Mudam-se os tempos


Ana Vidal,


É emocionante ver como as questões ideológicas, pelas quais tanto se matou desde sempre em todo o mundo, estão a ficar ultrapassadas e afastadas do essencial das lutas dos homens. Seja em regimes de esquerda ou de direita, por todo o lado os povos saem à rua em protesto contra aquilo que é transversal a todos esses regimes: a falta de liberdade de expressão, as injustiças e desigualdades sociais, a corrupção, os abusos de poder, a degradação das condições de vida, a negação do direito a um futuro melhor para os filhos. Chamem-me utópica, mas parece-me um sinal claro de que a humanidade está a evoluir, a conquistar a sua maturidade. A exigir que seja respeitada a sua impressão digital e a fazê-lo com voz própria, sem intermediários. E fico feliz por viver numa época em que este passo é visível.

26 comentários em “Mudam-se os tempos”

  1. Cito-a: “… mas parece-me um sinal claro de que a humanidade está a evoluir, a conquistar a sua maturidade.”

    Gostava muito que fosse tal qual como diz. Mas estou em crer que não. Vejo a humanidade a caminhar a passos largos para a extinção e estes ‘movimentos’ como o canto do cisne.

  2. Caros Salvador e Morais, são pontos de vista. Eu sei que o meu encerra uma incongruência: se a humanidade está a evoluir, há muito tempo que devia ter ficado para trás a conquista dos direitos fundamentais, e no entanto é ainda por eles que se luta. Mas acredito que há uma nova consciência e autonomia representada por este despertar dos movimentos de cidadania, que não estão tão dependentes nem tão manipulados pelas ideologias como já estiveram em tempos. A prova disto é a tal anarquia de que se queixam (Morais, pelo menos), que eu vejo como um passo à frente e não atrás. Mas eu sou utópica, já sei. 🙂

  3. Concordo plenamente consigo Ana.
    Os pastores dos diferentes rebanhos existentes e que os teêm guiado até aqui, não conseguiram provar que merecem sua confiança, não o teêm sabido conduzir da melhor forma.
    Como tal, nada melhor que prescindir deles, até que a pastorícia tenha mais disciplina, não seja só para os possantes carneiros mas também para as ovelhas mais debilitadas.
    E diria o poeta: “Não sei por onde vou, não sei por onde vou, sei que não vou por aí!
    Não vejo nada de anarquia num acto de rebeldia, de procura de nós mesmo, sem tutelas de quem quer que seja.

    1. É isso, Singularis. A rebeldia é uma prova de vida, um acto de vontade espontâneo. Pode não ser muito organizada e pode até não levar a resultados imediatos muito visíveis, mas é um sério aviso de que não somos sempre manadas acéfalas sujeitas à manipulação de uns poucos.

  4. E o problema é mesmo esse, o de serem muitos; de Platão a Marx, do Liberalismo ao Socialismo, e deste ao seu epígono, o Eugenismo, o que não faltaram nem faltam são utopias e empreiteiros da felicidade pública; ou até mesmo a utopia do homem simples da aldeia e do campo: a casa de putas – promessas de leite e de mel… e quantos matarruanos não caíram já em desgraça, obcecados por grutas santas, todavia, pouco fiéis. São desgraças assim que nos deviam servir como espelho da nossa falência. Sem dúvida que a humanidade está a evoluir. Andámos aqui há uns séculos a chamar pai ao macaco, mas, pelo que apanho na televisão, não se tardará a identificar o verdadeiro progenitor do homem: o papagaio. Ou o boi, o que calhar.

    A falta que faz a este tempo um Swift ou um Brant, pá. Isso é que é pena não haver.

    1. Não está tudo perdido. Ainda temos um Panurgo (filho de boi incógnito, já que não tem nome identificável) em representação dos empreiteiros da infelicidade pública. E das putas angélicas, sabe deus filhas de que araras.

      1. O nome é perfeitamente identificável – e boi foi apenas um dos nomes com que os pregadores da felicidade brindaram o meu criador; não se deixe é influenciar por certa crítica e hermenêutica francesa que andou para aí lançar lama sobre o meu nome – pois se o bom gigante tinha um Panurgo como melhor amigo, não pode ser um nome assim tão mau. E não defendo só as putas angélicas, mas também as damas de bom nome e condição – afinal, todos os callibistris são preciosos na hora de proteger a cidade. Até o bom Platão era um adepto fanático da putaria, e disso dá boa nota o terceiro e quinto livros da sua Política. Nas utopias há que dar o corpinho, e inteiro, ai não que não há. É que isto de racionalizar o divino, substituir a Ética pela Moral, acabando por separá-la da Política, isto é, o nascimento da Ideologia – no qual a criação utópica é um mero adereço carnavalesco já devida e excepcionalmente parodiado (embora, admito, nos tenha dado um texto belíssimo como a Christianopolis) – tem o seu preço. O Divino Marquês, a seu tempo, fez as contas.

