Quando a minha mãe esteve internada no no recém-inaugurado Hospital da Luz, no quarto ao lado estava o Eusébio. Era sempre complicado passarmos a barreira de segurança que preservava o doente famoso de jornalistas, fotógrafos e meros penetras, tínhamos de provar a nossa identidade para passar da sala de entrada do piso ao corredor dos quartos (o hospital fervilhava de esquemas para furar essa barreira). Íamos sabendo da evolução do estado dele pelas enfermeiras e pelas notícias cá fora, e um dia soubemos que ele tinha tido alta e ia sair nessa tarde. Por acaso cheguei ao hospital muito cedo nessa manhã, ainda não tinha começado o circo mediático. Passei a sala e entrei no corredor ainda silencioso, completamente deserto. Hesitei, voltei a hesitar, mas a curiosidade foi mais forte: não resisti e espreitei pela porta aberta do quarto de Eusébio, como se me tivesse enganado na porta. Estava sozinho e acordado, olhou-me, disse “bom dia” e sorriu. Nem um pingo de enfado, contrariedade ou irritação perante aquela inesperada invasão da sua privacidade. Nem um gesto para chamar o segurança, ausente por momentos. Só um sorriso simpático, quase um convite para entrar. Dei-lhe de volta o meu melhor sorriso e os bons-dias, pedi desculpa pelo “engano” e desejei-lhe as melhoras. Saíu nessa tarde, a minha mãe saíu poucos dias depois. Não voltei a vê-lo. Mas hoje, no dia do anúncio da sua morte, lembrei-me deste episódio e deixo aqui a história. É a minha homenagem a um homem grande a quem a fama nunca corrompeu nem roubou a simplicidade.


Que bonita memória, Ana. Eu hoje fiquei triste com a notícia. Já agora, fique a saber que o Eusébio é aquariano, como nós. Não quer dizer nada mas sorriso e abertura decerto não lhe faltariam. Um bom domingo
Beijinho
Não sabia disso, AE, mas gostei de saber. 🙂
Beijinho e boa semana
Bela homenagem, Ana.
Gostei muito de ler.
🙂 Antonieta
Obrigada, Antonieta. 🙂
é verdade. só um homem bom aceitava ser propriedade nacional sem as benesses que alguns só para aparecerem em eventos publicos exigem . Um rei sem dúvida, um grande rei que acartou um país para uma posição futebolistica destacada,país que nem era o seu, melhor explorava o seu.
Tem muita razão, Cristof: só um homem bom e bem formado aceita ser “propriedade nacional” por decreto, quando esse estatuto lhe dá infinitamente menos vantagens (económicas e não só) do que uma carreira internacional. Hoje em dia ninguém aceitaria essa imposição, aposto.
A simplicidade é a grandeza da alma.
RIP
Pois é. E difícil…. 🙂
Isso mesmo, tinha a grandeza e simplicidade de se partilhar
É verdade.
Fizeste bem, Ana. Ele não teria palavras para te agradecer, com nunca tinha quando se emocionava. Obrigado.
Ele não tinha nada a agradecer-me, Sérgio. Mas lembrei-me, já depois de ter escrito este texto, que também ele desejou as melhoras do “meu doente”, mesmo sem saber quem era. Tudo acompanhado de um sorriso acolhedor e solidário.
Eusébio não partiu como se vê pela multidão
É um até já, que vai ao céu ensinar a jogar
Leva nos pés, um Portugal banhado em emoção
E no frágil coração, a humildade enaltecida pela Nação
🙂
Bonito.
Sincero, Isabel. 🙂