Caça às bruxas no reino dos feiticeiros


Ana Vidal,

Por muito que a ética jornalística ande pelas ruas da amargura – e anda – isto é absurdo, ofensivo e, pior do que isso, muito preocupante. Se existe violação do segredo de justiça é porque a fuga de informação partiu de dentro, de quem está obrigado ao dito segredo. É a origem que tem de ser investigada e punida, não o destino. Esta proposta é uma espécie de “mate-se o mensageiro”, lembra-me aquele caso ridículo de condenação por corrupção em que não havia corruptor, só corrupto. Não só não vai resolver nada como vai afastar ainda mais os jornalistas da investigação séria de casos de justiça, e as consequências podem ser imprevisíveis. 

Ainda a loucura panteanista que assolou o país (se Assunção Esteves inventa palavras também posso fazer o mesmo)


Ana Vidal,

Que Sophia merece o Panteão, acho que nem se discute. Pergunto-me é quais serão afinal os critérios de selecção, e sobretudo fico aparvalhada com esta forma de dar notícias… como se ela estivesse em competição com o Eusébio para ver quem chega lá primeiro. Este país ensandeceu de vez??

 

(Para já não falar no crescente analfabetismo dos jornalistas. Quando a TSF escreve, assume e assina por baixo a palavra “transladada”, acho que está tudo dito.)

 

Actualização: afinal as palavras “trasladação” e “transladação” são sinónimos, ambas estão correctas. Agradeço aos comentadores que fizeram a correcção. Sempre a aprender.

Eusébio, uma lição


Ana Vidal,

 

Quando a minha mãe esteve internada no no recém-inaugurado Hospital da Luz, no quarto ao lado estava o Eusébio. Era sempre complicado passarmos a barreira de segurança que preservava o doente famoso de jornalistas, fotógrafos e meros penetras, tínhamos de provar a nossa identidade para passar da sala de entrada do piso ao corredor dos quartos (o hospital fervilhava de esquemas para furar essa barreira). Íamos sabendo da evolução do estado dele pelas enfermeiras e pelas notícias cá fora, e um dia soubemos que ele tinha tido alta e ia sair nessa tarde. Por acaso cheguei ao hospital muito cedo nessa manhã, ainda não tinha começado o circo mediático. Passei a sala e entrei no corredor ainda silencioso, completamente deserto. Hesitei, voltei a hesitar, mas a curiosidade foi mais forte: não resisti e espreitei pela porta aberta do quarto de Eusébio, como se me tivesse enganado na porta. Estava sozinho e acordado, olhou-me, disse “bom dia” e sorriu. Nem um pingo de enfado, contrariedade ou irritação perante aquela inesperada invasão da sua privacidade. Nem um gesto para chamar o segurança, ausente por momentos. Só um sorriso simpático, quase um convite para entrar. Dei-lhe de volta o meu melhor sorriso e os bons-dias, pedi desculpa pelo “engano” e desejei-lhe as melhoras. Saíu nessa tarde, a minha mãe saíu poucos dias depois. Não voltei a vê-lo. Mas hoje, no dia do anúncio da sua morte, lembrei-me deste episódio e deixo aqui a história. É a minha homenagem a um homem grande a quem a fama nunca corrompeu nem roubou a simplicidade.

Receita de sempre


Ana Vidal,

É muito provável que este poema já tenha sido publicado aqui (não fui procurar, confesso), mas é sempre bom recordá-lo. Que acorde um Ano Novo em cada um de nós, e que seja bem menos doloroso do que este que passou.

 

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade

Lisboa em camisa*


Ana Vidal,

 

