Olho esta imagem e vejo nela dois seres humanos sorridentes, cúmplices, felizes. Uma mãe orgulhosa, que parece dizer “vejam como o meu filho é o rapazinho mais bonito do mundo”, e uma criança amada, sentindo-se segura sob a asa protectora da mãe. O eterno quadro da maternidade feliz, que inspira ternura e nos resgata, como nenhum outro, dos nossos piores receios sobre a pantanosa natureza humana, sempre tão cheia de surpresas.
E no entanto, esta imagem apresenta-nos os protagonistas de uma das mais lancinantes notícias dos últimos dias. Uma história que não pode deixar de marcar-nos profundamente, tenhamos ou não filhos: Ji’Aire Lee, o menino de três anos que nos sorri na fotografia, morreu de hipotermia e desidratação no baloiço de um parque infantil em Maryland (EUA), após ter sido empurrado ininterruptamente durante quarenta e oito horas pela mãe, Romechia Simms. Não sabemos muito sobre as causas deste acto desesperado, a não ser que Romechia é uma sem-abrigo com aparentes problemas mentais.
Sabemos também que James Lee, o pai da criança, pedira recentemente a custódia judicial do filho por achar que a sua ex-mulher não tinha condições para cuidar dele, apesar de reconhecer que ela “não é uma mãe incapaz” e que nunca faria mal ao filho de forma consciente. Todos os que a conhecem têm a mesma opinião, a de que é boa pessoa e amava o filho, e a autópsia confirma a ausência de quaisquer indícios de maus-tratos.
Especulando, eu diria que esta mulher perdeu tudo o que a podia manter equilibrada e ligada a uma realidade considerada “normal”, atropelada pela voracidade de uma sociedade que exige sucesso a todo o preço e sacrifica implacavelmente os seus mais frágeis, os que se revelam incapazes de corresponder ao padrão. O último elo que ligava Romechia a essa normalidade era o filho, uma criança saudável e feliz que representava, muito provavelmente, o seu único sucesso. Mas a frustração de nada poder dar-lhe, aliada à notícia de que ia perdê-lo, deve ter abalado violentamente o que sobrava ainda da sua sanidade mental. Restou nela apenas o mais recôndito e ancestral dos instintos, a única coisa que podia e sabia fazer melhor do que ninguém pelo filho: embalá-lo. E foi esse gesto de ternura, automático e repetido até à exaustão, que acabou por matá-lo.
O terrível simbolismo desta história deveria fazer-nos pensar muito seriamente no modelo de sociedade que criámos para nós.


“Sem abrigo com aparentes problemas mentais” e deixada a cuidar do filho ??
Mas a culpa é obviamente da sociedade. A culpa.
Sem pecado não há maneira das religiões – neste caso a religião Política a ultima que resta no Ocidente – terem o poder.
“a autópsia confirma a ausência de quaisquer indícios de maus-tratos.”
!?
“morreu de hipotermia e desidratação no baloiço de um parque infantil em Maryland (EUA), após ter sido empurrado ininterruptamente durante quarenta e oito horas pela mãe”
A sua morte parece ser devido a maus tratos. Provavelmente derivado da “aparente” doença mental da mãe.
Fica claro do texto apresentado que não tem fundamentos alguns para dizer que a culpa é da sociedade. “Diria” que autora quer uma explicação/ justificação para a morte da criança.
Ainda menos do padrão. Padrões encontra sim em sub-grupos da sociedade. Padrão social que existe muito menos hoje que no passado.
A taxa de divórcio está aí para o demonstrar.
Alguém também poderia argumentar o contrário e culpar a falta de padrão da sociedade neste caso. Seria na mesma argumento construído sobre nada.
E eu diria que por aqui nada mudou. Pelo menos no que lhe toca, Lucklucky, vejo que continua igual a si próprio. 🙂
Qie argumento!! Com ele fiquei convencido de que o lucklucky não tem razão.
Há casos sem reparação. Não sei se este é um desses ou não.
Dos dados que apresenta a “culpa” é da doença mental da mãe, eventualmente dos mais próximos se estes tivessem de facto possibilidade de antever que a situação poderia degenerar. Também pode acusar o pai de ter tentado tirar a criança à mãe mas nesse caso está dizer que para proteger a mãe tem de se sacrificar o bem estar da criança.
Eu não estou a “acusar” ninguém, e muito menos a criticar a decisão do tribunal (que nem sei se existiu) ou do pai, de retirar a criança à mãe. Mas nestas situações há sempre as causas próximas – as mais óbvias – e as causas remotas. O que faço neste texto, com os dados que tenho, é tentar reflectir sobre essas causas remotas. Nos EUA (mais ainda do que na maioria dos países) o culto do sucesso – winners contra loosers, ambos bem estratificados – pode ser muito cruel, por significar uma exigência inatingível para algumas pessoas.
O comentário anterior é meu, saíu sem assinatura.
Errata: loser e não looser.
É fácil criticar, principalmente quando nunca se teve faltas na vida. Falta de amor, de abrigo, de comida, de calor…
Quem sabe a mãe acreditava que estava a embalar a cria… enquanto empurrava o baloiço, aquecia e acreditava mantê-lo quente, dormente, feliz… quem sabe…
Não é infelizmente caso isolado e a culpa, esse morre solteira de novo. O Estado é insuficiente, a família colapsou, ajuda … antigamente dizia-se que quem tem nem sempre pode dar e quem precisa, precisa quase sempre… milagres ?
Provavelmente há um pouco de tudo isso nesta história, Dulce.