Navigare necesse est (3)


Ana Vidal,

«Viajar pressupõe não tanto um espírito missionário, nacionalista, eurocentrado e limitado, mas uma vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro fica à porta de uma civilização, aflora uma cultura e contenta-se em vislumbrar a sua espuma, qual espectador empenhado (…), o segundo esforça-se por entrar num mundo desconhecido, desacautelado, qual espectador liberto, preocupado não em rir ou chorar, julgar ou condenar, absolver ou resolver anátemas, mas sim desejoso de apreender esse mundo do interior – compreender, segundo a etimologia da palavra.»

 

O melhor conselho que posso dar a quem viaja – se é que posso ter a presunção dar algum – está contido neste parágrafo. Não tanto no caso desta viagem que aqui descrevo, que não lhe trará grandes choques culturais ou de qualquer outra índole, mas ainda assim o conselho é aplicável: parta de espírito aberto, despindo a sua pele habitual e vestindo, a cada momento, as que se lhe apresentarem como naturais. Deixe-se diluir na paisagem, nos costumes, e verá como tudo é mais saboroso e surpreendente. Além disso, só assim se consegue verdadeiramente apreender e compreender o húmus de cada lugar, e “viajar”, no seu sentido mais amplo, é precisamente isso. Sobre Itália se diz, aliás, uma máxima que resume bem este estado de espírito: “Em Roma, sê romano”. Mas pode, no caso excepcional deste país, deixar vestida a sua hipoderme portuguesa: os italianos são tão parecidos connosco que  se sentirá em casa com facilidade. São nostálgicos, desorganizados, hospitaleiros, desenrascados e apenas mais barulhentos do que nós.

 


(só um cão de pedinte napolitano usa óculos com esta graça)

 

Ser napolitano em Nápoles, por exemplo, passa por aderir sem resistências ao caos generalizado: as regras de trânsito são para cumprir, mas só se não atrapalharem demasiado a circulação. Os próprios polícias se impacientarão com o seu zelo e manda-lo-ão avançar mesmo com o sinal vermelho,  estacionar num passeio ou inverter a marcha em sentido proibido, se isso facilitar as coisas. Esta foi a minha quarta vez numa das minhas cidades preferidas de Itália, se bem que esteja muito longe de ser a mais bonita. Achei-a ligeiramente mais organizada e francamente menos perigosa, e movimentei-me à vontade pelas ruelas empedradas dos bairros velhos, em tudo semelhantes à Madragoa, Alfama ou Ribeira.

 

Terá à sua disposição palácios e monumentos para visitar – será fácil encontrá-los, estão todos sinalizados – mas o único que considero imperdível é o Museu Nacional de Arqueologia, o mais importante do seu género na Europa. Ali encontrará todo o esplendor de Pompeia, Ercolano e outras localidades arrasadas pela súbita fúria do Vesúvio (veja primeiro o museu e depois as ruínas in loco, se puder seguir esta ordem) em salas que reconstituem paredes inteiras de frescos magníficos em tons de ocre e ferrugem vindos de templos e villas particulares, objectos do quotidiano e tudo o que de valor foi retirado a pincel, em alguns casos impressionantemente intacto, de um sepulcro de cinzas e lava. A estatuária do museu  – Roma e alguma Grécia – é igualmente digna de uma visita prolongada, assim como a colecção Farnese (joalharia e adornos dos impérios romano e grego e também da Renascença) e ainda a secção de arte egípcia, uma das mais completas do mundo se excluirmos o museu do Cairo. Depois da arte, a descontracção: uma refeição rápida na pequena marina muralhada de Castel dell’ Uovo, ou uma pizza na famosa Pizzaria Michele. Vá treinando o seu italiano, faça um esforço. Mas mesmo que não consiga perceber nada, não há perigo: os italianos poderiam ser todos surdos-mudos e ainda assim se fariam entender facilmente, tal a eloquência da linguagem gestual que os caracteriza. No sul, essa exuberância é ainda mais acentuada.