Já não aguento mais anedotas, defesas acaloradas e indignações puritanas sobre o video promocional de um escritório de advogadas de Lisboa. Deixem lá as senhoras venderem o seu peixe como sabem, podem ou sonham, deixem-nas lá tentar demonstrar a sua eficácia através de sapatos de agulha com implantes de gibóia (morta à chapada, como diria alguém que conheço com graça), mini-saias de lycra e pulseiras tilintantes de ouro chinês. Juro que não percebo como é que este assunto, que não vale um caracol, atingiu contornos de esquizofrenia colectiva. Percebo ainda menos como foi que chegou à Ordem dos Advogados em forma de queixas sucessivas. O facto, inegável, é que elas puseram o país a ver o video, a falar dele compulsivamente nas redes sociais, e, pasme-se, já chegaram até às notícias televisivas em horário nobre. Se tudo isto lhes trará novos clientes, não sei. Se esses eventuais clientes não irão ao engodo de outros serviços, atordoados pela mensagem dúbia, também não faço ideia. O tempo e o mercado o dirão, e só elas recolherão os louros da ousadia ou pagarão o preço do fiasco. Por que raio temos nós todos de nos preocupar com isso? Temos já 40 anos de democracia, caramba. Conquistámos o direito à liberdade de expressão, à liberdade de vestir ou despir o que nos apetecer, conquistámos até o direito ao mau gosto. Será que em todos estes anos ainda não conseguimos encaixar estas simples premissas?

 

(* título roubado a Gervásio Lobato, que já não se importará muito)

Rosa, rosae


Ana Vidal,

 

Uma rosa é uma rosa é uma rosa. Declarou Gertrude Stein, pintou Magritte, nomeou Umberto Eco, humanizou Saint Exupéry, aprisionou num frasco Coco Chanel. E provei eu, hoje, em forma de uma compota hiper-enjoativa. Sabem que mais? Só os grandes deveriam atrever-se a tocar numa rosa.

O mundo é um lugar estranho


Ana Vidal,

Pergunta legítima: se este homem não estava a usar linguagem gestual reconhecidamente útil, se não planeou a extraordinária proximidade com a maior concentração de líderes mundiais da actualidade para perpetrar nenhum crime, se não era um fã enlouquecido de famosos a aproveitar uma oportunidade única para sacar autógrafos, se nem sequer aproveitou o microfone para cantar ou fazer reivindicações, o que estava esta alma a fazer ali?????

 

Ainda Nelson Mandela


Ana Vidal,

E volto a Nelson Mandela. Porque é importante lembrá-lo como ele foi, não como queremos ou nos convém que ele tivesse sido.


Há quem queira fazer de Mandela um santo impoluto, branqueando propositadamente o seu passado de combatente e caudilho na luta armada do ANC. Há quem queira, pelo contrário, apontar-lhe esse mesmo passado como uma mancha indelével no curriculum pessoal. É demasiadamente tentador e fácil usar uma figura emblemática desta dimensão para instrumentalizações, polémicas e barricadas partidárias, como aliás se tem visto, mas poucos parecem preocupados em fazer-lhe verdadeira justiça: é que a grande, a enorme, a incomensurável diferença que há entre Mandela e o comum dos mortais é justamente o facto de, tendo ele sido um homem entregue a uma causa até às suas últimas consequências, tendo ele sido um guerreiro, tendo sido injustiçado, perseguido, temido, tendo sido um preso político a quem a prisão roubou quase trinta dos melhores anos de vida, e tendo ele plena consciência da sua condição de líder nato, capaz de arrastar multidões para onde quisesse levá-las, mesmo assim teve a rara capacidade de renunciar ao ódio, dando um exemplo raríssimo de dignidade, coragem, sabedoria e qualidade humana. Tudo isto sem abdicar das suas convicções e do seu propósito de vida, porque não deixou de fazer a revolução que se impunha mas escolhendo a via pacífica, embora firme.


O que faz dele um ser especial é ter saído da prisão sem sinais de sede de vingança ou sede de poder, quando o contrário teria sido expectável e mais do que compreensível. A grande lição de Nelson Mandela é a da sublimação pessoal, uma elevação que está, afinal, ao alcance de todos nós.

Mandela


Ana Vidal,

Mandela não é só nome de homem, é o grau mais alto da condição humana. Lembrá-lo é lembrar o melhor que há em nós.

Farinha Amparo


Ana Vidal,

 

Leio este post do Rui Rocha, depois leio esta notícia. E chego à triste conclusão de que não é possível levar a sério os níveis de exigência no ensino em Portugal, tão apregoados por um governo aparentemente bi-polar. Se a ideia é facilitar cada vez mais o acesso a cursos superiores e a sua conclusão rápida – e é verdadeiramente escandalosa a admissão descarada de que o objectivo é “aumentar o número de diplomados em Portugal e atingir as metas da União Europeia, de 40 por cento” – só posso concluir que a preocupação extrema com a formação dos professores não passa de uma cortina de fumo, ou, pior ainda, que os professores estão a ser muito convenientemente escolhidos para bodes expiatórios do inevitável fracasso de uma política de ensino que assenta num único eixo: trabalhar para as estatísticas. Lembro-me de um dichote popular antigo, que visava desvalorizar cursos de má fama de onde resultavam profissionais incompetentes: “Saíu-te o curso na Farinha Amparo?”. Pois bem, este governo parece definitivamente apostado em voltar aos cursos da Farinha Amparo. Por este andar, ainda havemos de ter médicos formados em workshops.

Espinha


Ana Vidal,

O actor RICARDO DARIN, entrevistado por Alejandro Fantino para o programa “Mano a Mano”. Ainda há gente com espinha. 

 


Fantino: ¿Es cierto que vos rechazaste una oferta para filmar en Hollywood con Tarantino?.
Darín: Sí, claro.
F: Y ¿Por qué?.
D: Porque me ofrecieron el papel principal pero tenía que hacer de narco mexicano, y yo le pregunté a su productor por qué los mexicanos tienen que seguir haciendo de narcos si los que más consumen merca a nivel planetario son los Yankees.
F: ¿Y qué te contestó?.
D: Bueno…a ver…la respuesta que me dio me molestó tanto que afirmó que estaba en lo correcto no filmar con Tarantino. Me dijo: “Entonces es una cuestión de plata, diga cuánto más quiere que se la pagamos, usted ponga la cifra”. Es decir, no pueden llegar a ver ni comprender que hay códigos por fuera del dinero que algunos todavía portamos, ¿me explico?.
F: Mmm…no…la verdad que no.
D: ¿Cómo que no?, Ale, vos sos un tipo piola, tenés que comprender de qué te hablo.-
F: Pero podrías haber tenido más plata.
D: ¿Más plata? ¿ser millonario?…y…¿Para qué?.
F: ¿Cómo para qué?…para ser feliz!.
D: ¿Feliz con más plata?, ¿De qué me hablás?.
F: Bueno…todos quisiéramos tener más plata y ser felices.
D: Ale, yo tengo plata, tengo un auto importado de alta gama. Desayuno, ceno y almuerzo lo que quiero y puedo darme dos duchas calientes al día ¿vos tenés idea de cuánta gente del mundo puede darse dos baños calientes al día?, muy poca gente puede darse ese gusto. Y como no me considero un excelente actor, siempre digo que lo mío fue pura suerte ¿me entendés? En este mundo capitalista salvaje yo soy un tipo de muchísima suerte. Yo soy un privilegiado entre millones de personas, y además tengo la suerte de poder ver eso en mí, que me permite tener una buena cuenta bancaria y no creérmela. Yo me puedo ver desde afuera y me digo “Puta, loco, qué suerte que tuviste”.
F: Pero hubieras filmado en Hollywood…y no podés negarme que de Tarantino al Oscar hay un paso.
D: Creo no me sé explicar bien…yo ya estuve en la ceremonia de los Oscar y no me gustó, todo es de plástico dorado, hasta las relaciones entre las personas. Fui, la pasé lindo, lo disfruté…pero ese mundo no es lo mío, no es lo que yo elegí en esta vida.
F: Realmente me asombrás, Ricardo…te hacía más realista…más con los pies sobre la tierra.
D: Mirá qué casualidad !!!…yo a vos también.

