente a transformamos em imagens.
O primeiro parágrafo deste conto, que sugere todo o seu tom, coloca-nos imediatamente naquele lugar. É como se voássemos por cima das ruas. Podemos até sentir o frio e o calor, a imediata solidão, uma certa claustrofobia sentida num espaço longe de tudo, a forma como o tempo parece custar a passar.
E tudo isto em frases claras e certeiras pontuadas por alguns adjectivos que nos dão a ideia do ambiente que ali se vive.
A partir dessa descrição da terra acercamo-nos da casa e do café que ali existia para depois nos irmos aproximando das personagens, num movimento cada vez mais para o interior até que quase conseguimos compreendê-las, mesmo que aparentemente estejam tão longe de nós, nas margens de uma sociedade que as afasta.
Apesar de estarmos, no tempo e no espaço, a uma longa distância da realidade retratada, Carson MCCullers consegue fazer com que os habitantes e visitantes daquela terra não nos sejam indiferentes e quando fechamos o livro percebemos que afinal também nós já estivemos naquele lugar perdido e distante do mundo. Provavelmente sentados à mesa do café.

“Eu nunca fui à América, forma de designar um país que tomou para si o nome de todo um continente”
Perdão ? O Nome Estados Unidos DA América..
A sério?… Obrigada! 🙂
Excelente livro e excelente escritora
Sem dúvida!
Uma escritora de que gosto muito. Considero ‘Coração, Solitário Caçador’ (com tradução de José Rodrigues Miguéis) um dos melhores romances norte-americanos do século XX.
É verdade! E escreveu-o tão nova…
Gostei muito desta sua escolha, Ana. A Carson McCullers é uma das minhas escritoras favoritas.
E também nunca fui à América…
🙂 Antonieta
Ainda bem, Antonieta. É uma autora muito interessante. É pena que tenha desaparecido tão cedo.