O suave milagre


Ana Vidal,

Eu sei, sou um ET. Não percebo patavina de futebol. O clubismo, para mim, é um absoluto mistério. Nunca consegui entender (e não me considero completamente idiota) o que possa ser esse conceito metafísico que tem por nome “fora de jogo”. As imagens pós-jogo dos balneários são qualquer coisa entre um documentário sobre o paleolítico e um filme mexicano de série C.

Mas uma coisa sei, e de uma coisa gosto no futebol: é talvez o único acontecimento colectivo em que, sob a mesma emoção, seja ela a euforia ou o desgosto inconsolável, um nobre dos quatro costados é rigorosamente igual a um calceteiro ou um estivador. Não há diferenças, são irmãos de sangue e esse sangue tem exactamente a mesma cor: a cor do seu clube.

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0 comentários em “O suave milagre”

  1. O problema é que isto de estar vivo é precisamente a tentativa de um gajo (perdão, um gajo e uma gaja) não se comportar como um estivador.

    Pelo menos não fazer tantas greves como eles.

  2. Euforia ou desgosto que se acham – e manifestamente estão – acima da lei, nas suas mais patéticas, e genericamente passíveis de censura social, formas de manifestação. Uns podendo, a título de “adeptos”, ser ainda mais as bestas que sempre são; outros aproveitando os momentos dessa condição para descerem, com genuíno gozo e sofreguidão, a esse patamar, de que um frágil verniz de convenção social os afasta superficialmente no dia-a-dia.

    Uma escola de virtudes, de boa educação, cortesia e desportivismo (isso então!), o mundo do futebol.

    Costa

      1. Sem dúvida que não invalida. E longe de mim negar tão sólida evidência. Uma pena que a modalidade desportiva a que se chama futebol seja tão ignobilmente usada para alimentar ódios e ventilar o pior de cada um de nós, ao fomentar e – ainda que apenas informalmente – legitimar, concedendo-lhes impunidade, alguns dos mais reprováveis comportamentos individuais ou colectivos.

        Lamento, não consigo olhar para o “mundo do futebol” (repare que de novo uso esta fórmula, nela integrando tudo o que de repugnante capturou – como agora se diz -, domina e se sobrepõe a essa prática desportiva) com sequer uma réstia de tolerância.

        Costa

        1. Ah, mas quanto a isso não podemos estar mais de acordo. E ainda acrescento a minha falta de tolerância para a overdose de futebol que tenho (temos todos, quem gosta e quem não gosta) nos canais portugueses de televisão. Que diabo, não se poderá criar um canal exclusivo de futebol, acessível a todos os portugueses, e pouparem-nos?

        2. Se observar bem o desporto contém todos os ingredientes dessa boçalidade. Não é o futebol que está manchado de mau comportamento humano — é o desporto em si que contém tudo isso porque é isso que desperta nas pessoas.

  3. Futebol é como Democracia e os clubes são como os partidos. São sistemas que funcionam da mesma forma. A grande diferença está em que o futebol baseia-se na emoção e a Democracia na razão. Mas até nisso já se confundem, pois nos dias que correm a Democracia está quase igual ao futebol.

    1. Talvez esteja aí a explicação para a minha total incapacidade em aderir a um clube. É que se passa exactamente o mesmo comigo no que toca aos partidos políticos, não pertenço a nenhum.

      1. Compreendo-a, mas devia reconsiderar a sua posição. É que o campeonato para funcionar bem tem de ter muitas clubes, pois a sua força de atracção vem da sua pluralidade, é isso que o alimenta e o mantém o forte e competitivo. Caso contrario a vitória pertenceria sempre ao mesmo clube e aos restantes cabia-lhes a malfadada tarefa de servirem apenas para alimentarem o ego do campeão.
        A Democracia é precisamente igual.

        1. Mas eu não tenho nada contra a existência (mais do que natural e saudável) de partidos políticos de todos os quadrantes. Não me peçam é filiações porque gosto muito da minha independência, só isso.

          1. A filiação serve, acima de tudo, para transmitir confiança e força ao clube ou ao partido. Quantos mais e mais competitivos forem, mais forte fica o campeonato ou a Democracia. Ou seja, vejo isto como sendo partes sólidas da estrutura de uma instituição que se ergue comba particularidade de não obedecer a pré conceitos ou projectos, deixando assim que a sua arquitectura seja defenida pelas partes que a integram, dotando-as do direito de conquistar a sua posição ou função estruturante de acordo com as suas próprias virtudes.
            Ora, isto é muito bonito, mas só funciona bem com muitos partidos ou clubes, pois se a gente não cuidar, pelo menos, da parte que nos parece menos mal, arriscamos-nos a ficarmos sem lugar em parte nenhuma.
            P.s não sei bem porquê, mas acho que já estou sendo chato.

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