          1. Esmagada? É o que dá andar em grupos numerosos, bem avisou o outro dois mil anos antes do Paulinho ser médio defensivo da selecção brasileira na utopia da Taça das Confederações (isto sim, é motivo para indignação e protesto). O espaço é pouco para tantos milhões de humanidade madura. Veja lá é se não caem para aí nalgum abismo, como de costume.

  5. A ver vamos. Também já me tinha ocorrido isso.

    Aquela manifestação de milhares professores em Lisboa, convocada por SMN e FB, entusiasmou-me.
    Essa manif. apanhou de surpresa a ministra Lulu e o sindicalista Mário. Curiosamente, foi o Mário quem tirou dividendos por falta de inteligência da ministra.
    Não fui por laxismo e porque, não sendo citadino, tinha a minha lavoura (no sentido literal). Tinha e tenho tanto a protestar!
    Mas…
    Todos tinham opinião diferente, cartazes de uns que contradiziam cartazes de outros. Aquilo que uns acham mal no ensino e nas escola era o que outros achavam bem. Isto pode acontecer em qualquer situação.

    Mas numa coisa estamos, de certeza, todos de acordo: Não queremos a corrupção, as negociatas à custa do dinheiro dos contribuintes, um sistema legal e jurídico inepto.

    Uma forte acção “popular” contra isso contará de certeza comigo, não haverá lavoura capaz de me demover. E, de preferência, estarei na primeira linha.

    1. José, é quase sempre inevitável que alguém se aproveite do descontentamento popular e destas manifestações espontâneas. Mas elas não deixam de ter valor por isso, e está na nossa mão não nos deixarmos manipular por quem quer tirar dividendos delas.

  6. É verdade que as ideologias ditas de esquerda, que foram de facto as que historicamente lutaram contra as desigualdades e injustiças no mundo, sofreram um forte abalo com o triunfo do capitalismo. Não porque o comunismo fosse alguma coisa que merecesse ser defendida, mas porque o capitalismo triunfou de tal forma que deixou a partir daí de admitir qualquer forma de controlo. As pessoas deixaram-se inebriar pela ilusão do consumismo, pensando que o crédito nunca acabaria, e acabaram inevitavelmente por se deixar endividar até à raiz dos cabelos. Agora, chegou a hora de pagar, com juros altos.
    Os direitos que levaram décadas a conquistar estão a ser retirados às populações em menos de um fósforo.
    Não são propriamente (como nunca foram) as ideologias a levar as pessoas a sair à rua, mas sim o sentimento de revolta perante as injustiças na distribuição das riquezas. E isso é tão válido hoje como foi no passado.
    Se os ideólogos, nomeadamente os de esquerda, não conseguem integrar-se nestes movimentos revoltosos, o problema é deles. Os povos, pela sua parte, vão-se manifestando por todo o mundo, porque sentem que há direitos essenciais que consideravam adquiridos, mas que afinal lhes estão a ser retirados.
    Para mim, a luta por uma mais justa distribuição das riquezas do nosso planeta é uma questão ideológica. Para si, aparentemente, não será.
    Seja como for, é a mesma luta de sempre: de um lado os povos oprimidos e explorados e do outro os muito ricos, poderosos e infinitamente gananciosos.

    «Um por cento da população detém 39% da riqueza mundial» [e com tendência para agravar…]

    http://expresso.sapo.pt/um-por-cento-da-populacao-detem-39-da-riqueza-mundial=f811135#ixzz2X5JVKda3

    Há ou não há espaço para as ideologias?…

    1. Claro que há espaço para ideologias, e ainda bem. O mal é quase sempre a prática, não a ideologia. Mas o que eu digo é que já não são elas o centro da questão, porque em ambos os lados da barricada (esquerda e direita) há desigualdades e injustiças, e as pessoas já não aceitam tudo tão facilmente. Mas é claro que os políticos nunca tardam muito a aproveitar-se destes movimentos espontâneos e a capitalizá-los em seu proveito. Ainda assim, mantenho que a sua simples existência é um sinal de evolução.

  7. Gostei de ler isto, Ana Vidal. E isto indica duas coisas: que o mal não tem cor nem bandeira e que o bem também não. E que, em última instância, todos ambicionam ser felizes com as mesmíssimas coisas.

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