O que estou a ler (15)


Ana Vidal,

De nenhum livro poderei dizer com tanta propriedade que é o que “estou a ler” como de um livro de poesia. Porque um bom livro de poesia nunca está definitivamente lido, volto a ele muitas vezes e descubro-lhe sempre novas leituras, novas nuances que dependem mais do meu estado de espírito e do meu olhar do momento do que daqueles que presidiram à sua escrita original. Neste sentido, mais do que qualquer outro género literário, a poesia pode equiparar-se à pintura abstracta ou à música, tem o mesmo efeito de interacção cúmplice que estas exercem em quem se deixa envolver por elas. São artes caleidoscópicas, que requerem interpretação e retorno alheios para estarem verdadeiramente completas. Sou cada vez mais uma leitora apaixonada de poesia. As minhas mesas de cabeceira sufocam, encantadas, debaixo dos deslumbrantes delírios de Borges ou de Pessoa, das delicadas rendas de Nuno Júdice ou de Astrid Cabral, dos intrigantes labirintos de Drummond ou de Rilke, das íntimas pulsões de Maria Teresa Horta ou de David Mourão-Ferreira, das domésticas alquimias de Ana Luisa Amaral ou de Adélia Prado. Entre muitos, muitos outros. Vou intervalando poesia com outras leituras, e mesmo dessas raramente leio só um livro de cada vez.

 

Mas não é de poesia o livro de que quero aqui falar. O livro que agora “estou a ler”, ou, melhor dizendo, aquele que neste momento mede forças com os meus poetas, é El amor de mi vida, de Rosa Montero. Todo o livro é uma empolgada e empolgante declaração de amor à literatura, às leituras que mais impressionaram esta escritora que sigo religiosamente desde esse extraordinário livro que é “La loca de la casa”, curiosamente também ele dedicado à sua grande paixão pela escrita. El amor de mi vida é uma compilação de crónicas publicadas no El País (além de escritora e psicóloga, Rosa é também uma respeitada e muito premiada jornalista) com o tema da literatura, cada uma mergulhando num livro específico e no seu universo muito próprio. Mas Rosa Montero não se limita à simples crítica literária, nem sequer a uma apresentação mais aprofundada da narrativa e das personagens. Vai ainda mais longe, traçando-nos um perfil psicológico do autor através de episódios da sua vida, de factos que influenciaram directa ou indirectamente a sua escrita. É, também, um fascinante trabalho de investigação. Revela-nos, por exemplo, as verdadeiras razões que atiraram Charles Darwin para uma volta ao mundo a bordo do pequeno Beagle – “Viagem de um naturalista à volta do mundo” -, transformando um médico e um sacerdote frustrados num apaixonado cientista que deixaria ao mundo a colossal teoria sobre “A Origem das Espécies”. Ou os abismos de outra aterradora viagem – “Até ao Amanhecer” – desta vez aos labirintos mais tenebrosos da loucura, voluntária e corajosamente enfrentada pelo escritor Michael Greenberg por amor a uma filha bipolar em pleno transe psicótico.

 

Enfim, são quase cinquenta preciosas reflexões sobre outras tantas obras literárias, a maioria de referência (em alguns casos sobre toda a obra de um escritor), guiadas pela pena de mestre e visão original de uma leitora compulsiva e muito bem documentada. Recomendo vivamente.  Nas suas palavras de introdução a este El amor de mi vida, Rosa Montero deixa bem clara a natureza da sua relação com os livros:

 

“Sempre tive pena das pessoas que não lêem, não por serem mais incultas, que sem dúvida o são; ou por estarem mais indefesas ou serem menos livres, o que também é verdade; mas, sobretudo, porque vivem muitíssimo menos. A grande tragédia dos seres humanos é virem ao mundo cheios de ânsias de viver e estarem condenados a uma existência efémera.” *


“Graças aos livros partilhamos os nossos sentimentos, aprendemos com os outros e sentimo-nos acompanhados não só na nossa pequena existência, mas também em algo muito mais abrangente, muito maior que nós, algo que nos une através do tempo e do espaço. Não é prodigioso poder vibrar com as palavras de alguém que já morreu há um século, por exemplo?” *


“Para mim os livros são verdadeiros talismãs. Se tenho algum à mão para ler, acho que sou capaz de aguentar quase tudo. São um antídoto para a dor, um calmante para a impaciência, um excitante contra o tédio. Nunca me sinto sozinha nem exitem horas perdidas quando me deixo submergir num texto.” *

 

 

Nota* – A escolha e tradução das citações é minha (desde já as minhas desculpas a Rosa Montero) porque estou a ler o livro no original.

 

E tu, amigo Bandeira, em que leituras te perdes actualmente?

