Nada tenho contra os antigos alunos do Colégio Militar, nem contra os actuais ou os futuros, nem mesmo contra a instituição em si. Não conheço bem as razões do protesto, para além do que se tem sabido através da comunicação social (por exemplo, aqui). Suponho até que a “acção de luto” poderá ter sido bem pensada e, com os meios de que dispõem, chegará a muitas pessoas (eu própria contribuo para tal com este post).
Mas a verdade é que não gostei de ver isto:
(por baixo da faixa preta está o nome de António Sérgio, que pensou tanto a questão da educação e que, por coincidência, nasceu no dia 3 de Setembro, há exactamente 130 anos).


A presença da tarja deve ao facto de Sérgio ter sido foi aluno do Colégio Militar.
Que, precisamente, levou a que não gostasse?
Sim, eu sei qual a razão. O próprio artigo do Público referido (em link ) explica. O que não gostei foi de ver a placa toponímica completamente tapada ocultando, neste caso, o nome de alguém empenhado nas questões da educação e que desconheço se, na sua época, terá pensado sobre o assunto em causa. É que não se tratava de uma tarja (o que seria bem diferente) mas da ocultação total do nome que identifica a rua. Felizmente hoje já não está tapada.
Há anos, quando ainda só se discutia a integração das mulheres nas forças armadas, aconteceu-me fazer uma reportagem sobre o Colégio Militar. Gostei muito de visitar a instituição e conversar com directores e alunos, fui recebida com uma enorme cortesia. Se bem que o objectivo do meu trabalho era só falar do colégio, como a integração das mulheres nas FA andava na ordem do dia, coloquei a questão aos meus interlocutores. Nunca me esqueci da reacção. Segundo eles cairia o carmo e a trindade, nada mais seria como antes, seria perder a identidade. Um cenário desses no colégio foi rejeitado com veemência. Seria o fim, disseram-me. Porquê? Porque “as mulheres distraem e desestabilizam”. Em nome da verdade não foram estas as palavras usadas. Como falavam com uma senhora, por instinto e formação, arredondaram o discurso, mas o recado foi este. Por isso não me espanta nada esta reacção.
Em todo o mundo civilizado – por enquanto, que as ameaças são graves – há colégios mistos e colégios que o não são. Em todos os países europeus há colégio militares para formação de elites que não mudam a sua política de recrutamento.
Pelo Colégio Militar passaram grandes figuras portuguesas.
Uma delas foi António Sérgio e é em sinal de luto que os seus camaradas hoje taparam a placa da rua com o seu nome. Vão fazê-lo com as placas toponímicas de todas as ruas do país que homenageiam antigos alunos.
Parece que a A. do post não percebeu a ideia – nem se vê aqui a explicação deixada.
Não se trata de uma questão de discriminação sexual, mas de identidade histórica do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas.
A incapacidade de gerar e preservar as (poucas!) instituições existentes e o ímpeto de as sacrificar na primeira ocasião é um dos males nacionais. De facto, em Portugal as instituições mais válidas não estão a salvo de leviandades e vaidades – como é, confessadamente, o caso da ignorante secretária de estado.
A pecha tanto se aplica-se ao Colégio Militar como à Maternidade Alfredo da Costa.
Verifico que também é adepta da preservação da memória.
Então o BE não encontra motivo para protestar esta discriminação?
Ou o problema são os piropos?
Ou tem medo dos “coronéis”?
Isto é o machismo na sua forma mais pura… meninas destabilizam… é preciso proteger os machos das tentações … eles aprendem a dominar armas, mas não o que têm entre as pernas, e sobretudo na cabeça !
Este estabelecimento de ensino, para todos os efeitos práticos acolhe rapazes do a partir do 5º ano até ao 12º.
Ensinam disciplina militar e agarrado a isto vem uma certa mística de ‘já sou um homem’.
Quer se queira quer não, as hormonas e alguma competição fazem com que a ideias e objectivos se alterem em relação ao sexo oposto.
No caso das raparigas, algo semelhante também começa a acontecer.
Juntar os dois sexos num internato, em que há um certo estatuto para quem conseguir burlar a segurança para dar uma saltada à noite para o pagode, é jogar com a vida das crianças que, conseguindo o feito de burlar a segurança, não terão por vezes a capacidade de se protegerem a outros níveis.
Quem escreve assim não é gaga:
“Às antigas alunas de gerações passadas nem tal lhes passava pela cabeça, que as atuais pudessem ir para o IPE. Fui aluna do Instituto de Odivelas, tal como todas aquelas que a AAAIO representa. No Instituto de Odivelas alicerçámos os valores que nos eram transmitidos pelos nossos pais: lealdade, amor à verdade, sentido do dever e da honra, integridade moral, disciplina, responsabilidade e resiliência.Foi também no Instituto de Odivelas que aprendemos a defender os direitos da mulher. Por isso, sentimo-nos ofendidas, como mulheres do nosso tempo e como antigas alunas do Instituto de Odivelas, com o artigo de opinião da secretária de Estado da Defesa Nacional publicado aqui no Diário de Notícias sob o título “Fazer História”.O Colégio Militar e o Instituto de Odivelas são (ou foram até à data) escolas de ensino diferenciado por género. Por essa razão não conhecemos nenhuma mulher que quisesse frequentar o Colégio Militar, tal como não conhecemos nenhum homem que quisesse frequentar o Instituto de Odivelas. Terá a secretária de Estado da Defesa conhecido? Responsável pelos estabelecimentos militares de ensino, a secretária de Estado da Defesa desconhece, por completo, as culturas centenárias quer do o Instituto de Odivelas, a escola que quer fechar, quer do Colégio Militar, para onde quer transferir as alunas do primeiro. O Instituto de Odivelas é uma escola centenária, com muitas provas dadas. É uma escola de excelência que tem formado muitas mulheres pioneiras e líderes nas suas profissões. As alunas do Instituto de Odivelas querem ter acesso a um ensino diferenciado por género para assim se desenvolverem ao seu ritmo e não ao ritmo mais lento dos rapazes, pois rapazes e raparigas crescem em ritmos diferentes. O ensino diferenciado por género é um direito de opção muito útil e bem-sucedido para os perfis adequados. É para isso que a diversidade de opções de ensino é útil e salutar. Querer castrar a diversidade de opções é antiquado, ditatorial e antidemocrático.Também os interesses e a forma de olhar o mundo e a vida são diferentes. No Instituto de Odivelas, aprende-se que os caminhos para o êxito exigem liderança, confiança, independência, integridade e um instinto para o conseguir; as alunas aprendem a conciliar vários papéis, que irão surgir durante a sua vida – no final do seu percurso, as alunas saem tecnicamente preparadas para fazer a diferença para um mundo melhor.Reconhecidos académicos como David Chadwell e Carol Gilligan, entre outros, defendem que o ensino diferenciado por género promove a igualdade de educação para as jovens porque favorece uma maior participação feminina em profissões tradicionalmente ocupadas pelos homens. A primeira mulher que obteve um brevet militar em Portugal, Paula Costa, é uma antiga aluna do Instituto de Odivelas que a SEDN pretende fechar. A primeira mulher professora de engenharia em Portugal, precisamente no Instituto Superior Técnico, até aí um feudo tipicamente masculino, Isabel Gago, foi uma antiga aluna do Instituto de Odivelas que a SEDN quer agora fechar. A antiga diretora-geral do Planeamento de São Tomé, Dr.ª Julieta Espírito Santo, foi uma antiga aluna do Instituto de Odivelas que a SEDN pretende agora fechar. A presidente da Associação de Mulheres Cientistas, Amonet, e membro do board da Plataforma Europeia Mulheres Cientistas (EPWS), Ana Maria Lobo Prabakar, foi aluna do Instituto de Odivelas que o Governo agora planeia fechar. A fundadora da CGD na Alemanha, Gisele Athayde Lampe, foi aluna do Instituto de Odivelas. A primeira catedrática de matemática do Mellon College of Science da Universidade de Carnegie Mellon em Pittsburgh, nos EUA, Irene Quintanilha Coelho da Fonseca, foi aluna do Instituto de Odivelas. A lista é grande e não cabe aqui neste espaço. O ato pretensamente libertador da mulher que o ministro da Defesa Nacional está a querer fazer ao encerrar o Instituto de Odivelas afinal é contra as mulheres. Nós éramos independentes e agora tiram-nos a independência. Bastávamo-nos a nós próprias e agora impõem-nos ficar sob jurisdição de um colégio com um modelo masculino de 200 anos. Fechar uma escola de excelência é um erro. (…)”
M.Margarida Pereira-Müller
DN 4 Setembro
Comecei por responder individualmente mas resolvi responder a todos os vossos comentários, duma só vez, porque me parece que muitas das questões são comuns:
O meu post teve a ver com a forma de protesto utilizada, não com os motivos, em relação aos quais não tenho opinião formada. No entanto, pensando no assunto, parece-me que a ideia de haver estabelecimentos de ensino dirigidos especificamente apenas a um dos sexos é perfeitamente legítima. É uma questão de pluralidade e tratando-se de uma opção que cada família pode tomar não vejo que tal possa constituir um problema. Não ponho em causa a qualidade do ensino que terá certamente standards elevados. Tanto o Colégio Militar como o Instituto de Odivelas terão formado excelentes homens e mulheres tal como outras escolas. E tal como essas outras, terão formado, homens e mulheres medíocres.
Quanto às razões que levam o Ministério a tomar esta decisão serão provavelmente puramente financeiras. E, isso sim, penso que é preocupante sobretudo se implicar despedimentos e se é tomada sem ter bases realmente bem estruturadas. De qualquer forma compreendo que, com a possibilidade de as mulheres fazerem carreira militar de forma bem distinta do que acontecia no passado, aproximando os dois sexos a esse nível, a situação é bem diferente do que era quando as duas escolas foram criadas.
Até 2015 a situação ainda poderá dar muitas voltas pelo que penso que haverá tempo para se apresentarem ideias.
Por outro lado uma instituição que apresenta e defende as suas razões deverá sempre ser ouvida e por isso a campanha é positiva. Já aquele meio específico, volto a dizê-lo, penso que não foi feliz.