 

(Aqui o link da entrevista)

Da descaracterização de um país


Ana Vidal,

“Havias de os ver, havias de os ver. Mestres sem assinatura é o que eles sempre foram e continuam a ser, mais hábeis e pacientes como nenhuns. De martelinho sagaz, aparelham pedaços de basalto na concha da mão que depois implantam na brancura dos passeios como quem implanta diamantes negros. Capricham nos artifícios, são tão mestres na figura livre como no traçado geométrico e se for preciso vão até às inscrições caligráficas num rigor de compêndio emplumado. Calceteiros. Em inglês não sei como se diz mas eu chamar-lhes-ia ilustradores ou joalheiros de calçadas, se não fosse literário de mais chamar-lhes assim. São eles, fica sabendo, que embelezam e combrem de memórias os caminhos que nós, os de Lisboa, cumprimos todos os dias.”                                                                                                                                                 

José Cardoso Pires, in “Lisboa – Livro de Bordo”


Eu chamar-lhes-ia desempregados ou emigrantes, que é menos literário mas muito mais duramente real.

Burrocracia


Ana Vidal,

Duas horas à espera de vez numa conservatória servem para perceber os requintes da novilíngua da burocracia, imposta pela todo-poderosa brigada do politicamente correcto. Por cima do balcão há uma placa onde se lê “Prioridade de atendimento a portadores de deficiência”. É justo. Mas fico a saber que a deficiência é uma coisa portátil, pormenor que até hoje me tinha escapado. Resta-me recomendar a todos os deficientes que nunca se esqueçam da sua deficiência em casa, para não terem de esperar muito nas repartições públicas.

E as crianças, Senhor?


Ana Vidal,

Ainda a propósito da deplorável novela nacional do momento, sugiro esta sábia reflexão de Rosa Montero no El País. E destaco este parágrafo, que resume o principal:

“Demasiadas veces los progenitores feroces y abusivos son personas aparentemente normalísimas, ricas, asentadas socialmente y exitosas, como Bretón o como serían los padres de Asunta si se demuestra su culpabilidad. De modo que soy sincera cuando digo que, paradójicamente, tal vez Bourdin sea un padre maravilloso. Pero esa frase final del documental me hizo pensar una vez más en la incoherencia de nuestra sociedad. Necesitamos hacer test psicotécnicos para sacar el carnet de conducir, y también, como es lógico, para adquirir un arma. Pero, ¿para tener hijos no se pide nada? ¿Para esa responsabilidad tan colosal, para dejar a una criatura totalmente indefensa sometida a lo que puede ser el horror más completo, no hay que hacer ni una prueba? Todos esos combatientes antiabortistas tan activos deberían trasladar sus energías en defender a los niños, en vez de a los fetos. Que no sacralicen tanto a la familia, que puede ser estupenda, desde luego, pero que también puede ser un entorno peor que Auschwitz. Algo habría que hacer para defender a los críos.”

 

 

Livros de cabeceira (6)


Ana Vidal,

 

Na mesa de cabeceira (em duas pilhas), entre os que vou lendo e relendo e os que esperam a vez de serem lidos: O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago; Cem Poemas de Sophia, Sophia de Mello Breyner Andresen; Servidões, Herberto Helder; Dois em Um, Alice Ruiz S; Diário, Virginia Woolf; El Manuscrito Carmesí, Antonio Gala; Pedro, Lembrando Inês, Nuno Júdice; Poemas para Leonor, Maria Teresa Horta; Tradutor de Chuvas, Mia Couto; Raiz de Orvalho e Outros Poemas, Mia Couto; A Gaiola dos Periquitos, Luísa Venturini.

Na cadeira, alguns dos que ganharam estatuto de residentes: O livro do Desassossego, Fernando Pessoa; Poesia Completa, Manoel de Barros (obrigada pelo magnífico presente, querida Laura!); A Salvação de Wang-Fô e Outros Contos Orientais, Marguerite Yourcenar; Obra Poética, Jorge Luis Borges. E ainda A Obra ao Negro, também de Yourcenar, que comecei agora a ler.

Bon appetit


Ana Vidal,

 

Presidente angolano anuncia fim da parceria estratégica com Portugal.

 

O ricochete de uma guerra de mais de uma década, com tudo o que ela implica de distorções, mazelas, ódios e feridas por cicatrizar. A vingança serve-se fria, como sempre, e esta chega em travessa de diamantes. Tudo bem temperado de desprezo e arrogância em partes iguais. Primeiro a tomada de posição, comprando metade do país. Depois a pose, sobranceira e inquestionável, de quem dita as regras.

Bon appetit, Portugal.