17 comentários em “O que estou a ler (15)”

  1. A minha mesa de cabeceira roga-me pragas…biografia de DeGaulle,Éric Roussel ( obrigado Pedro Correia ); El otoño de los jabalíes, Mariano Aguayo; releio Mau Tempo no Canal, grande, enorme romance; A Bíblia…; O Arco de Santana…; Castilla e los Pueblos, os dois de Azorín…; até me envergonho…

    ( numa estante junto à parede, próxima, estão os livros da reserva da mesa de cabeceira…estes nem nomeio…)

    1. Também tenho no chão uma pilha dos “livros para ler” que vou comprando.
      Mau tempo no Canal (enorme romancem tem toda a razão) lembrou-me a desempoeirada poesia do Nemésio, que adoro. Ficaríamos aqui o resto da vida a saltar de autor em autor, de livro em livro. Como disse Vargas Llosa, “a coisa mais importante que me aconteceu na vida foi aprender a ler”. 🙂

      1. E lembrei-me agora que, nas minhas pesquisas domésticas, ainda não consegui encontrar o meu exemplar de ‘Mau Tempo no Canal’, para mim – inquestionavelmente – o melhor romance do século XX português. Apesar de haver forte concorrência.
        Eu neste momento tenho seis livrinhos à cabeceira: ‘Um Dia na Vida de Ivan Denisovich’ (releitura destinada à série Grandes Romances, aqui no blogue); ‘O Homem Revoltado’ (há sempre um Camus por perto, ainda por cima em ano e quase mês de centenário); ‘O Intruso’, de Faulkner; ‘O Observador de Caracóis’, da Patricia Highsmith (outra releitura, fabulosa colectânea de contos); o inevitável ‘La Verdad de las Mentiras’, de Vargas Llosa; e (coincidência!) um da Rosa Montero, ‘Amantes e Inimigos’. Excelente livro de contos, género em que esta autora também é exímia. Já li e estou a reler.

      2. Como eu os compreendo!
        Mas já o Borges dizia: «Por vezes, ao olhar para os muitos livros que tenho em casa, sinto que vou morrer sem os ler todos, mas não consigo resistir à tentação de comprar mais.»
        Gosto imenso da Rosa Montero, vou ver se consigo encontrar este.
        🙂
        Antonieta

  2. Esta série colectiva é boa também para isto: acabas de sugerir um livro que não quero nem vou perder. E as citações dela que aqui deixas são extraordinárias. Desde logo esta, que subscrevo inteiramente: “Para mim os livros são verdadeiros talismãs. Se tenho algum à mão para ler, acho que sou capaz de aguentar quase tudo. São um antídoto para a dor, um calmante para a impaciência, um excitante contra o tédio. Nunca me sinto sozinha nem existem horas perdidas quando me deixo submergir num texto.”

    1. Tive dificuldade em escolher as citações, todo o texto de introdução é muito bom. Vale a pena procurares o livro, é de 2011 (não sei qual é a editora dela cá, estou a ler a edição castelhana da Alfaguara)

      1. O primeiro livro que li dela foi “A Louca da Casa” e rendi-me. Seguiu-se-lhe “Instruções para Salvar o Mundo” que só me confirmou o seu enorme talento. Este verão li o “Amantes e Inimigos”, um livro de contos de que também gostei muito. O próximo vai ser este, está decidido.

        1. Acho que já li quase todos os livros dela, mas “A louca da casa” foi também o meu primeiro. E continua a ser o meu preferido, apesar de todos serem muito bons. Vais gostar deste, Teresa. 🙂

  3. O Vargas Llosa tem razão, Ana.
    E ainda há tanta gente que não sabe ler… aqui em Portugal.
    Desculpe, mas hoje deu-me para o Borges.
    Na Magazine Littéraire 376, de Maio/99, ele diz:
    «Que d’autres se vantent des pages qu’ils ont écrites; moi je m’enorgueillis de celles que j’ai lues!»
    Bom fim de semana.
    Antonieta

  4. Para mim, foi um livro marcante. A partir dele, parti para outros livros, alguns de autores que já conhecia, como Navokov («Fala, Memória», do qual destaco esta frase, que Montero cita e vale, por si só, a aquisição do livro: ««O berço baloiça por cima de um abismo e o senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva.»), outros de autores que desconhecia e passei a conhecer, como Elvira Lindo.
    Deixo aqui uma parte da introdução (magnífica) que transcrevi no meu blogue: «Siempre me ha dado pena la gente que no lee, y no ya porque sean más incultos, que sin duda lo son; o porque estén más indefensos y sean menos libres, que también, sino, sobre todo, porque viven muchísimo menos. La gran tragedia de los seres humanos es haber venido al mundo llenos de ansias de vivir y estar condenados a una existencia efímera. Las vidas son siempre mucho más pequeñas que nuestros sueños; incluso la vida del hombre o la mujer más grandes es infinitamente más estrecha que sus deseos. La vida nos aprieta en las axilas, como un traje mal hecho. Por eso necesitamos leer, e ir al teatro o al cine. Necessitamos vivirnos a lo ancho en otras existencias, para compensar la finitud. Y no hay vida virtual más poderosa ni más hipnotizante que la que nos ofrece la literatura» (http://thecatscats.blogspot.pt/2011/07/siempre-me-ha-dado-pena-la-gente-que-no.html).

    1. Essa parte é uma das que escolhi e traduzi, Carlos. E tem razão, o livro abriu-me portas para autores desconhecidos também. Estão lá as escolhas pessoais da Rosa Montero, e eu confio no gosto e nos critérios dela.

      1. Sim, Ana, eu reparei que coincide parcialmente com um dos excertos que traduziu. Já agora: dela, o meu livro preferido também é «La loca de la casa» (esse e «Bella y oscura»).

  5. Mi queridisima Ana, qué maravilla de comentario sobre mi libro “El amor de mi vida”!!!! Tu siempre tan generosa conmigo. Muito muito obrigada y un beijo muito grade

    1. Rosa querida, es un lujo y un honor tenerte aqui. Eso si, es autentica generosidad tuya. Lo mio es simples justicia. Un gran beso y hasta siempre! 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *