De nenhum livro poderei dizer com tanta propriedade que é o que “estou a ler” como de um livro de poesia. Porque um bom livro de poesia nunca está definitivamente lido, volto a ele muitas vezes e descubro-lhe sempre novas leituras, novas nuances que dependem mais do meu estado de espírito e do meu olhar do momento do que daqueles que presidiram à sua escrita original. Neste sentido, mais do que qualquer outro género literário, a poesia pode equiparar-se à pintura abstracta ou à música, tem o mesmo efeito de interacção cúmplice que estas exercem em quem se deixa envolver por elas. São artes caleidoscópicas, que requerem interpretação e retorno alheios para estarem verdadeiramente completas. Sou cada vez mais uma leitora apaixonada de poesia. As minhas mesas de cabeceira sufocam, encantadas, debaixo dos deslumbrantes delírios de Borges ou de Pessoa, das delicadas rendas de Nuno Júdice ou de Astrid Cabral, dos intrigantes labirintos de Drummond ou de Rilke, das íntimas pulsões de Maria Teresa Horta ou de David Mourão-Ferreira, das domésticas alquimias de Ana Luisa Amaral ou de Adélia Prado. Entre muitos, muitos outros. Vou intervalando poesia com outras leituras, e mesmo dessas raramente leio só um livro de cada vez.
Mas não é de poesia o livro de que quero aqui falar. O livro que agora “estou a ler”, ou, melhor dizendo, aquele que neste momento mede forças com os meus poetas, é El amor de mi vida, de Rosa Montero. Todo o livro é uma empolgada e empolgante declaração de amor à literatura, às leituras que mais impressionaram esta escritora que sigo religiosamente desde esse extraordinário livro que é “La loca de la casa”, curiosamente também ele dedicado à sua grande paixão pela escrita. El amor de mi vida é uma compilação de crónicas publicadas no El País (além de escritora e psicóloga, Rosa é também uma respeitada e muito premiada jornalista) com o tema da literatura, cada uma mergulhando num livro específico e no seu universo muito próprio. Mas Rosa Montero não se limita à simples crítica literária, nem sequer a uma apresentação mais aprofundada da narrativa e das personagens. Vai ainda mais longe, traçando-nos um perfil psicológico do autor através de episódios da sua vida, de factos que influenciaram directa ou indirectamente a sua escrita. É, também, um fascinante trabalho de investigação. Revela-nos, por exemplo, as verdadeiras razões que atiraram Charles Darwin para uma volta ao mundo a bordo do pequeno Beagle – “Viagem de um naturalista à volta do mundo” -, transformando um médico e um sacerdote frustrados num apaixonado cientista que deixaria ao mundo a colossal teoria sobre “A Origem das Espécies”. Ou os abismos de outra aterradora viagem – “Até ao Amanhecer” – desta vez aos labirintos mais tenebrosos da loucura, voluntária e corajosamente enfrentada pelo escritor Michael Greenberg por amor a uma filha bipolar em pleno transe psicótico.
Enfim, são quase cinquenta preciosas reflexões sobre outras tantas obras literárias, a maioria de referência (em alguns casos sobre toda a obra de um escritor), guiadas pela pena de mestre e visão original de uma leitora compulsiva e muito bem documentada. Recomendo vivamente. Nas suas palavras de introdução a este El amor de mi vida, Rosa Montero deixa bem clara a natureza da sua relação com os livros:
“Sempre tive pena das pessoas que não lêem, não por serem mais incultas, que sem dúvida o são; ou por estarem mais indefesas ou serem menos livres, o que também é verdade; mas, sobretudo, porque vivem muitíssimo menos. A grande tragédia dos seres humanos é virem ao mundo cheios de ânsias de viver e estarem condenados a uma existência efémera.” *
“Graças aos livros partilhamos os nossos sentimentos, aprendemos com os outros e sentimo-nos acompanhados não só na nossa pequena existência, mas também em algo muito mais abrangente, muito maior que nós, algo que nos une através do tempo e do espaço. Não é prodigioso poder vibrar com as palavras de alguém que já morreu há um século, por exemplo?” *
“Para mim os livros são verdadeiros talismãs. Se tenho algum à mão para ler, acho que sou capaz de aguentar quase tudo. São um antídoto para a dor, um calmante para a impaciência, um excitante contra o tédio. Nunca me sinto sozinha nem exitem horas perdidas quando me deixo submergir num texto.” *

Nota* – A escolha e tradução das citações é minha (desde já as minhas desculpas a Rosa Montero) porque estou a ler o livro no original.
E tu, amigo Bandeira, em que leituras te perdes actualmente?