Duas horas à espera de vez numa conservatória servem para perceber os requintes da novilíngua da burocracia, imposta pela todo-poderosa brigada do politicamente correcto. Por cima do balcão há uma placa onde se lê “Prioridade de atendimento a portadores de deficiência”. É justo. Mas fico a saber que a deficiência é uma coisa portátil, pormenor que até hoje me tinha escapado. Resta-me recomendar a todos os deficientes que nunca se esqueçam da sua deficiência em casa, para não terem de esperar muito nas repartições públicas.
Burrocracia
Ana Vidal,

Passamos a vida a complicar o que é simples, Ana. Para, no fundo, tudo continuar como está. Só as palavras mudam.
Pirotecnia pura, Pedro. Complicamos até ao limite do absurdo para parecermos sofisticados, em vez de gastarmos as energias a mudar o que é importante.
Ana! Vamos ironizar um bocadinho com algo que não merece ironias. Talvez se refiram a deficientes mentais? Esses não se vêm à vista desarmada e são pessoas que por si sós, vão às conservatórias tratar de assuntos porque são totalmente independentes!… Essas duas horas que esperou não se admire se daqui a uns meses se tiver de lá ir, em vez de esperar duas horas, tiver de esperar quatro, com os despedimentos que querem fazer…
Rita, estas duas horas já reflectem os despedimentos na conservatória de Cascais: havia uma longa fila de 10 secretárias vazias e só duas ou três pessoas a atender.
Ahahah. Uma pérola de post.
🙂
Duas horas? Esperei uma hora,há pouco tempo,numa empresa privada de renome.Fiz a devida reclamação escrita.
Há-de reparar que o fenómeno da deficiência mental se multiplica pelas caixas
dos supermercados sinalizadas “para atendimento prioritário ,deficientes”,eu evito-as,mesmo com dificuldades,mas reparo que estão sempre pejadas de deficientes mentais.
Acho muito bem que os deficientes tenham atendimento prioritário em supermercados e serviços, públicos ou privados. A minha questão está na expressão “portadores de deficiência”, que é ridícula.
Certo.Eu desloquei propositadamente a atenção para as filas de “deficientes” que se “despacham” nos supermercados com caixas de atendimento prioritário.
E tem razão. A maioria de quem as usa não é deficiente coisa nenhuma, a não ser que estejamos a falar de deficiência de educação.
As caixas de supermercado (e outras situações) não são “exclusivas de deficientes” mas sim de “atendimento prioritário a deficientes” .
Isto quer dizer que os deficientes podem e devem passar à frente de todos mesmo que lá estejam 20 ou 30 pessoas , como é evidente .
E os funcionários dos supermercados ou os clientes que estão na fila são muitas vezes os primeiros a dizerem-lhes para o fazer .
Isso é tanto assim que um familiar meu que é “portador de deficiência” (!) que não se vê à vista desarmada (só com um aparelho de RX ou um TAC) anda habitualmente munido de documento que o comprova oficialmente para poder exercer esse direito “em segurança” quando o pretender , o que acontece por vezes mas nem sempre se justifica .
Mas como sempre há a malta que vem a correr pela rua fora e chegados ali se põem a coxear …
Portanto se a deficiência não fôr evidente pode-se legítimamente suspeitar que a sua simples invocação não passe de esperteza saloia e daí a utilidade de andar com o prova no bolso .
Vale-nos sempre uma desculpa,passa à frente,é só um bocadinho e já lhe dou o lugar,estaciono nos lugares para deficientes porque nunca lá está ninguém,etc.
De modo que não se justificam caixas prioritárias, nem lugares de estacionamento especiais,nem,a gente compreende e dá um jeitinho,eu despacho-me já…
Não percebi para que lado pende o comentário que me faz (mea culpa) , mas como eu não pretendi ser sarcástico , não vejo a que propósito vem o seu último parágrafo .
Procurei apenas dizer como as coisas são e não como conviria que fossem para alguns , normalmente os tais que usam e abusam de direitos que não têm sob a capa de mazelas que também não têm .
Porque os que (infelizmente para eles) têm efectivos direitos neste campo sabem como os usar .
Uma “via prioritária” não é uma “via exclusiva” , muito menos para pessoas que “dizem ter dificuldades” , que é coisa que todos temos vai não volta , nem que seja um ataque de caganeira .
Daí a ser deficiente vai tanta distância que mais dia menos dia teríamos era que considerar a hipótese de pôr “acesso prioritário a não deficientes” para a malta razoávelmente saudável se safar da bicha , tantos seriam a invocar todo o tipo de razões para lhes passar à frente …
Eu não tenho uma visão do mundo em que não se justificam caixas prioritárias nos serviços públicos e privados nem lugares de estacionamento para deficientes porque toda a gente se está borrifando para eles , pela simples razão que isso não é verdade , a enormíssima maioria das pessoas respeitam-nos .
Não o reconhecer é de uma grande injustiça para com a grande maioria dos nossos semelhantes .
E também não tenho uma visão do mundo em que toda a gente se está borrifando para os outros e , muito em particular , para os deficientes pois não é isso que eu vejo e , felizmente , vejo muita coisa pois ando 4 a 5 horas a pé por toda a Lisboa e todos os dias que cá estou desde que há dois anos me reformei .
Viver “a rua” parece-me uma alternativa interessante a estar espapaçado no sofá a ver programas cretinos na TV …
O que eu também vejo é que a grande maioria das pessoas que mais se insurgem quando se fala dessas coisas coincide (e se calhar não por acaso) com aquelas que ficam caladinhas quando as presenciam .
Farei por não voltar a esquecer-me do Cartão de Cidadão em casa… Agora já percebi porque é que fico sempre para o fim.
Foi o que aconteceu comigo, Fernando: fez-se luz com aquele aviso. 😉
É que “deficiente” é, hoje em dia, um insulto. Qualquer criança da escola primária sabe isso. As crianças chamam-se “deficiente” umas às outras.
O exemplo mais gritante da novilíngua são as bichas de trânsito, que passaram a ser designadas por “filas” porque, precisamente, se descobriu que “bicha” podia ser utilizado como insulto.
Eu continuo a dizer “bicha”, não sou brasileira nem vivo no Brasil. O facto de quase tudo poder ser transformado em insulto (e não só pelas crianças) não significa que se deva evitar ou ter medo de palavras que têm um determinado significado só porque podem ser deturpadas. Fazer isso é oficializar o desvio, caindo muitas vezes no ridículo com é o caso do exemplo deste post.
Eu continuo a dizer “bicha”
Deve ser das poucas coisas em que a Ana e eu somos iguais.
Mas devemos estar conscientes de que fazemos parte de uma ridícula minoria.
Não vejo por que há-de ser ridícula, Luís. Ridículo é o seguidismo acéfalo e acrítico que tomou a maioria de assalto, por preguiça ou complexo de inferioridade.
Deixou de haver cidadãos deficientes, Ana, é tudo uma questão de designação. São portadores de deficiência. Não são as pessoas que são deficientes.
Leonor, acho que tudo isso radica no medo que temos da diferença e no que ela nos incomoda.
Tem a ver com o politicamente correcto, sem dúvida, e com a carga que depois as palavras adquirem. Nós, no ensino, estamos habituados a este tipo de mudanças. Aparecem constantemente. Cada governo, cada nova designação. Não têm mais nada que fazer.
então é assim: esteve duas horas à espera de resolver qualquer coisa num serviço por aí, mas não encontrou qualquer deficiência no serviço. isso deve ser uma coisa normalissíma, porque disso não se queixa.
o que a chateia mesmo é esta coisa de chamarem portadores de deficiência aos deficientes…
uma curiosidade: foi ao médico ultimamente?
Então é assim: o que me chateia mesmo é que não consiga ir além do óbvio, mas suponho que não se possa chamar a isso deficiência. Logo, não vale a pena dizer-lhe que vá ao médico.