As redes sociais inventaram um novo desporto de massas: a indignação inconsequente. O futebol que se cuide, em adrenalina e número de adeptos devem estar taco-a-taco.
Concorrência
Ana Vidal,
As redes sociais inventaram um novo desporto de massas: a indignação inconsequente. O futebol que se cuide, em adrenalina e número de adeptos devem estar taco-a-taco.
Acredito, sem ironias, que Catarina Martins tenha mesmo sido apanhada por acaso no programa “E se fosse consigo?”. Por que havemos de pensar sempre o pior das pessoas em todas as situações?
Mas, já que as figuras públicas entraram na dança, tenho uma sugestão para a Conceição Lino: inverter os papéis. Num próximo programa, pôr como actores um político e um jornalista conhecidos à chapada num jardim público (assim de repente, lembrei-me de João Soares e Augusto Seabra, ou Sócrates e um jornalista do Correio da Manhã) e ver as reacções dos transeuntes. Tenho genuína curiosidade de saber se alguém iria separá-los, dar-lhes lições de civismo ou… ajudar à festa.
Eu sei, sou um ET. Não percebo patavina de futebol. O clubismo, para mim, é um absoluto mistério. Nunca consegui entender (e não me considero completamente idiota) o que possa ser esse conceito metafísico que tem por nome “fora de jogo”. As imagens pós-jogo dos balneários são qualquer coisa entre um documentário sobre o paleolítico e um filme mexicano de série C.
Mas uma coisa sei, e de uma coisa gosto no futebol: é talvez o único acontecimento colectivo em que, sob a mesma emoção, seja ela a euforia ou o desgosto inconsolável, um nobre dos quatro costados é rigorosamente igual a um calceteiro ou um estivador. Não há diferenças, são irmãos de sangue e esse sangue tem exactamente a mesma cor: a cor do seu clube.

Olho esta imagem e vejo nela dois seres humanos sorridentes, cúmplices, felizes. Uma mãe orgulhosa, que parece dizer “vejam como o meu filho é o rapazinho mais bonito do mundo”, e uma criança amada, sentindo-se segura sob a asa protectora da mãe. O eterno quadro da maternidade feliz, que inspira ternura e nos resgata, como nenhum outro, dos nossos piores receios sobre a pantanosa natureza humana, sempre tão cheia de surpresas.
E no entanto, esta imagem apresenta-nos os protagonistas de uma das mais lancinantes notícias dos últimos dias. Uma história que não pode deixar de marcar-nos profundamente, tenhamos ou não filhos: Ji’Aire Lee, o menino de três anos que nos sorri na fotografia, morreu de hipotermia e desidratação no baloiço de um parque infantil em Maryland (EUA), após ter sido empurrado ininterruptamente durante quarenta e oito horas pela mãe, Romechia Simms. Não sabemos muito sobre as causas deste acto desesperado, a não ser que Romechia é uma sem-abrigo com aparentes problemas mentais.
Sabemos também que James Lee, o pai da criança, pedira recentemente a custódia judicial do filho por achar que a sua ex-mulher não tinha condições para cuidar dele, apesar de reconhecer que ela “não é uma mãe incapaz” e que nunca faria mal ao filho de forma consciente. Todos os que a conhecem têm a mesma opinião, a de que é boa pessoa e amava o filho, e a autópsia confirma a ausência de quaisquer indícios de maus-tratos.
Especulando, eu diria que esta mulher perdeu tudo o que a podia manter equilibrada e ligada a uma realidade considerada “normal”, atropelada pela voracidade de uma sociedade que exige sucesso a todo o preço e sacrifica implacavelmente os seus mais frágeis, os que se revelam incapazes de corresponder ao padrão. O último elo que ligava Romechia a essa normalidade era o filho, uma criança saudável e feliz que representava, muito provavelmente, o seu único sucesso. Mas a frustração de nada poder dar-lhe, aliada à notícia de que ia perdê-lo, deve ter abalado violentamente o que sobrava ainda da sua sanidade mental. Restou nela apenas o mais recôndito e ancestral dos instintos, a única coisa que podia e sabia fazer melhor do que ninguém pelo filho: embalá-lo. E foi esse gesto de ternura, automático e repetido até à exaustão, que acabou por matá-lo.
O terrível simbolismo desta história deveria fazer-nos pensar muito seriamente no modelo de sociedade que criámos para nós.
Algumas notas minhas, à margem deste artigo que subscrevo.
1. Fiquei genuinamente espantada (chamem-me naif, devo sê-lo) por constatar que a cabeça nua de Laura Ferreira teve, da parte da esmagadora maioria das pessoas, uma leitura política. Prova-o um facto incontestável: salvo raras excepções, quem é de direita aplaudiu o gesto, quem é de esquerda criticou-o. Onde eu vi apenas uma mensagem pessoal, simples e corajosa, dirigida às mulheres que passam por este calvário tão comum, como quem diz “Uma mulher não deixa de ser inteira por não ter cabelo”, muita gente viu um frete eleitoralista, um apelo à piedade ou à simpatia política, ou simplesmente a exibição de uma intimidade incómoda que deve permanecer escondida, sobretudo quando se trata de uma figura pública.
2. Presumir que Laura Ferreira se sujeitaria a este grau de exposição pessoal (e à violência dos comentários que se lhe seguiram, que ela, mais calejada nestas coisas do que eu, provavelmente previu) por outros motivos que não uma decisão pessoal, é duplamente ofensivo. Por um lado, é negar-lhe o direito a vontade, agenda e intenções próprias, fazendo dela um mero fantoche do marido. Por outro, é atirar-lhe à cara que não tem o amor e o respeito dele, se assim oferece à turba, implacável e com as piores intenções, a sua pretensa fragilidade, sem que ela sequer se aperceba disso. Ou, pior ainda, percebendo a marosca mas aceitando o papel, submissa e acéfala. Ou seja, é chamar-lhe imbecil e/ou conivente. Em qualquer dos casos, feitas as contas, tudo isto é profundamente machista. Diz-se-lhe que fique em casa, quietinha e discreta como costumava ser, pelo menos até estar apresentável outra vez.
3. Se as medidas de austeridade impostas por Passos Coelho chegaram ao extremo de negar tratamentos eficazes a doentes oncológicos porque são caros, grite-se bem alto esse atropelo ao direito dos cidadãos portugueses à dignidade e aos cuidados de saúde. Exija-se o recuo, a mudança. Mas não se misture tudo numa açorda de ódio que acaba por ter como alvo uma mulher que é, ela própria, uma doente oncológica. A frustração leva muitas vezes as pessoas a limites de crueldade, caindo nos mesmos erros que apontam aos outros. Muitos dos comentários críticos que li nas redes sociais são de uma violência sub-humana.
Dizem que não se deve voltar aos lugares onde se foi feliz, mas é mentira. Voltar é bom. No meu caso nem é bem um regresso, é só o retomar de um ritmo interrompido.
(com um presentinho especial para o Pedro Correia) 🙂
Hoje fui tomar um café à Vila, para espairecer e andar um bocado. Nesta altura do ano Sintra é dos turistas, um formigueiro deles a perguntar-nos tudo, a fotografar-nos à porta de casa como se nós, indígenas, fôssemos assim uma espécie de hobbits a sair dos nossos cogumelos com telhas. Mas uma destas, juro, nunca me tinha acontecido. No largo do palácio, entre mil outros turistas, vejo um casal com um filho adolescente, todos de ar ansioso e olhar fixo na escadaria da porta principal. Quando me aproximo, perguntam-me (num castelhano com sotaque) a que horas saem… os reis de Portugal! Ok, estão a brincar, claro… entro na onda e respondo, com o mesmo ar sério, que só aos sábados os reis saem à rua para cumprimentar os seus súbditos. Aproveito e pergunto de onde são: Manizales, Colômbia. Insistem, estão ali à espera para tirar “una foto con los reyes” para levar para casa e mostrar aos pais respectivos, a quem prometeram a façanha. De repente, perante os olhares desolados, percebo que estão a falar a sério. Explico-lhes que tenho imensa pena mas Portugal já não é uma monarquia há mais de um século. E é então que a mulher, mais espevitada e recusando render-se à evidência (temos sempre uma solução de recurso, nós…), pede-me que tire uma fotografia com eles como se fosse… a rainha. Olhem, não sei se me comoveu a delicadeza de não quererem decepcionar dois casais de velhotes lá na Colômbia, ou se me aterrorizou a ideia de represálias (sei lá se eles pertencem a algum cartel de Medellin), só sei que alinhei no disparate: fiz a minha melhor pose aristocrática – queixo levantado, um sorriso meio condescendente e uma mão magnânima sobre o ombro do rapazinho – e lá foram eles com o seu recuerdo real, todos contentes. Voltei para casa com um passo mais elegante, evitando a custo acenar aos passantes e pensando com os meus botões que Luísa de Gusmão tinha toda a razão: mais vale ser rainha por um dia que duquesa toda a vida.
