Tristeza


Ana Vidal,


“Escrevo isto porque estou triste. Não triste duma tristeza corriqueira, pão com manteiga, dessas tristezas que se encontram por aí em qualquer banca de revista ou nos ououous das músicas americanas que ouvimos ao mudar estações de rádio; muito menos daquela tristeza melancólica cinematográfica, cacho do cabelo escorrendo no rosto, corpo jogado no sofá lamentando a vida, olhar perdido pro azul, nada disso; nem mesmo daquela tristeza generosa que chora no taxi desabafando com o motorista, as janelas dos prédios passando com velocidade feito a vida toda que ficou pra trás e que não houve, não houve, não houve; minha tristeza não chora, não tem trilha sonora, não rima com beleza. Falo duma tristeza ancestral que corta sem esperanças a terça-feira, que entoa um cântico ritmado, seco, só lamento: não tem cura, não busca consolo e avança sempre. Essa tristeza cria nós por dentro, esvazia os órgãos e imprime a tudo uma textura de pedra, arranhando e tirando o conforto de cada minuto, sem descanso. Olhos arregalados no escuro, acesos, a tristeza vigia feito lobo o medo, o nada, a noite.”


Um belíssimo texto da minha talentosa amiga brasileira Gisela Campos, uma autora praticamente desconhecida em Portugal. Escolhi-o porque, tal como ela, sofro desta tristeza ancestral, inexplicável e absurdamente compatível com uma alegria aparente. Esquizofrenia, dirão alguns. Eu chamo-lhe consciência.

Este país não é para velhos, é para idosos


Ana Vidal,


Estou farta das pinças lexicais com que os políticos falam dos velhos (pobres) deste país, e tudo se torna ainda mais revoltante em época de campanha eleitoral. Pura hipocrisia: são tratados abaixo de cão, sem qualquer consideração ou respeito na prática, puxam-lhes o tapete no fim da vida com condições de sobrevivência desumanas e humilhantes. Mas dizer “velhos” é completamente proibido, isso é que nunca, como se fosse esse o grande insulto. Têm o maior cuidado em chamar-lhes “idosos” (ou outro preciosismo qualquer inventado por esta esta intragável e oportunista novilíngua) mas tratam-nos como pesos descartáveis. E aposto que dormem que nem justos.

In memoriam


Ana Vidal,

 

In memoriam

(ao Eduardo Nery)

Habitava um mundo estranho
povoado de divindades africanas
que ensaiavam as suas danças tribais
regidas pela batuta de Wagner
Era uma galáxia longínqua
num pátio de Lisboa
o reino do artista

Recebiam-me à porta
festivas buganvílias e Valquírias
tomadas da mesma vertiginosa exuberância
animadas pela mesma estética intemporal
natureza pura e fantasia humana
vegetação e som pulsando em uníssono
E tudo fazia sentido
um inexplicável sentido
um misterioso sentido
no reino do artista

Depois era preciso abrir caminho
sem medo de armadilhas
por entre graves sobas ancestrais
e feiticeiros de olhos penetrantes
a guarda real
do reino do artista

Passada a prova iniciática
esperava-me lá ao fundo um sorriso tímido
envolto em espirais de fumo
nascidas da volúpia de um cachimbo
Feliz entre tintas e pincéis
quadriculava a vida em cores vivas
e banhava-a de ouro no final
para que tudo fosse luz
no reino do artista

Eu levava-lhe palavras e silêncios
medidos sempre com mil cuidados
para não perturbar trompas e clarinetes de nibelungos
para não desafiar os deuses vodun na sua eterna vigília
para não profanar em vão
o reino do artista

Palavras e silêncios
eram tudo o que eu tinha para dar-lhe
Por lá ficaram
suspensos entre o Báltico e a costa do Benim
marítima deriva num pátio de Lisboa
o reino do artista.

