Receita de sempre


Ana Vidal,

É muito provável que este poema já tenha sido publicado aqui (não fui procurar, confesso), mas é sempre bom recordá-lo. Que acorde um Ano Novo em cada um de nós, e que seja bem menos doloroso do que este que passou.

 

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade

11 comentários em “Receita de sempre”

  1. Obrigada, Ana.
    É uma receita fantástica.
    Para si, desejos de um óptimo 2014, cheio de poesia e alegria.
    🙂 Antonieta

  2. Muito obrigado pela receita, Aninha.

    Ali mais abaixo deixei uma receita que complementa esta. É a seguinte:
    “Quem não odiar seu pai, sua mãe, seus irmãos e até sua própria vida não pode ser meu discípulo.” (Lucas 14,26)
    A Aninha compreende que o objecto desta afirmação não é o ódio e a divisão, mas sim quebrarmos com a tradição, isto é, com a hereditariedade do pecado que vem de gerações e que se entranha em cada geração. Há implicitamente a denúncia a uma viciação do pensamento e da atitude que indelevelmente assumimos como sendo própria.
    Cada um descubra nesta receita o que foi que provocou e provoca os desequilíbrios sociais, familiares, afectivos, emocionais, relacionais, religiosos, espirituais e outros mais.

    FELIZ ANO NOVO!

  3. Não há anos dolorosos.
    Os factos sim, Ana. Os anos, quando muito, são mal vividos. O que não deixa de ser triste e nos deverá obrigar a mudar os primeiros para se melhorar os segundos.

    De resto, eu voto Drummond.

    Um muito Bom Ano para ti, Ana.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *