Já não aguento mais anedotas, defesas acaloradas e indignações puritanas sobre o video promocional de um escritório de advogadas de Lisboa. Deixem lá as senhoras venderem o seu peixe como sabem, podem ou sonham, deixem-nas lá tentar demonstrar a sua eficácia através de sapatos de agulha com implantes de gibóia (morta à chapada, como diria alguém que conheço com graça), mini-saias de lycra e pulseiras tilintantes de ouro chinês. Juro que não percebo como é que este assunto, que não vale um caracol, atingiu contornos de esquizofrenia colectiva. Percebo ainda menos como foi que chegou à Ordem dos Advogados em forma de queixas sucessivas. O facto, inegável, é que elas puseram o país a ver o video, a falar dele compulsivamente nas redes sociais, e, pasme-se, já chegaram até às notícias televisivas em horário nobre. Se tudo isto lhes trará novos clientes, não sei. Se esses eventuais clientes não irão ao engodo de outros serviços, atordoados pela mensagem dúbia, também não faço ideia. O tempo e o mercado o dirão, e só elas recolherão os louros da ousadia ou pagarão o preço do fiasco. Por que raio temos nós todos de nos preocupar com isso? Temos já 40 anos de democracia, caramba. Conquistámos o direito à liberdade de expressão, à liberdade de vestir ou despir o que nos apetecer, conquistámos até o direito ao mau gosto. Será que em todos estes anos ainda não conseguimos encaixar estas simples premissas?
(* título roubado a Gervásio Lobato, que já não se importará muito)


Muito bem.
“Temos já 40 anos de democracia, caramba.”
Temos 40 anos de democracia tutelada que nos obriga a caminhar para a igualdade socialista. Nada de confusões, a Liberdade nunca foi objectivo dos pais do 25 de Abril. A Constituição demonstra-o.
Como eu disse no comentário que escrevi e ainda não apareceu -no post da HSC – é o caso onde a cultura de Esquerda que não gosta que alguém promova a diferença se alia à cultura Salazarista, que não gosta que alguém se distinga.
No fundo é aristocracia de esquerda aliada com a aristocracia conservadora.
Ó Luck, dê a si próprio uma folgazinha de paz, ao menos no Natal.
Repare que é AV que o diz: “Se tudo isto lhes trará novos clientes, não sei. Se esses eventuais clientes não irão ao engodo de outros serviços, atordoados pela mensagem dúbia, também não faço ideia.”
IMHO, um anúncio como aquele de uma clínica de cirurgia estética, p.ex., não me parecia despropositado (passando por cima da tal “mensagem dúbia”), mas tal já não seria o caso se se tratasse de uma clínica de doenças cardíacas, até porque os doentes podiam não se dar bem…
Rabanada, não é esse o ponto. O facto de eu não acreditar nos bons resultados de uma campanha destas (e eu fui publicitária muitos anos, sei do que falo) não significa que não reconheça a estas advogadas o direito de se promoverem como entendam. Foi só isto o que quis dizer.
Nesse ponto estamos de acordo. Denúncias na Ordem dos Advogados, processos disciplinares, o raio, não têm cabimento.
Apenas me parece que, sendo as senhoras advogadas crescidas e sabendo (até pela profissão) do mundo em que vivem, arriscam a possibilidade de atrair alguma clientela que provavelmente (sublinho provavelmente, nos tempos que correm nunca se sabe) não lhes interessará.
Pois arriscam. Mas não me parece que mereçam ser crucificadas por quererem assumir esse risco.
Muito bem, Ana. Aplaudo.
Obrigada.
conseguimos e aprova é que temos opiniões diferentes sobre o mesmo assunto; e tirando uns empedernidos até nos conseguimos aceitar civilizadamente.
Alguns -comentadores/jornalistas até sabem por experiencia própia que quando há demasiado oferta interessa ser criativo se não tem que se mudar de ramo.Se não repararam vejam os numeros de advogado por habitante nas diversas ptaças de referencia e desatam a ter calafrios mesmo com a roupa de inverno.
Conseguimos alguma coisa, claro que sim, mas continuamos a cair em cima de quem se destaca do rebanho (positiva ou negativamente) com o moralismo do costume. Ainda temos muito caminho pela frente, Cristof.
Porque é que a Ana diz que é mau gosto? Porque é que diz que o ouro é chinês, ou que as saias são de licra? Que vontade é essa de denegrir as senhoras e o seu gosto?
Parece-me que a Ana está é despeitada.
Porquê? Porque acho que é mau gosto, um direito que me assiste. Como a elas assiste o direito de ter um gosto diferente do meu, e de usá-lo para se promoverem. Tão simples como isto, Lavoura. Não vejo o que isso tem que ver com vontade de denegrir, e menos ainda com despeito. Mas você lá sabe o que vai nessa estranhíssima cabeça.
o direito de vestir ou despir o que nos apetecer
Sabe muito bem que isso não é assim. Em muitas profissões há códigos de vestuário deveras rígidos. Veja por exemplo os gestores bancários, sempre de fraque.
Gestores bancários, de fraque??? Pronto, está tudo explicado: você vive noutro planeta.
Ana
Quarenta anos de democracia e enredamo-nos com isto?
Democracia?! Nem na liberdade de expressão, como se vê!
Triste, Helena, não é? Com tanta coisa realmente importante para nos indignarmos e é com esta insignificância que gastamos tinta e energias.
Ana Vidal
Devíamos ficar contentes com este sururu à volta do vídeo promocional das senhoras advogadas. Só significa que já não há problemas na justiça portuguesa para além das curvas das senhoras advogadas e das protuberâncias dos senhores advogados.
Pois é, caro Xico, quem nos dera que este sururu fosse sinal de falta de problemas mais sérios…