Olho as pessoas à minha volta e sinto-me em casa. Desta vez não é por mim que franqueio o portão, não há hesitação ou angústia que me tolham os passos. Mas será sempre por mim que voltarei. Uma estranha nostalgia faz-me correr a revalidar o cartão, expirado há anos, que comprova a pertença e me dá a ilusão de uma garantia de segurança. De salvação. Quem por cá passa ou mora algum tempo sabe do que falo: fica-se íntimo, solidário, cúmplice de uma espécie de partilha desesperada que nos une para o resto da vida, valha esse prazo o que valer. Já quase não há caras familiares mas todas as caras são demasiado familiares. É meu pai o velho rabugento que mede forças com a cadeira de rodas, zangado com o mundo. É minha irmã a mulher magra, ainda coquette, que olha furtivamente em volta e ajeita a peruca loira, na esperança de que passe por cabelo verdadeiro. É minha filha a menina de olhar triste que brinca à sombra de uma árvore, lenço de cores berrantes amarrado a cobrir a ausência dos caracóis sedosos. Também eu já caminhei sem destino por estas ruas, sufocando nas entranhas um medo irracional. O maior pesadelo não é a dor física, é o terror. Também a mim já pareceram hostis estes muros, inóspitos estes bancos de jardim. Já fui aquela mulher que vejo agora no bar, agarrada à chávena de café como ao último e supremo prazer a que tem direito. Já me aturdi com a vozearia dos lamentos nas salas de espera. Para calá-los já fui bobo da corte, com graças estafadas para exorcizar fantasmas e arrancar sorrisos a quem se sente no corredor da morte, transido pelo medo e pela dor. Já deixei lágrimas, suspiros e sorrisos nestes corredores, primeiro sombrios, depois esperançosos, finalmente libertadores. O tempo é sábio, esbate as mágoas e deixa-nos só as boas memórias. Foi aqui que aprendi a ler nas entrelinhas, a interpretar olhares mais do que palavras, a fintar as trevas, a saber esperar. Foi aqui que encontrei a maior condensação de humanidade que alguma vez me foi dado conhecer. Foi aqui que me questionei sobre o sentido da vida, o sentido da morte, e foi aqui que olhei ambas de frente. Estas paredes puseram-me à prova e revelaram-me o melhor de mim. Como posso sentir por elas alguma coisa que não seja gratidão?
IPO
Ana Vidal,


Ó Aninha, eu logo vi que quando a mirei naquela fotografia tinha sido o Bom Deus a dar-me um vislumbre do paraíso. Num chore mais, num chore que eu estou aqui.
Não choro nada, Anoniminho. Pelo contrário: hoje fui ao IPO e soube-me bem, por muito estranho que isto possa parecer. 🙂
Belo texto. Vivi 2 anos nessa rua, nunca dormi bem. E pirei-me da frente daquela morgue.
Ana, cuidado com este Anómino 🙂
Gui, eu sei que é difícil (senão impossível) fazer alguém entender as razões pelas quais tenho esta relação afectuosa com o IPO. Sobretudo alguém que nunca foi habitante daquele universo, felizmente a maioria das pessoas.
Quanto ao nosso anónimo, ó agridoce, não me parece muito ameaçador… 🙂
Ó sua @gri, como se atreve a denegrir as minhas asinhas angelicais? Como é possível que um rapazito amargurado com a dor expressa pela minha Aninha seja submetido a tão violenta difamação!?
Aninha,
pois atão eu fecho os olhos a esta inesperada literatura que busca manchar o mê peitito já de si fragilizado, e paso como el Condor:
http://www.youtube.com/watch?v=pey29CLID 3I
Aninha, obrigadinho por sua firme defesa em prol da restauração de minhas penas. E a partir de hoje fico de mal com a @gri.
Não fique, anoniminho, que isso é tarefa impossível.
E obrigada pelo voo do condor.
“Tarefa impossível”, Anoniminho (só para escrever, Jesus)… não denegri nada. “Fica de mal” o quê? Presumiu, subestimando-se, é o que foi. “Cuidado” dá para muita coisa… Mas deixo-lhe 4 beijos, a minha técnica para amuados que podem amuar 🙂
Ó minh@ doce,
só hoje pude vir aqui, pois andei pelos caminhos das agruras.
Quão feliz me fez. Tinha ficado tão doentinho. Tome lá, doce:
http://www.youtube.com/watch?v=-Sz0dsIWg ug
como eu te compreendo. Tens razão, a gratidão é o que é possível. Beijo
Beijo, Pat. Compreendes-me, eu sei.
Partilho esse sentimento para com essas paredes, apesar de ainda não me ter conseguido afastar tanto da dor. Cada vez que cruzo esses muros revivo um pouco das angústias de outrora. “Será que vou voltar à mesma confrontação com a morte?” pergunto-me sempre que me vejo entre essas paredes. “Será que vou voltar a estar nesta sala de espera para mais umas sessões de quimio?”. A dúvida continua tão perto…
Mas sinto igual a intimidade, solidariedade, familiaridade para as pessoas que por lá andam, de que fala. Quem por ali vive, nunca se vai embora!
Beijinhos fraternais! <3
Mammy, essa pergunta está sempre no ar. Sempre estará. Mas o simples regresso à incerteza (não a tem toda a gente, afinal?) já é a normalidade, e a normalidade é um verdadeiro luxo. Viva o dia a dia e procure não pensar muito nisso, é o único conselho que sei dar-lhe. Beijo solidário. 🙂
Bom dia vizinha.
Já lá vão quase onze anos quando, numa conferência internacional de associações de pais de crianças com cancro, ouvi uma “sobrevivente” (as aspas revelam o menos agrado que tenho pela palavra, não pela condição) falar da sua experiência, do que a doença tinha feito por ela em termos de sentido para a vida, da relativização das coisas, etc. Era uma adolescente que falava intensamente sobre um período intenso. No fim, perante um óbvio incómodo de todos os pais que ali estavam, disse ingenuamente: “se pudesse voltava a trás e passava por tudo de novo”.
Sou o que sou, e muito o devo a um período em que as visitas ao IPO eram dolorosamente regulares. Aqueles nove meses de 2001 moldaram-me um nova consciência, um novo olhar, uma outra atenção ao que me rodeia. Talvez me tenham moldado apenas um desafio de diferença, porque não posso presumir que tenha mudado.
Não sei se concordo com o seu texto, embora perceba o que está por trás. Não sei se gratidão é a palavra, porque não sei – nem ninguém saberá, felizmente – como se mencionaria esse período se o desfecho fosse negativo.
Alonguei-me, como sempre. Mas é o gosto de delitar de opinião…
Um beijo.
Querido vizinho, eu bem sei que para si nada disto faz muito sentido, e tem muita razão. Claro que eu também não sei como falaria do IPO se o desfecho tivesse sido outro, ou melhor, sei que nem discurso haveria. É fácil falar em reconciliação com aquela casa quando tudo corre bem, é demasiado fácil. Mas peço-lhe que entenda também esta gratidão como um reconhecimento pela forma insuperável como sempre fui tratada lá, não só tecnicamente como, sobretudo, em termos humanos.
Alongue-se por aqui sempre que lhe apetecer, é um gosto. Um beijo.
Como eu compreendo essa “estranha nostalgia”. Um tempo em que nada tinha importância excepto o jogo da bola de uns miúdos, ou as flores a desabrochar no jardim, ou o amor dos amigos que sentíamos à nossa volta. Um texto belíssimo que me fez chorar. Um abraço.
Outro para si, Xico, e desculpe se lhe lembrei coisas tristes.
Um dos textos mais tocantes de sempre no DELITO, Ana. Um beijinho.
Outro, Pedro. Obrigada.
Boa tarde,
O seu post está em destaque no SAPO.pt .
Obrigada
Eu é que agradeço, Sapo.
Foi operado ao cancro da próstata prostatectomia radical) no Hospital Polido Valente em 2.005.
Faço um espécie de químio em comprimidos.
Tive que aprender a viver com a angustia na solidão, e segundo as estatísticas tenho mais dois anos de vida.
Como se trata de uma média posso morrer antes ou depois dos 10 anos. O acaso, o grande fazedor de vidas decidirá.
O seu texto é muito emocionante, gostei.
Cuimprimentos.
Esqueça as estatísticas e as médias e procure manter o ânimo, é o que posso dizer-lhe. Se há campo em que a evolução é rápida esse campo é a medicina, todos os dias se descobrem novos tratamentos e novas abordagens. Ainda sobre estatísticas posso contar-lhe um episódio passado comigo no IPO, logo nos primeiros dias: depois da chamada “consulta de grupo”, um dos momentos mais assustadores de todo o processo, fiz várias perguntas ao médico (sou incapaz de ficar calada nestas situações, quis saber tudo) que me olhou de frente e foi sincero na resposta, dando-me os números estatísticos para o meu caso. Depois disse-me isto, que nunca mais esqueci: “também está na sua mão ficar no grupo que se salva ou no que não se salva. E esse papel é só seu, não há médico que possa fazê-lo por si. Faça a sua parte e deixe o resto connosco”. Foi o que fiz e cá estou, contrariando as piores estatísticas. Até quando? Não sei, mas há alguém que o saiba com certeza, a não ser os suicidas? Boa sorte para si, e se o meu texto o ajudou fico muito contente. 🙂
Agradeço as suas palavras de insentivo.
Quando fiz a terceira operação à prostata tinha 69 anos e o cirurgião informou que se tivesse mais um ano não fazia a operação e teria que recorrer à quimio . Fui operado no limite da resistência do corpo.
Sei que as estatísticas são … estatísticas mas reportam-se a dados reais.
È a primeira vez que escrevo sobre este assunto: procuro que os fantasmas não saiam do armário.
Também sei que falar de fantasmas não chega, é preciso que alguém compreenda.
Voltando às estatísticas , não me preocupa a quantidade de anos que possa ter mas a qualidade desses anos. Quantidade e qualidade podem não cooperar e então a vida tem pouco sentido.
Cumprimentos.
Falar (ou escrever, se não tiver quem o ouça) é importante, não deixe de fazê-lo. Falar destas coisas abertamente retira-lhes uma parte do domínio que exercem sobre nós, como se de alguma forma as desvalorizasse. Sei que esse equilíbrio entre a quantidade e a qualidade de vida pode ser muito difícil, mas não se esqueça de que, por alguma razão, os nossos parâmetros e exigências se vão alterando com o tempo e com as circunstâncias. Enfim, não quero de forma nenhuma parecer doutoral num tema desta natureza nem tenho o direito de dar receitas a ninguém. A mim as coisas correram bem, pelo menos até agora, o que faz de mim uma felizarda. Desejo-lhe o melhor, isso sim. 🙂
Já passaram 25 anos, na altura acho que nem percebi bem o que se passou. Hoje ao olhar para trás não deixo de pensar em dois jovens pais, que estiveram sempre presentes, e eles sim com a consciência das regras do jogo.
Hoje sou mais velho do que eles eram à data. Tenho um mundo mais evoluído, com tecnologias, com comunicações, com transportes, com melhor emprego que o deles, com mais conhecimentos, com mais formação académica… Mas uma coisa eu não tenho… A coragem e determinação!
LM, claro que as teria se precisasse delas. É sempre assim, acredite.
Felizmente não faço ideia do que é ver um filho passar por isso, deve ser duríssimo. Ainda bem que tudo correu bem para si e para eles. 🙂
Fiquei de lagrima no olho.
Felizmente nunca passei por isso, mas deparo-me com situações dessas com alguns idosos que estão na Instituição onde trabalho.
Se já é doloroso ver o sofrimento e a angustia deles, não sei como seria se fosse comigo ou alguém próximo de mim.
Eu não sou nada corajosa, mas pelo que oiço falar há uma força que aparece nessas alturas e que as pessoas passam a dar mais valor à vida e às pequenas coisas.
Boa semana
Acredite que tudo muda, e não necessariamente para pior. Há uma redefinição de prioridades automática que vem com a constatação de que podemos não ter muito tempo pela frente. Tudo ganha a sua justa e real dimensão e o consequente papel na nossa vida, o que pode ser muito útil.
Boa semana para si também. 🙂
Parabéns pelo texto mas principalmente pela determinação que foi obviamente uma grande ajuda para vencer essa batalha.
Obrigada. Provavelmente foi, mas é justo reconhecer que sem a excelência dos médicos do IPO não teria havido determinação que me valesse. 🙂
Todos os dias inicio o dia, começando…hoje não!
Sinto cansaço nas pernas, no corpo, como se o dia estivesse acabando.
Leio o seu texto bonito e revivo o passado que as minhas memórias teimam em não lembrar, e como num filme, passam imagens apressadas, diálogos ainda rigorosos que o tempo manteve inalteráveis.
Gostaria que durante uma horas perdesse a memória, e que a recuperasse mais tarde, já com algum vigor e com uma carapaça vestida.
O relógio marca passo muito lentamente, e eu desespero pelo final das horas, pela resposta, sabendo que seja ela qual for, terei de estar pronta por ela, por todos os que me rodeiam e por mim, para mais uma tarefa complicada, uma luta.
Por isso ” reconheci-a ” no seu texto, senti-me como se estivesse ao seu lado, como uma sombra sem voz que ouvia o seu pensamento.
Se se sentir um pouco mais fraca, foi porque lhe ” roubei “um pouco da sua força, que preciso para mim, hoje. Perdoe-me!
Um bj.
Leve toda a que precisar, Cr. Fico a torcer para que essa resposta seja a que espera, a que todos esperamos sempre. Coragem.
A tarde a cair e a resposta veio.
O dia está começando agora para mim.
A força que lhe “roubei ” foi suficientemente forte, e agora posso respirar com alívio e sem terror.
Foi bom esta ” conversa ” consigo, partilhar estes pensamentos que me atormentavam, porque foi como se lhe possibilitasse a leitura dos meus pensamentos, uma vez que não precisei de falar. Ás vezes ter que ser forte e não falar para não preocupar mais ninguém, pode ser um exercício terrivelmente difícil.
Obrigada Ana foi mesmo uma ” amiga ” sem se dar conta.
Desejo-lhe tudo de bom, também eu sinto agora (através de si )e senti alguns anos atrás, essa gratidão de que fala.
🙂
Fico muito feliz, mesmo muito feliz por si, Cr. Ainda bem que tudo acabou em bem. Um beijo! 🙂
Minha querida Ana
A minha querida mãe e o meu querido filho fazem parte desses familiares que tu e eu encontramos nos corredores do IPO. Nunca mais deixaremos de os sentir como nossos!
Os meus pais (ambos) e vários amigos meus também, Helena. Nunca deixarei de vê-los nas caras que encontro quando lá vou, e talvez seja isso – por mais absurdo que pareça – que torne aquela casa mais acolhedora. Um beijo especial para ti, que sabes bem do que falo.
Olha gostei tanto deste post que me permiti reproduzi-lo na íntegra no meu Fio de prumo com os devidos créditos.
Fico contente, querida Helena.
No meu caso esse sentimento não é só gratidão. Depois de um ano e alguns meses a passar mais de 12 horas por dia no IPO e, aos poucos, começar a ter “folgas” mais prolongadas começava a sentir saudades das pessoas que independentemente do que se passava tinham sempre um sorriso! Ora mais cansadas, ora desanimadas por algo não ter corrido tão bem ou mesmo quando alguém “partia” o sorriso, as palavras meigas, as pequenas brincadeiras estavam lá… Para quem não conhecia parecia estranho ter-se saudades de um hospital… Mas é possível!
É possível, sim, Ana Lúcia. O calor humano do IPO deixa saudades. Mas quem não passou por lá não percebe isso facilmente, e é natural.
Olá. Essas palavras são escritas são o sentimento que percorrem as inúmeras pessoas que passam, vivem ou assistem a alguém doente. Durante oito anos percorremos um longo caminho no tratamento de um cancro, que às vésperas de ser dada como tratada, surgiu novamente noutro local.
Passamos por tantas consultas, tratamentos, internamentos e desta vez o desfecho foi o pior. Mas mesmo assim continuo a sentir uma imensa gratidão para com o IPO, e para com todo o pessoal que trabalha nesta instituição, pois são sempre incansáveis e acima de tudo também são seres humanos como nós.
A coragem falta-me para cruzar de novo aquele portão, pois a última vez que o fiz, foi deixando o meu pai descansando para sempre e regressar a casa sabendo que ele nunca mais viria para o nosso aconchego.
A gratidão apesar de não ter tido sucesso no tratamento de meu pai continua a ser muito grande.
Sei bem do que fala, Anónimo. E claro que lamento o desfecho no seu caso do seu pai. Mesmo assim, tudo seria muito mais duro se o calor humano que encontramos no IPO não existisse. Por isso tenho tanto carinho por aquela casa.
Olá Ana,
Comigo o sentimento é ‘quase’ o oposto.
‘Passei’ pelo IPO duas vezes, a primeira com o meu marido, em 2008, que veio a falecer, a segunda com o meu filhote, então com 3 anos, agora com 6, leucemia em remissão e 1 ano sem quimio.
A gratidão pelas pessoas, sinto-a imensamente. Acho que não existe um hospital (com isto quero dizer, médicos, enfermeiros, auxiliares, voluntários, etc) mais dedicado às pessoas que por lá passam.
Mas fico doente cada vez que tenho que lá voltar. Lembra-me demasiadas tristezas, o meu marido a morrer nas minhas mãos, o meu filho doente, quase a morrer, sem perceber porquê…
Já quase não conheço os meninos que passam pelo Hospital de Dia, muitos já desapareceram, demasiados…..
Não gosto mesmo de lá voltar…
Compreendo-a perfeitamente, Sandra. Como havia de gostar depois desse historial tão triste? Com crianças, então, tudo é ainda mais violento. Um abraço.
Subscrevo todas as suas palavras( sentimentos). Uma semana após ter entregue o meu filho querido ao cuidado de outros anjos, voltei aos jardins daquela que foi a nossa segunda casa durante dez anos. A energia que envolve o IPO não é (só) de dor mas sim de muito AMOR…
Abraço apertado, minha querida
Helena
Devolvo esse abraço apertado, querida Helena, com a maior admiração por si. Isso é que é coragem.