“Escrevo isto porque estou triste. Não triste duma tristeza corriqueira, pão com manteiga, dessas tristezas que se encontram por aí em qualquer banca de revista ou nos ououous das músicas americanas que ouvimos ao mudar estações de rádio; muito menos daquela tristeza melancólica cinematográfica, cacho do cabelo escorrendo no rosto, corpo jogado no sofá lamentando a vida, olhar perdido pro azul, nada disso; nem mesmo daquela tristeza generosa que chora no taxi desabafando com o motorista, as janelas dos prédios passando com velocidade feito a vida toda que ficou pra trás e que não houve, não houve, não houve; minha tristeza não chora, não tem trilha sonora, não rima com beleza. Falo duma tristeza ancestral que corta sem esperanças a terça-feira, que entoa um cântico ritmado, seco, só lamento: não tem cura, não busca consolo e avança sempre. Essa tristeza cria nós por dentro, esvazia os órgãos e imprime a tudo uma textura de pedra, arranhando e tirando o conforto de cada minuto, sem descanso. Olhos arregalados no escuro, acesos, a tristeza vigia feito lobo o medo, o nada, a noite.”
Um belíssimo texto da minha talentosa amiga brasileira Gisela Campos, uma autora praticamente desconhecida em Portugal. Escolhi-o porque, tal como ela, sofro desta tristeza ancestral, inexplicável e absurdamente compatível com uma alegria aparente. Esquizofrenia, dirão alguns. Eu chamo-lhe consciência.


Texto belíssimo!
Não sei se não poderá dizer-se algo semelhante da alegria ancestral, aquela que se pratica porque o mundo desaba à nossa volta, porque os que amamos desaparecem, porque a tristeza nos reduz a um presente sem perspectivas. Eu pratico a alegria, milito nela. Não sei se estou assim tão longe da esquizofrenia ou da tal consciência. Mas, se não fosse assim, creio, já teria decidido partir.
E estás, como sempre, coberta de razão. Quanto maiores são os problemas mais o riso é uma terapia útil. Também a pratico, como sabes, e tem-me ajudado em tudo na vida.
Beijo, querida.
Também eu sinto uma tristeza sem tamanho que me mata o corpo e a alma. Nada é capaz de aliviar o pesadelo e a tristeza que persegue a minha, nossa vida familiar. Um dia, a tristeza entrou em minha casa e com ela levou alguém, estranho, má carácter, interesseira e disposta a virar a minha, nossa vida, num inferno. A tristeza levou-nos o filho que abandonou um futuro promissor, em troca do nada e da malvadez de quem o acompanha. Não sabemos onde está e quando telefonamos não atende e se alguém contesta apenas ouvimos impropérios inimagináveis. Deixei de ter esperança que o amanhã traz um dia melhor, pois já não há esperança num futuro risonho. A melancolia, a raiva,o desânimo, juntaram-se e uniram-se à tristeza. Já não há nada, nem ninguém que derrube a tristeza que se instalou para não mais sair. Esses momentos de tristeza da sua vida, são compatíveis com uma alegria aparente, já na minha todos são incompatíveis com a alegria. Os meus dias são de uma tristeza profunda que nada consegue aliviar pelo menos por agora, talvez um dia lá longe, a vida me traga um pouco dessa alegria que não sei o que é…….
Maria, lamento imenso pela sua tristeza (ou revolta, neste caso), mas ela tem uma natureza muito concreta, é fácil de identificar. E também, por isso mesmo, mais fácil de combater. Deixe que a vida siga o seu caminho, porque se as coisas são exactamente como diz, tudo isso vai mudar um dia. Não perca a esperança e não interfira demasiado, parece-me que isso só vai piorar tudo.
A “tristeza ancestral” de que fala este post é outra coisa. Subtil, invasiva, latente… e sem razão aparente. Embora também se alimente de muitas tristezas concretas, é anterior a elas, uma espécie de pano de fundo que nos está nos genes. Nos meus está, pelo menos… e batalha permanentemente com uma alegria de viver que eu procuro sempre que ganhe a guerra, a bem da minha sanidade mental. Mas a tristeza está lá, diariamente, teimosamente, e anuncia-se assim que acordo de manhã, através de uma angústia inexplicável que depois desaparece de cena quando a consciência de que estou viva e com saúde ganha terreno. É estranho, não sei explicar melhor do que isto.
http://teamcoco.com/video/louis-ck-sprin gsteen-cell-phone
Por estranho que pareça isto é sobre o mesmo tema, e pode fazer rir, ou sorrir.
Pois, “that forever empty thing inside us”… é isso mesmo. Obrigada pelo video.
E felizmente tudo (ou quase tudo) nos pode fazer rir ou sorrir, Luís, mesmo aquilo que nos toca mais fundo. É a tal terapia salvadora de que fala a Helena e que eu também pratico militantemente.
“uma espécie de pano de fundo que nos está nos genes”?
Ana, tente conversar com a menina que foi. Tente descobrir quando começou essa tristeza. Lembre-se do que punha essa menina triste. Lembre-se dos momentos mais tristes da sua infância. Talvez houvesse um sítio onde essa menina se refugiava… Sinta essa tristeza! Chore com ela!
E, depois, imagine-se a si, adulta, a ir ter com essa menina e a abraçá-la, a consolá-la, a dizer-lhe que gosta dela, que a protegerá… Diga-lhe o que ela quer ouvir.
Funciona, se tentar mesmo! Reserve tempo. Porque… Tristeza nos genes? Desculpe, mas a mim ninguém me convence disso.
Cristina, como hei-de dizer-lhe isto sem parecer burra, teimosa ou masoquista? Mas vou tentar: eu não desgosto da minha tristeza ancestral, faz parte de mim e daquilo que sou. E não tem nada que ver com a minha infância, que não pode ter sido mais feliz. Não me lembro de quaisquer traumas ou medos que justifiquem esta angústia existencial, o que tenho é a sensação de que é mais antiga do que eu, de que já nasci com ela. Por isso digo que me está nos genes. É claro que isto não tem nenhuma base científica, é uma simples figura de estilo.
Agradeço e comovem-me os seus conselhos (acredite que sim), mas o que me espanta a mim é a sua fé nessa espécie de auto-terapia regressiva que me poria a dar mimos a mim própria. Não se zangue comigo, mas vou citá-la: “Desculpe, mas ninguém me convence disso”.
Um beijo para si. 🙂
As nossas “teorias” não precisam de base científica. O importante é que nos sintamos bem com elas; o importante é que nos conheçamos e aceitemos como somos.
Beijinho
É verdade, Cristina. E se a reencarnação for uma realidade (ou várias, mais precisamente) então a explicação para esta tristeza pode estar numa das minhas vidas anteriores… 😉
Que belo acidente. 🙂
O fado numa esquina poética deu de caras com existencialismo alemão.
Acredito que somos o universo capaz de se rever. Espelhos minúsculos e mesmo assim especiais. Curiosos.
Compreendo o porquê, só não compreendo…triste para quê?
Dinis, e desde quando a tristeza tem uma finalidade?
Canções, livros,quadros…blogs.etc.
Tem de existir uma finalidade. Apenas não lhe compreendo o sentido.