Ainda Nelson Mandela


Ana Vidal,

E volto a Nelson Mandela. Porque é importante lembrá-lo como ele foi, não como queremos ou nos convém que ele tivesse sido.


Há quem queira fazer de Mandela um santo impoluto, branqueando propositadamente o seu passado de combatente e caudilho na luta armada do ANC. Há quem queira, pelo contrário, apontar-lhe esse mesmo passado como uma mancha indelével no curriculum pessoal. É demasiadamente tentador e fácil usar uma figura emblemática desta dimensão para instrumentalizações, polémicas e barricadas partidárias, como aliás se tem visto, mas poucos parecem preocupados em fazer-lhe verdadeira justiça: é que a grande, a enorme, a incomensurável diferença que há entre Mandela e o comum dos mortais é justamente o facto de, tendo ele sido um homem entregue a uma causa até às suas últimas consequências, tendo ele sido um guerreiro, tendo sido injustiçado, perseguido, temido, tendo sido um preso político a quem a prisão roubou quase trinta dos melhores anos de vida, e tendo ele plena consciência da sua condição de líder nato, capaz de arrastar multidões para onde quisesse levá-las, mesmo assim teve a rara capacidade de renunciar ao ódio, dando um exemplo raríssimo de dignidade, coragem, sabedoria e qualidade humana. Tudo isto sem abdicar das suas convicções e do seu propósito de vida, porque não deixou de fazer a revolução que se impunha mas escolhendo a via pacífica, embora firme.


O que faz dele um ser especial é ter saído da prisão sem sinais de sede de vingança ou sede de poder, quando o contrário teria sido expectável e mais do que compreensível. A grande lição de Nelson Mandela é a da sublimação pessoal, uma elevação que está, afinal, ao alcance de todos nós.

9 comentários em “Ainda Nelson Mandela”

    1. É essa a grande lição de Mandela, Pedro. O facto de ter tido um passado de luta armada só enobrece ainda mais a opção pelo consenso e pela reconciliação, depois de 30 anos preso injustamente. E não deixou por isso de fazer o que tinha de ser feito.

  1. Muito bem observado.
    Mandela foi um Homem que lutou com todas as armas pela defesa de um ideal mas que nunca se quis apropriar dele, ou com ele ser confundido. Foi uma personalidade instrumento de mudança, mas que nunca a instrumentalizou para benefício pessoal ou promoção de classe. Mas porventura o que verdadeiramente ajuda a transformar Mandela, aos nossos olhos, num ser verdadeiramente único, são os inúmeros exemplos de outras personalidades que não tiveram a sua postura e fizeram precisamente o contrário. Lutaram por ideais e quiseram ser confundidos com eles. Foram agentes de mudança e quiseram apropriar-se dela…

    1. Essa é a tentação a que cedem quase todas as grandes figuras da História, António. Por isso Mandela é tão superior, tão diferente. Um exemplo, e bem precisamos deles.

  2. É caso para dizer que foi um homem que percebeu que o mundo não é a preto e branco. Venceu a mais difícil das batalhas. Venceu-se a si próprio.

  3. A luta armada não tem mal algum se for feita segundo regras mínimas. Não foi o caso com o ANC. E como acontece habitualmente nestes movimentos de inspiração marxista as maiores barbaridades são habitualmente feitas contra outros membros.

    Uma pergunta…

    Dada a quantidade de ditadores africanos que Mandela apoiou,
    Qual foi o ditador africano que Mandela não apoiou?

    Se for ditador preto já tem cheque de branco “humanista” europeu?

    Há um post abaixo com a foto do Sócrates e do Khadafi.
    O autor esqueceu-se de várias fotos de Mandela e Khadafi.

      1. Ora bolas eu que pensava que teria direito a um “irreverente” , a um “rebelde”, a um “coerente” , no mínimo a um “activista”… mas mais uma vez se prova que essas palavras têm um código secreto, só são aplicadas a alguém da nobreza e fidalguia, ou seja da esquerda…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *