Ficção ou Realidade?


Ana Lima,

Confesso que quando vi este vídeo pensei: é a Samsung a experimentar uma via alternativa de publicidade. Assim como quem diz: isto vai correr pelas redes sociais que nem água a jorrar de uma represa em período de cheia (se assim for, este post, mostra que a estratégia foi bem sucedida). Mas, pensando melhor, pode ser uma jogada muito arriscada. É que poderá haver quem não queira ter um equipamento de uma marca associada a um vídeo deste calibre.

Também pode acontecer tratar-se de uma actriz paga para fazer uma rábula e, nesse caso, há que dar os parabéns porque nos põe realmente bem dispostos.

Mas já me passou pela cabeça, num pensamento que tento afastar a todo o custo, que esta rapariga existe mesmo, que tem “uma voz”; que acabou, com alívio, a sua tese faz agora um ano; que está a trabalhar o que, coitada, lhe rouba algum tempo mas que lhe permite juntar dinheiro para concretizar um dos seus grandes desejos para 2013: “ter uma daquelas malas clássicas que ficam bem com tudo” e que são “uma conquista”. Não pensemos, no entanto, que os desejos desta jovem são todos deste grau de importância. Não. Para equilibrar, também estão na lista a felicidade e o amor o que a ajudará a “fazer mais coisas… ter mais experiências”.

À medida que escrevo penso: mas afinal, com tantos exemplos de pessoas, naquele grupo de idade, que lutam diariamente para sobreviver no nosso país qual é o problema de existirem jovens, como esta, que irradiam bem estar, sucesso e auto-estima? É verdade que outros há que, com o seu esforço, atingem metas importantes, pessoais ou que se reflectem positivamente na vida de outros. Estarei a ser preconceituosa? Talvez. Mas a verdade é que, neste caso concreto, estou desejosa que me digam que o guião foi escrito por alguém das Produções Fictícias e que a Filipa não existe mesmo. Não existe, pois não?

 

44 comentários em “Ficção ou Realidade?”

      1. No outro dia apanhei um blogue do género… mostrava uma menina supé-chique a exibir o vestido de gala supé-chique à frente de um monte de entulho. Acho que está tudo dito.

      2. Há muitos milhões de pessoas como a Filipa. Não vejo mal nenhum nisso. É um sinal de futilidade? Talvez seja, mas não é mais fútil do que desejar uma corneta aborígene para ir soprar para as reuniões do PSR ou querer umas pantufas da Serra da Estrela.

    1. Ana,

      Sei que é triste, mas o Pai Natal não existe… desculpe, não é uma rábula. Tendo em conta que a Samsung decidiu retirar do seu site a dita publicidade, parece que a coisa está a surtir o efeito contrário ao pretendido.
      http://www.meiosepublicidade.pt/2013/01/samsung-suspende-videos-em-que-bloguers-de-moda-apresentavam-os-desejos-para-2013/

      🙂

  1. Não me preocupa a vacuidade de algumas pessoas, nem que bloguem sobre ela. Aborrece-me, porém, que ela seja promovida como um estilo de vida desejável. Conteúdo à parte, podiam ter, pelo menos, posto tanto brio na articulação do discurso dos intervenientes como na decoração do local de filmagem.

    Já que se fala de blogues sobre moda, permita-me que recomende o http://advancedstyle.blogspot.com. Delicioso. 🙂

    1. Como é óbvio todos têm o direito de escrever e dizer o que pensam (sobretudo em situações inócuas destas). Aqui, de facto, o mais constrangedor é o trabalho dos criativos da empresa que fez a campanha, que não me parece que tenham sido felizes.
      Não sou nem conhecedora, nem apreciadora de moda. Mas o blogue que recomendou arrancou-me uns quantos sorrisos. 🙂

  2. Não percebo. Há muitos mundos . Se alguém vive no mundo da moda obviamente falará de moda e uma boa parte das suas expectativas serão sobre moda.

  3. existe uma tal de Pépa, e não Filipa e sim, o desejo feliz da malinha se non è vero, è ben trovato… no meio deste arremesso de campanha havia também outros tão ou mais ben trovatos que a Pépa… lamento desiludi-la.

  4. existe, conheço-a de algumas ocasiões sociais em comum, e o toque de tia bimba (aquele aspirar imbecil no fim de x número de palavras) é aquisição recente.

    diga-se de passagem que o bom gosto é ficar caladinha e adquirir a mala sem disso fazer alarme no mundo. o bom gosto e a educação.

    afinal, chanel não é para quem quer. é para quem pode. e ela, apesar d(e’)o aspirar, não pode…

  5. Ana, não desespere: posso garantir-lhe que estes casos são a excepção. E que, no caso em apreço, a culpa não lhe pode ser inteiramente assacada, a ela, à menina-bem.
    As pessoas que pensaram, filmaram e difundiram uma coisa destas, pensando que “isto” poderia ser considerado publicidade, têm mais responsabilidade do que a sujeita. E os seus pais, se forem vivos, não estão isentos de culpas.

    1. Se desesperar não será certamente por isto. 🙂
      Claro que, como disse acima, é a campanha que não faz sentido. Por isso concordo consigo. Deve haver gente tão interessante, no mundo da moda…

  6. Tirando o sotaque irritantíssimo, não vejo nada de especial, Ana. O vídeo é com uma blogger de moda para os seguidores de blogues de moda verem, queriam que ela falasse da crise do euro, do regime sírio ou do precipício orçamental nos EUA? Nem tanto ao mar…

    1. Não, José. Eu acho que ela poderia ter falado de moda. Aliás, se tem um blogue sobre o assunto, alguma coisa teria para dizer. E lá que o vídeo é especial, é. Tanto que hoje se falou mais nele do que nos temas que nos deveriam realmente preocupar…
      Quanto aos três temas de que falas, pensando bem, poderiam inspirar uma colecção inteira de Outono-Inverno e ainda daria para a da Primavera-Verão. 🙂

  7. Ana, não sei se esta Filipa existe, mas o tipo existe com certeza. Assim como existe um tipo mais complexo, que aparentemente se orienta para metas não materiais, mas que não deixa de coleccionar objectos cuja marca começa por i – do “mal” o menos, os Samsung “fazem” a coisa por muito menos dinheiro

    P.S. Estou desejoso que me digas que o «Não existe, pois não?» é uma ironia.

    1. Existem todos os tipos, pois claro!
      Quanto ao P.S., Carlos, a Samsung anda a ver se nos convence que ela não existe mesmo. Mas antes não fosse uma ironia… 🙂

  8. Olha Ana é decerto um guião das Produções Ficticias. Mesmo que digam o contrário.
    Adorava saber falar a língua que a Filipa fala…é dificílima!

    1. Cara Helena,

      Vá intervalando uma série de “sei lás” com o aspirar no final de cada 5 palavras, e está feito!

      😉

      1. Obrigada Pedro Santos. Tentei, mas sei lá, não dá. Experimentei com “coisas que sei” e saíu melhor. Mas nada que se compare ao original!

    2. Eu também continuo a achar que sim. E se não é eles devem estar roídos de inveja…
      Quanto à língua é difícil, sim. Mas aposto que já há escolas a ensiná-la. 🙂

      1. Diz-me depressa as escolas, porque as minhas tentativas não têm sido brilhantes. E eu gostava tanto de saber aquela língua…
        A malinha dispensava, a moda também, o Samsung que me deram passou a coisa inutilizável, mas aquela vozinha, ai aquela vozinha, isso sim, é que me daria grande chance de sucesso!

  9. Atenção. A indústria da moda é uma indústria relevante e que não deve ser posta em causa ou olhada de soslaio por causa das pepas em seu redor.

    Existe um discurso no “The Devil Wears Prada” bem interessante:

    (Miranda Priestly [Meryl Streep] gives Andy [Anne Hathawaya] a crash course on the color she picked on wearing but knowing entirely nothing about its birth in the fashion industry)

    “ANDY: No. No, no. Nothing’s… You know, it’s just that both those belts look exactly the same to me. You know, I’m still learning about all this stuff and, uh…

    MIRANDA: ‘This… stuff’? Oh. Okay. I see. You think this has nothing to do with you. You go to your closet and you select… I don’t know… that lumpy blue sweater, for instance because you’re trying to tell the world that you take yourself too seriously to care about what you put on your back. But what you don’t know is that that sweater is not just blue, it’s not turquoise, it’s not lapis. It’s actually cerulean. And you’re also blithely unaware of the fact that in 2002, Oscar de la Renta did a collection of cerulean gowns. And then I think it was Yves Saint Laurent, wasn’t it who showed cerulean military jackets? I think we need a jacket here. And then cerulean quickly showed up in the collections of eight different designers. And then it, uh, filtered down through the department stores and then trickled on down into some tragic Casual Corner where you, no doubt, fished it out of some clearance bin. However, that blue represents millions of dollars and countless jobs and it’s sort of comical how you think that you’ve made a choice that exempts you from the fashion industry when, in fact, you’re wearing the sweater that was selected for you by the people in this room from a pile of stuff.”

    1. Concordo absolutamente. Aliás já o disse acima. E é importante em múltiplas vertentes. A mim interessa-me como fenómeno sociológico, na perspectiva de Barthes, por exemplo. Mas não desprezo, de todo, as outras. Aliás, quando me visto ou vou às compras, bem que gostava de ter mais competências na matéria. 🙂

  10. Vi ontem este anuncio, já não sei exactamente em que canal. Olhei para o meu marido e ficamos os dois com cara de parvos, assim com quem pergunta, mas o que é isto?…….

  11. Valha-me Deus, eu nem sabia da existência da criatura…, mas prontes, sei lá, se a realização pessoal da aprendiz de tia passa por uma mala chanel, sempre se pode fazer umas rifas, sei lá.
    Acho eu.

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