O que estou a ler (15)


Ana Vidal,

De nenhum livro poderei dizer com tanta propriedade que é o que “estou a ler” como de um livro de poesia. Porque um bom livro de poesia nunca está definitivamente lido, volto a ele muitas vezes e descubro-lhe sempre novas leituras, novas nuances que dependem mais do meu estado de espírito e do meu olhar do momento do que daqueles que presidiram à sua escrita original. Neste sentido, mais do que qualquer outro género literário, a poesia pode equiparar-se à pintura abstracta ou à música, tem o mesmo efeito de interacção cúmplice que estas exercem em quem se deixa envolver por elas. São artes caleidoscópicas, que requerem interpretação e retorno alheios para estarem verdadeiramente completas. Sou cada vez mais uma leitora apaixonada de poesia. As minhas mesas de cabeceira sufocam, encantadas, debaixo dos deslumbrantes delírios de Borges ou de Pessoa, das delicadas rendas de Nuno Júdice ou de Astrid Cabral, dos intrigantes labirintos de Drummond ou de Rilke, das íntimas pulsões de Maria Teresa Horta ou de David Mourão-Ferreira, das domésticas alquimias de Ana Luisa Amaral ou de Adélia Prado. Entre muitos, muitos outros. Vou intervalando poesia com outras leituras, e mesmo dessas raramente leio só um livro de cada vez.

 

Mas não é de poesia o livro de que quero aqui falar. O livro que agora “estou a ler”, ou, melhor dizendo, aquele que neste momento mede forças com os meus poetas, é El amor de mi vida, de Rosa Montero. Todo o livro é uma empolgada e empolgante declaração de amor à literatura, às leituras que mais impressionaram esta escritora que sigo religiosamente desde esse extraordinário livro que é “La loca de la casa”, curiosamente também ele dedicado à sua grande paixão pela escrita. El amor de mi vida é uma compilação de crónicas publicadas no El País (além de escritora e psicóloga, Rosa é também uma respeitada e muito premiada jornalista) com o tema da literatura, cada uma mergulhando num livro específico e no seu universo muito próprio. Mas Rosa Montero não se limita à simples crítica literária, nem sequer a uma apresentação mais aprofundada da narrativa e das personagens. Vai ainda mais longe, traçando-nos um perfil psicológico do autor através de episódios da sua vida, de factos que influenciaram directa ou indirectamente a sua escrita. É, também, um fascinante trabalho de investigação. Revela-nos, por exemplo, as verdadeiras razões que atiraram Charles Darwin para uma volta ao mundo a bordo do pequeno Beagle – “Viagem de um naturalista à volta do mundo” -, transformando um médico e um sacerdote frustrados num apaixonado cientista que deixaria ao mundo a colossal teoria sobre “A Origem das Espécies”. Ou os abismos de outra aterradora viagem – “Até ao Amanhecer” – desta vez aos labirintos mais tenebrosos da loucura, voluntária e corajosamente enfrentada pelo escritor Michael Greenberg por amor a uma filha bipolar em pleno transe psicótico.

 

Enfim, são quase cinquenta preciosas reflexões sobre outras tantas obras literárias, a maioria de referência (em alguns casos sobre toda a obra de um escritor), guiadas pela pena de mestre e visão original de uma leitora compulsiva e muito bem documentada. Recomendo vivamente.  Nas suas palavras de introdução a este El amor de mi vida, Rosa Montero deixa bem clara a natureza da sua relação com os livros:

 

“Sempre tive pena das pessoas que não lêem, não por serem mais incultas, que sem dúvida o são; ou por estarem mais indefesas ou serem menos livres, o que também é verdade; mas, sobretudo, porque vivem muitíssimo menos. A grande tragédia dos seres humanos é virem ao mundo cheios de ânsias de viver e estarem condenados a uma existência efémera.” *


“Graças aos livros partilhamos os nossos sentimentos, aprendemos com os outros e sentimo-nos acompanhados não só na nossa pequena existência, mas também em algo muito mais abrangente, muito maior que nós, algo que nos une através do tempo e do espaço. Não é prodigioso poder vibrar com as palavras de alguém que já morreu há um século, por exemplo?” *


“Para mim os livros são verdadeiros talismãs. Se tenho algum à mão para ler, acho que sou capaz de aguentar quase tudo. São um antídoto para a dor, um calmante para a impaciência, um excitante contra o tédio. Nunca me sinto sozinha nem exitem horas perdidas quando me deixo submergir num texto.” *

 

 

Nota* – A escolha e tradução das citações é minha (desde já as minhas desculpas a Rosa Montero) porque estou a ler o livro no original.

 

E tu, amigo Bandeira, em que leituras te perdes actualmente?

Carta aberta, para o lixo


Ana Vidal,

Caro presidente Obama,

Sei que é um homem muito ocupado, não lhe tomo muito tempo. Venho apenas lembrá-lo de que tem em casa um Nobel da Paz. Mais: um prémio que lhe foi atribuído por antecipação, antes de qualquer obra de vulto que o justificasse. Ou seja, um inédito voto de confiança no seu carácter e na sua capacidade de promover a paz no mundo, que o sentou directamente ao lado de pessoas como Nelson Mandela e Madre Teresa de Calcutá. Tem agora uma excelente ocasião para provar que mereceu essa honra. Espero, sinceramente, que não a desperdice.

 

Foi você que pediu um piropo?


Ana Vidal,


O anedotário nacional soma e segue. Agora é a penalização do piropo, como se não houvesse problemas a sério para nos preocuparmos.


Se não quiser ir preso, cavalheiro, modere a linguagem quando passar por uma boazona (perdão, por uma jovem interessante). Nada de sugestões em vernáculo de calceteiro, nada de fantasias culinárias. Se não conseguir mesmo ficar calado, nunca vá mais longe do que isto: “Minha senhora, permita que lhe diga que a acho particularmente bonita. Nos meus sonhos mais ousados, imagino-me a oferecer-lhe um bombom na Versailles”.

Home sweet home


Ana Vidal,

 

Chego de fora mesmo a tempo de não precisar de me beliscar para saber que estou de volta a casa. Enquanto o país arde triste e realmente, no Chiado brinca-se aos fogos num simulacro comemorativo para turista ver, com figurantes e cheiro a fumo em spray. Enquanto morrem bombeiros e as populações se queixam de uma aflitiva falta de meios, corporações inteiras sobem e descem escadas de incêndio, de mangueira na mão, fingindo apagar um fogo inexistente. Diria o velho Camões, habituado aos lusos absurdos, que foi “um fogo que arde sem se ver”. Digo eu, entre a estupefacção e a vergonha alheia, que isto é de um mau gosto atroz e de uma total falta de senso. E ainda falam da Cristina Espírito Santo.

Da improbabilidade


Ana Vidal,


1. No Canadá, duas crianças dormem tranquilamente no primeiro andar de um prédio em cujo rés-do-chão há uma pet shop. Uma piton de 45Kg escapa-se inexplicavelmente do seu “aquário”, infiltra-se no sistema de ar condicionado do prédio, sai no apartamento do primeiro andar, vai até ao quarto das crianças e asfixia ambas até à morte.

2. Na Suécia, uma família composta de pai, mãe grávida e duas crianças, viaja de carro em direcção ao hospital onde a mãe vai dar à luz. A meio do caminho a mãe entra em trabalho de parto e tem a criança no carro em andamento. Com o susto, o pai distrai-se da estrada e o carro despista-se, num aparatoso e violento acidente com inúmeras cambalhotas em que todos são cuspidos e se perdem de vista. Reencontram-se horas depois no dito hospital, abismados e ilesos, incluindo o recém-nascido.

Em ambos os acontecimentos, do final trágico ao final feliz, o mesmo inacreditável grau de improbabilidade. Perante isto, pergunto: à luz de que religião, crença ou filosofia podem estes factos ser explicados? Que deus ou deuses, se algum existe, presidiram a estes destinos? Com que bitola de arbitrariedade e de justiça? Com que misterioso objectivo?
Ou não serão eles simplesmente duas provas de que só o acaso, esse imenso absurdo caprichoso e volátil, é o plasma das nossas vidas?

Possível parágrafo de uma continuação impossível


Ana Vidal,

 

Pi-pi. pi-pi. Alô, Claudine? Daqui é o Peix… digo, o Carlos da Maia. Quê?? Não, filha, esse gajo era um chato do caraças (ou será que devia dizer “um chato de galochas”?)… enfim, o que interessa é que eu sou muito mais cool! Olha, liguei só para confirmar o nosso encontro mais logo no Oceanário. Mas tem de ser uma rapidinha, ok? Já sabes como a Dudu é desconfiada e ciumenta. Nem parece minha irmã, caramba. Pensando bem, acho que esta noite vou arrancar-lhe um cabelinho para mandar fazer um teste de ADN… com essa é que ela não conta, olarilas. Vantagens de viver no século 21. Bom, mon petit choux, agora tenho de desligar que ela é capaz de tudo, tem espiões por todo o lado. Até logo. Junto ao lago das morsas, não te esqueças. E vê lá onde estacionas a calèche, que já estou farto de pagar as tuas multas.

IPO


Ana Vidal,

Olho as pessoas à minha volta e sinto-me em casa. Desta vez não é por mim que franqueio o portão, não há hesitação ou angústia que me tolham os passos. Mas será sempre por mim que voltarei. Uma estranha nostalgia faz-me correr a revalidar o cartão, expirado há anos, que comprova a pertença e me dá a ilusão de uma garantia de segurança. De salvação. Quem por cá passa ou mora algum tempo sabe do que falo: fica-se íntimo, solidário, cúmplice de uma espécie de partilha desesperada que nos une para o resto da vida, valha esse prazo o que valer. Já quase não há caras familiares mas todas as caras são demasiado familiares. É meu pai o velho rabugento que mede forças com a cadeira de rodas, zangado com o mundo. É minha irmã a mulher magra, ainda coquette, que olha furtivamente em volta e ajeita a peruca loira, na esperança de que passe por cabelo verdadeiro. É minha filha a menina de olhar triste que brinca à sombra de uma árvore, lenço de cores berrantes amarrado a cobrir a ausência dos caracóis sedosos. Também eu já caminhei sem destino por estas ruas, sufocando nas entranhas um medo irracional. O maior pesadelo não é a dor física, é o terror. Também a mim já pareceram hostis estes muros, inóspitos estes bancos de jardim. Já fui aquela mulher que vejo agora no bar, agarrada à chávena de café como ao último e supremo prazer a que tem direito. Já me aturdi com a vozearia dos lamentos nas salas de espera. Para calá-los já fui bobo da corte, com graças estafadas para exorcizar fantasmas e arrancar sorrisos a quem se sente no corredor da morte, transido pelo medo e pela dor.  Já deixei lágrimas, suspiros e sorrisos nestes corredores, primeiro sombrios, depois esperançosos, finalmente libertadores. O tempo é sábio, esbate as mágoas e deixa-nos só as boas memórias. Foi aqui que aprendi a ler nas entrelinhas, a interpretar olhares mais do que palavras, a fintar as trevas, a saber esperar. Foi aqui que encontrei a maior condensação de humanidade que alguma vez me foi dado conhecer. Foi aqui que me questionei sobre o sentido da vida, o sentido da morte, e foi aqui que olhei ambas de frente. Estas paredes puseram-me à prova e revelaram-me o melhor de mim. Como posso sentir por elas alguma coisa que não seja gratidão?

Delito perdoável


Ana Vidal,

Antes que chovam as críticas e reclamações que sempre acompanham todas as mudanças, informamos que o layout do Delito sofreu algumas alterações para que a leitura do blogue se torne mais confortável em dispositivos móveis. Razões tecnológicas, portanto, sugeridas pelo sempre atento e prestável Pedro Neves, do Sapo. Esperamos que os nossos leitores se adaptem sem grandes percalços a esta remodelação necessária, e que o governo ponha os olhos neste exemplo de rapidez e determinação.

Notícias da Terra Média


Ana Vidal,

O estranho Verão deste ano voltou a trazer-me uma Sintra de que ainda me lembro em criança: muita névoa, muita humidade e um friozinho permanente que me transportam de imediato à infância. Por momentos volto a sentir-me num conto de fadas, princesa numa floresta mágica habitada por elfos, duendes e árvores que falam. Um cenário português digno de Tolkien, a que nem falta a voz longínqua do meu avô, apontando a serra coberta de nuvens brancas: “Vês? A serra de Sintra tem neves eternas.”

(Nota: as fotografias são da net mas podiam ser minhas, tiradas hoje mesmo)

Alerta


Ana Vidal,

 

Cuidado com as constantes recomendações da Protecção Civil, que nos mandam usar “roupa larga, opaca e a cobrir a maior parte do corpo”. Vejo aqui uma clara tentativa de islamização da sociedade portuguesa.

Mudam-se os tempos


Ana Vidal,


É emocionante ver como as questões ideológicas, pelas quais tanto se matou desde sempre em todo o mundo, estão a ficar ultrapassadas e afastadas do essencial das lutas dos homens. Seja em regimes de esquerda ou de direita, por todo o lado os povos saem à rua em protesto contra aquilo que é transversal a todos esses regimes: a falta de liberdade de expressão, as injustiças e desigualdades sociais, a corrupção, os abusos de poder, a degradação das condições de vida, a negação do direito a um futuro melhor para os filhos. Chamem-me utópica, mas parece-me um sinal claro de que a humanidade está a evoluir, a conquistar a sua maturidade. A exigir que seja respeitada a sua impressão digital e a fazê-lo com voz própria, sem intermediários. E fico feliz por viver numa época em que este passo é visível.