Do século XXI ao paleolítico inferior, sem passar pela casa da partida.
Foi para isto que evoluímos?
*(obrigada pelo empréstimo do título, caro Aldous)
Às vezes tenho genuína pena dos jornalistas. Ninguém devia ser obrigado à esquizofrenia de ter de dar notícias saltando, sem interrupção, dos rockets para os aviõezinhos de publicidade, da faixa de Gaza para a faixa voadora que diz Amo-te Sónia, dos banhos de sangue para os banhos de mar, das explosões para os fogos de artifício, de um cenário de guerra para o cenário da festa de Verão da TVI.
(Instalação de Rebeca Horn)
IMPOSSÍVEL REGRESSO
Quando no fim
aquele tema torna, não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos perante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.
Jorge de Sena, “Bach:Variações Goldberg”, ARTE DE MÙSICA
(Glenn Gould – Goldberg Variations var.26-30 & Aria Da Capo)
(Sandy Skoglund – The Wedding)
ILEGAIS
Tira a aliança do dedo. O gozo
é redobrado se
nos assinto ilegais. Porque
esse
aro dourado concede-te
direito a mim
não há pecado assim:
o meu
nome em ti o
teu
nome em mim
e
essa data grafada em que assinamos
de Cruz
o arbítrio da união.
As
mãos procuram respostas como
quem ergue rosas pelo espinho:
tira a aliança do dedo. Se
esta lei é sagrada nós
somos apenas mortais precisamos
de pecado:
vamos
dormir ilegais.
(João Luís Barreto Guimarães)
A PRIMEIRA DAMA
Tão ambicioso quanto limitado, dedicou uma vida inteira a tentar chegar a presidente da Junta de Freguesia. No dia em que foi eleito vogal, esfusiante, apresentou finalmente a mulher. Ninguém estranhou que fosse uma consoante. Muda.
Vê-los descobrir a pólvora, mesmo que tarde – perdoamos-lhes tanta coisa em nome do eterno ‘mais vale tarde do que nunca’ – consola-nos sempre, enche-nos de um estranho, complacente e inexplicável orgulho. Chegamos até a comover-nos, como se eles fossem a criança que na festa da escola consegue superar-se e dizer a sua deixa sem falhas na peça de Natal. Para mal dos nossos pecados e para bem das batotas deles os deuses fizeram-nos assim, atentas e orgulhosas dos progressos dos nossos homens em descobertas que para nós são tão óbvias como dois mais dois. Mesmo reclamando muito, reclamando sempre. É por isso, Henrique Raposo, que a sobrevivência do outro terço nos espanta muito menos do que a si. Mas ainda bem que acordou, que ternura.
Hoje subi à Pena. A serra está esplendorosamente verde, nebulosa e encharcada como nunca. Tudo cheira a terra e a primórdios. Escorrem mistérios de cada pedra, entre musgos e líquens. Seria capaz de jurar que ouvi, ao longe, uma cavalgada de valquírias ao som de Wagner. Assim que consegui livrar-me do encantamento dos sentidos desci depressa, quase de fugida, antes que me nascessem membranas entre os dedos ou me transformasse em árvore como uma Daphne tardia. Mas vim de lá revigorada, conciliada com o mundo. É bom viver na Atlântida.
“…no Governo há “assessores de aviário”, jovens promissores de 20 e poucos anos a vencer 3.000€ mensais. Expliquem-nos a razão por que um pensionista paga CES e IRS e estes jovens só pagam IRS! Ética social da austeridade?”
Bagão Félix (Público 2014.01.13)
Pena que estes ovos de luxo não sejam Fabergé, acrescento eu. Sempre serviriam para ajudar a pagar a dívida externa, em vez de nos custarem um balúrdio.
Um bibliotecário que se apresenta assim: Moreno é bibliotecário do Centro de Tecnologia da UFRJ. Graduado pela UFF, mestre em Ciência da Informação pelo IBICT e doutorando em História das Ciências na UFRJ. Mas nada disso vai importar depois do apocalipse robótico.
Para os apaixonados pelas novas tecnologias e/ou pela história da bibliofilia. Moreno Barros, eis a minha proposta para blogue da semana.