O que estou a ler (3): ” História de Portugal”, por Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos


José Maria Gui Pimentel,

Depois do bisanço da ficção científica, segue-se – naturalmente, pois – um livro de História.

 

Esta História de Portugal não esconde ao que vem, pretendendo assumidamente constituir uma nova obra de referência na historiografia portuguesa, incorporando “os resultados das pesquisas e reflexões das mais recentes gerações de historiadores”. Como tal, e embora se procure um “texto legível e claro”, existe sempre uma primazia do conteúdo sobre a forma, o que pode tornar a sua leitura menos aliciante para algum público. Mas não poderia ser de outra forma.

 

Ao longo da obra (que ainda estou a ler – apenas para não fugir ao espírito da série, claro está) são evidentes várias “marcas” da abordagem que os autores pretenderam utilizar.

Antes de mais, é clara a intenção dos autores não só de fornecer uma análise imparcial mas – mais do que isso – de dar ao leitor os elementos necessários para este elaborar a sua própria opinião; estando assim praticamente ausentes conclusões definitivas em relação à acção de determinada personagem histórica. Claro que esta opção faz-se em parte sacrificando a atracção do interesse do leitor, mas numa obra com este propósito não poderia ser de outra forma. Na mesma linha, os autores procuram de um modo muito claro fugir aos episódios mais romanceados da História portuguesa, dando exclusividade ao valor intrínseco de cada evento. Fazem-no de um modo, porventura, exagerado, passando ao lado de episódios cuja referência viria completamente a propósito e em que se gastaria não mais do que meia dúzia de palavras. Acresce que há episódios e detalhes que, pelo seu carácter simultaneamente representativo e inusitado (aos olhos contemporâneos), constituiriam exemplos perfeitos para determinadas ideias expostas, ao mesmo tempo que ajudariam a manter o interesse do leitor (o que, não sendo o objectivo primário do livro, não deixa de ser importante).

 

Outro aspecto em que me teria agradado outra perspectiva diz respeito à comparação internacional. Um livro deste tipo teria muito a ganhar em dar maior relevo a uma perspectiva mais relativa da nossa História face à História da Europa e do Mundo. Claro que tal implicaria um livro mais espesso, mas determinadas análises extensivas que o livro contém tornam-se, sem essa contextualização, relativamente espúrias. Em todo o caso, imagino que na análise da idade contemporânea (a cargo de Rui Ramos) esse tipo de comparações seja mais frequente.

 

Finalmente, é perceptível a dificuldade dos autores ao longo do texto em conciliar uma linha necessariamente cronológica com o objectivo declarado de expor as dimensões “política, económica, social e cultural” da História de Portugal. Por vezes, essa gestão torna-se algo confusa, quando o texto se concentra durante longas páginas numa dessas dimensões (ou mesmo a diferentes frentes dentro de cada uma) em detrimento do fio condutor cronológico.

 

Em suma, e apesar de algumas vertentes em que é porventura menos feliz, trata-se de uma obra inegavelmente completa – a vários níveis – e, sobretudo, fresca, na medida em que possibilita uma apreciação simultaneamente esclarecida e imparcial, dentro dos dados verdadeiramente fidedignos que nos chegaram até hoje, os quais, particularmente na idade média, estão longe de ser abundantes e claros. 

 

Siga a série, com o José Navarro de Andrade.

5 comentários em “O que estou a ler (3): ” História de Portugal”, por Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos”

  1. Parece-me ilustrativo a capa ter um quadro cujos personagens são “oficialmente” desconhecidos.
    É uma imagem de marca de toda a História nacional, que é uma boa obra de ficção com documentação a alicerçá-la.
    Boa, é como quem diz… no caso dos descobrimentos é pura obra de ficção, ao nível do muito mauzinho mesmo.

  2. São necessárias novas visões da História de Portugal e muito se tem feito, nos últimos anos. Há mitos e crenças ainda não desfeitos, lembro-me, agora, da lenda de Egas Moniz, ou isso de achar que foram os portugueses que introduziram as especiarias na Europa. Se este livro, que ainda não conheço, contribui para uma nova visão, é bem-vindo.

    “estando assim praticamente ausentes conclusões definitivas em relação à acção de determinada personagem histórica” – por outro lado, nada impede que o historiador expresse a sua opinião, desde que a fundamente nos elementos que conhece (e expõe) e deixe claro, ao leitor, que se trata da sua interpretação. Como diz o Prof. Mattoso, no início da sua biografia de Afonso Henriques: “não é preciso ser historiador profissional para perceber que não se pode traçar a biografia de uma personagem medieval sem uma grande dose de imaginação”.

    A propósito: as biografias que já li dos reis de Portugal (D. Afonso Henriques, D. Afonso III, D. Dinis, D. Afonso IV) pertencentes à coleção da Temas e Debates, são todas excelentes, mostrando essa preocupação por parte dos seus autores: clarificar, quanto aos elementos existentes, não deixando, porém, de dar a sua opinião, mas assinalando-a como tal.

    1. Tem razão Cristina.
      O problema foi da pimenta-da-guiné, porque a Guiné foi muita coisa antes de ser o que é.
      Picante a sério era a outra, a mexicana, da outra costa da Malagueta. Porém, tivemos que ir tratando de ter uma Guiné cada vez mais pequenina.

      O Egas Moniz, tem razão, é um bocado confuso que ele tenha sido nomeado para o Nobel da Medicina depois de ser Ministro dos Negócios Estrangeiros, e tendo basicamente publicado um livro sobre cartas de jogar e outro sobre hipnotismo. Creio que o trabalho de angiografia nem tinha sido publicado oficialmente.

      Quando ao outro Egas Moniz, a história de se apresentar com a família, de corda ao pescoço, parece-me bastante mais fiável.

      Quando tirarem as lendas, vão só mesmo restar as mentiras descaradas, bem fundamentadas em papelada de todos os santos ofícios da ocultação.

      Sabe, é o nevoeiro… que perdeu D. Sebastião, e ia fazendo D. Fuas tombar no abismo. E do nevoeiro não duvide mesmo, pois até o Vasco da Gama teve que ir à Nazaré antes e depois de fazer turismo indiano… que o respeitinho era coisa bonita.

      1. Nada tenho contra lendas, pelo contrário: são essenciais, devem ser preservadas e divulgadas, pois fazem parte da identificação e da cultura de um povo. Além disso, servem de inspiração para romances, novelas e contos.
        Tomá-las por verdades absolutas, porém, já me parece contraproducente.

  3. Caros,

    Este post surgiu na minha busca do que se diz sobre “o melhor” livro de História de Portugal. Profundamente subjectivo que o é, conseguem sugerir um livro que, sem prejuízo de outras abordagens bem conseguidas, que é e será sempre “uma referência”? Acresce que teria preferência para volumes únicos (ou dois volumes), por oposição a colecções de vários volumes.

    Ainda em Histórioa de Portugal, mas agora Contemporânea, com especial enfoque no período desde o fim de do sec XVIII até fim da 1ª Republica ou fim do Estado Novo: conseguem sugerir bons livros de história para esteve período?

    Desde já agradecido!

    Autor
    Antologia de Ideias (WordPress)

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