 

 

Deixe Nápoles e siga viagem para sul. Esperam por si as ruínas de Pompeia e Ercolano (as que mais valem a pena), impressionantes pela conservação e, no caso de Pompeia, pelo tamanho da cidade. Apesar dos seus olhos calejados por imagens diárias de mortos em todos os jornais televisivos, deixe-se comover perante a visão dos corpos carbonizados, cor de pedra, que as vitrines exibem: lembre-se de que o que está a ver não são esculturas, são pessoas reais eternizadas pelas cinzas em plena agonia, a meio da noite, sufocando num inferno piroclástico. Para concluir, suba à cratera do Vesúvio (só a vista já valeria a visita) e avalie, lá de cima, toda a extensão da tragédia. A noção da enorme desproporção entre o nosso poder e o das forças naturais é sempre uma lição útil, e esta é uma daquelas que nunca mais esquecerá.

 

 

Mas por hoje chega de emoções fortes. 

 

(cont.)

Futebóis


Ana Vidal,

Recebido hoje, por mail:

 

Obrigado Espanha, por ganhar a taça do mundo para nós. De acordo com o Tratado de Tordesilhas de 1494, tudo o que a Espanha conquistar a Este do meridiano 46 é, na verdade, propriedade de Portugal.

Querem fazer o favor de nos entregar a taça?

Navigare necesse est (2)


Ana Vidal,

«Não escolhemos os lugares predilectos, somos solicitados por eles. No registo elementar dos filósofos pré-socráticos, cada qual pode descobrir em si uma paixão pela água, pela terra ou pelo ar – o fogo circulando no próprio corpo do viajante. (…) Na viagem, apenas se descobre aquilo que trazemos connosco.»

 

Receita para umas curtas (mas bem aproveitadas) férias em Itália

 

(o itinerário desta viagem: de Nápoles a Paestum, debruando a costa. E depois Pertosa, para uma incursão ao interior de que não irá arrepender-se)

 

1. Ingredientes:

 

– 8 dias (bem contados) de bom tempo

– 1 boa companhia (essencial que esteja “na mesma onda”; pode acrescentar mais pessoas, evidentemente, mas esta receita é para dois)

– 1 avião

– 1,5 comboios

– 1 moto

– barcos a gosto

– 250 km (mal medidos) de uma deslumbrante linha de costa para explorar

– 1 ou 2 extras (não programados) para avivar o sabor e dar um toque de novidade à receita

 

2. Execução:

 

Antes de mais, uma recomendação essencial: leve pouca bagagem (uma regra básica que a experiência de viajante acaba por ensinar-nos, para nosso próprio bem) e sobretudo roupas leves, de algodão ou de linho. Jeans, calções, t-shirts, fato-de-banho, sapatos confortáveis e um chapéu, será tudo aquilo de que vai precisar para estes dias. Enfim, abre-se sempre uma excepção para um modelito mais sofisticado para um jantar especial, já que cenários e oportunidades não faltarão. Ah, um blusão quente é obrigatório se optar pela minha sugestão de transporte, como verá mais à frente. Acrescente à mala um protector solar de grau elevado e – imprescindível! – um bom guia de viagem. O meu preferido é sempre o Lonely Planet, mas o American Express também é muito bom. Delicie-se, com um deles, a preparar a viagem. Uma boa parte do prazer de viajar está na antecipação.

 

Apanhe um avião que o(a) ponha em Roma bem cedinho. Resista, com todas as forças, à tentação de correr para a Piazza Navona, só para matar saudades. Não é Roma o seu destino, desta vez. Se não conseguir, paciência: renda-se e tome lá um Chianti bem gelado ou a primeira das muitas granite de limone (perfeita evocação das “carapinhadas” da saudosa Ferrari, que o fogo do Chiado varreu para sempre) que irão refrescar-lhe os dias de calor, brindando à memória de David Mourão-Ferreira (ritual meu, desculpem a confidência: nunca vou à Piazza Navona sem erguer um copo ao homem que um dia, tinha eu 17 anos, me elogiou um poema. Muitos anos mais tarde, foi também lá que tive uma óptima surpresa do mesmo género). Segue-se o primeiro comboio: o rápido Roma-Nápoles, que demora cerca de 1 hora. Claro que há voos directos Lisboa-Nápoles para quem quer chegar depressa ao destino, mas eu tenho um fraquinho por comboios e nunca tenho pressa em viagem. Deixe Nápoles para depois, terá tempo mais tarde para dedicar-lhe uma visita. Na própria estação Garibaldi poderá apanhar a Circumvesuviana (uma espécie de metro de superfície que percorre toda a linha de mar entre Nápoles e Sorrento) e comece logo a deslumbrar-se com a paisagem. O fim da linha – Sorrento – é a cidade onde sugiro que faça quartel-general. É uma cidade linda, central (fica sensivelmente a meio do percurso que lhe proponho para estas férias, pelo que dá um óptimo ponto de partida para todas as suas visitas) e cheia de animação. Há hoteis para todos os gostos e bolsas: meia-dúzia de cinco estrelas sumptuosos, adaptados de palazzos e villas nobres; alguns de conceito “boutique” com a marca inconfundível do design italiano; muitos outros mais rústicos, mais simples e sobretudo mais baratos; e ainda mil apartamentos e quartos de aluguer, numa cadência de porta-sim-porta-não. A probabilidade de ter uma boa vista, qualquer que seja a sua escolha, é bastante alta. Se for um milionário dado a luxos asiáticos, sugiro-lhe o Grand Albergo Excelsior Victoria, um pequeno império imobiliário composto de seis villas (foi agregando todas as casas em redor da primitiva, em cima da falésia) e rodeado de jardins belíssimos que vão da Piazza Tasso, no centro da cidade, até ao mar. Se não for este o seu caso mas puder dar-se o luxo de uma extravagância de vez em quando, escolha sem hesitações o delicioso La Minervetta, nem que seja por uma só noite: o prazer de adormecer e acordar com a vista de qualquer um dos seus doze quartos – todos diferentes na decoração – não tem preço. Mas atenção, só uma reserva com grande antecedência ou uma sorte inesperada lhe garantem a chave para este paraíso.

 

Enfim, seja lá onde for, instale-se e livre-se das malas.

 

 

Corra a alugar uma Vespa por 8 dias e dilua-se sem medos no alegre e turbulento enxame que invade todas as cidades, estradas e praias. Não há melhor transporte para se passear em Itália, acredite: é barato, prático e divertido, além de dar-lhe uma mobilidade e uma liberdade ímpares. Se acha a experiência radical de mais, alugue um carro (não maior do que um Smart, de preferência, por questões de estacionamento) ou use os transportes públicos. Ficará limitado aos horários, obviamente, mas a oferta é grande e funcionam bem. Depois… bem, depois entregue-se ao prazer de explorar cada centímetro de uma costa de beleza indescritível, cada cidade ou aldeia, cada esquina, cada recanto menos conhecido. Mesmo nas terrinhas que não constam dos roteiros turísticos há sempre uma casa bonita, um ângulo diferente da costa, uma esplanada ou um restaurantezinho onde vale a pena parar.  Tenho por princípio meter o nariz em todos os recantos e já tive excelentes surpresas por causa disso. Tenha sempre vestido um fato-de-banho, para o que der e vier. O Mediterrâneo convidá-lo-á constantemente a um mergulho, usando descaradamente os dois únicos trunfos que tem sobre o Atlântico: a cor e a temperatura. Compre uns sapatos de plástico para entrar no mar – esqueça as nossas belas praias de areia fina e branca – ou terá a sensação de que os seus pés, enterrados em seixos impiedosos, foram metidos numa trituradora. Mais um aviso: praticamente todas as praias são concessionadas (pertencem a hotéis ou restaurantes, numa espécie de tetris que até o mar divide, com bóias coloridas) e por isso são pagas. Raramente encontrará uma língua livre de “portagem”, mas mesmo assim vale a pena procurá-las ou ceder à imposição de uma espreguiçadeira e um chapéu de sol.

 

Mas nem pense em entregar-se todo o dia ao famoso dolce fare niente: duas horas por dia, no máximo, que há muitos quilómetros para fazer.

 

(cont.)

Navigare necesse est (1)


Ana Vidal,

 

«No começo, muito antes de qualquer gesto, qualquer iniciativa ou vontade deliberada de viajar, o corpo trabalha, à semelhança dos metais sob a canícula do Sol. (…) Toda a genealogia se perde nas águas mornas de um líquido amniótico, esse banho estelar primitivo em que cintilam as estrelas com as quais, mais tarde, se fazem os mapas do céu. O desejo de viagem tem a sua fonte nessa água lustral e morna, alimenta-se estranhamente desse manto metafísico e dessa ontologia germinativa.


Mais tarde, muito mais tarde, cada qual se descobre nómada ou sedentário, amador de fluxo, de transportes, de deslocações, ou apaixonado pelo estatismo, imobilidade e raízes. (…) Os primeiros gostam da estrada, longa e interminável, sinuosa e ziguezagueante, os segundos adoram o solo, sombrio e profundo, húmido e misterioso. Estes dois princípios existem não tanto em estado puro, sob a forma de arquétipos, mas em componentes indiscerníveis no pormenor de cada individualidade.»

 

É assim que começa o belíssimo livro de Michel Onfray, a minha leitura de viagem nestas curtas férias em Itália. Chama-se “Teoria da Viagem – Uma poética da geografia” (Quetzal, textos breves) esta pequena pérola que descobri na Feira do Livro de Lisboa, a melhor compra que lá fiz este ano e que recomendo a todos os viajantes inveterados. Cada linha de cada parágrafo de cada página me diz, de uma forma claríssima, o como e o porquê daquilo que eu sempre soube no meu íntimo: pertenço, sem qualquer dúvida, à tribo dos nómadas. Não saberia explicar-vos porque me sossega tanto a confirmação de um desassossego assumido e irremediável. Mas é exactamente isso que acontece, ao reconhecer-me neste livro como se ele fosse um espelho. Não resisto a incluir pequenas citações dele nas crónicas que se seguirem. Se é verdade que o mundo vai resistindo sempre às nossas tentativas de traduzi-lo em palavras, não o é menos que toda a viagem é uma possível aproximação da compreensão desse mundo. Tentar, tentar sempre, é o que nos cabe.

 

(Imagem: Chema Madoz)

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Ana Vidal,

 

– Ó senhor Eusébio, avie-me aí duas coxinhas de pamela, faxavor. Bem pesadas, que o meu homem gosta muito disso. E pode ser uma maminha também, que é pró churrasco de domingo lá no quintal. Mas tudo bem limpinho, ouviu? Nada de nervos, nem de silicone.

– E um chispezito? Hoje não vai, dona Aurélia?

– Nah… têm cara de ser rijos.

– Nem uma orelhazinha pró cozido?

– Também não. Com aquele pelo todo, dá um trabalhão a chamuscar.

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Ana Vidal,

 

– Booom diiiaaaa!!! És tu, amor? O meu tigre de Bengala, o meu Rei-Leão? Grrrr…

– Hã… bom dia. Como vai, cara colega? Desculpe, será possível falarmos um pouco mais tarde?

– Ohhhh!… snif… porque é que me estás a tratar assim depois da nossa noite selvagem, meu Tarzan? Já não sou a tua Jane???… snif… Ah,  prontos, já percebi: deves estar numa daquelas tuas chatéééérrrrimas reuniões de administração e não podes falar. É isso?

– Exactamente. Muito bem, terei muito gosto em ligar-lhe depois para discutirmos o assunto. Até breve.

– Espera, espera! Só uma perguntinha rápida, então: sabes aquelas cuequinhas-fio-dental que tu adoras e eu tinha ontem, sabes?

– Hum, hum…

– Pois é… perdi-as! Acho que as deixei no teu carro, mas não me lembro onde…

Não há coincidências (14)


Ana Vidal,


Segui a pista do nosso Pedro Correia, tentando encontrar informação que me esclarecesse sobre esta canção, popularizada por Curado Ribeiro e mais tarde incluída no musical Concerto para dois – Fernando Curado Ribeiro, o último galã, da autoria da sua filha (também cantora e actriz) Rita Ribeiro. Tudo o que encontrei, e foi muito pouco, está nos links que aqui deixo*. Não tenho, por isso, forma de saber se os créditos da melodia foram  ou não atribuídos a Tchaikovsky. Se isso não aconteceu é um verdadeiro escândalo, porque não preciso de ouvir mais do que estes 30 segundos para saber que nem sequer de “inspiração” se pode falar. A canção é, de A a Z, o Concerto nº 1 do compositor russo. Ora oiça:


Concerto nº 1 (1º Movimento)
para piano e orquestra – Tchaikovsky

Aqui pela Orquestra Sinfônica da Fundação CSN de Volta Redonda – Rio de Janeiro – com o pianista Arthur Moreira Lima e o maestro Laércio Diniz – num insólito momento de música clássica no programa popular da Globo Domingão do Faustão.


*Nota: Se alguém tiver mais informações sobre este assunto, agradeço que as deixe em comentário. Nem o
YouTube, meu precioso auxiliar nesta série,  nem os audio-players que pesquisei, têm a canção completa.

E agora, José?


Ana Vidal,

 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse….
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

 

Dedico este belo poema do grande Drummond ao nosso primeiro-ministro, com amor e carinho. E não me venham com tretas, não se trata de bater em quem já está no chão. No chão estamos todos nós há muito tempo. Só faltava ele.

Um presente envenenado


Ana Vidal,

Como não tenho o link, aqui fica, na íntegra, a notícia que recebi por mail:

 

Fotógrafo Paulo Nozolino vai devolver Prémio do Ministério da Cultura

02 de Julho de 2010

 

O fotógrafo Paulo Nozolino anunciou hoje que vai devolver o Prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte/Ministério da Cultura (AICA/MC) 2009 em repúdio pelo “comportamento obsceno e de má fé” na actuação do Estado português.

O artista tinha sido contemplado com a edição 2009 do prémio na área das artes visuais, no valor de dez mil euros, patrocinado pelo Ministério da Cultura através da Direcção-Geral das Artes (DGArtes).

Numa carta de Paulo Nozolino divulgada hoje pela Galeria Quadrado Azul, que o representa, o artista justifica a decisão comentado que “em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o!”.

“Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10 por cento em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas”, escreve o artista de 54 anos, premiado em Portugal e no estrangeiro.

A decisão de Paulo Nozolino devolver o prémio surge num momento de grande contestação por parte dos artistas do país, na sequência do anúncio do Ministério da Cultura de aplicar cortes orçamentais de 10 por cento.

A ministra da cultura reage hoje às críticas num artigo de opinião publicado no jornal Público. Gabriela Canavilhas defende que a “leitura histórica” do “trabalho hercúleo” do governo será feita a seu tempo, dizendo que o “contributo e empenho para a consolidação das finanças públicas são pedidos a todos os cidadãos, sem excepção”.

Um prémio que se revelou um “presente envenenado”


No comunicado divulgado pela Galeria, o artista relata: “Na cerimónia de atribuição do prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier”, director-Geral das Artes.

“No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10 por cento, cuja existência é justificada pelo diretor-Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”, descreve ainda.

Para Paulo Nozolino, o pedido de apresentação das certidões “é como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGArtes. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento”.

“Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste, não teria aceite passar por esta charada”, acrescenta.

O fotógrafo devolve o prémio à AICA, rejeita o dinheiro e exige que o seu nome não conste do historial dos premiados.

A cerimónia de entrega do prémio, com a presença de representantes da AICA e da DGArtes decorreu no passado  dia 29 de Junho, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa.

 

@SAPO/LUSA

 

Adenda: descobri, entretanto, estes três textos referentes ao mesmo assunto. É sempre bom vermos as coisas de várias perspectivas.

Seis anos


Ana Vidal,

 

 

 

ADEUS, SOPHIA

 

(A Sophia de Mello Breyner Andresen) 

 

Por fim, Sophia

desatados os laços

vencidos os limites

estende-te o mar o seu tapete de ondas

como quem estende os braços

Respondes ao convite?

 

Guardou, só para ti

na tua metade maresia

prodígios, espantos, maravilhas

estranhos como Giocondas


Esperam-te as ilhas

que sonhaste

E esses corcéis que nunca cavalgaste

sacodem já as crinas

em desafio 

 

Segue o teu fio

de praias extasiadas

de manhãs cristalinas

até que se te acabem as areias

e te venham buscar

breves, aladas

as vagas por que anseias

 

Vai, ruma ao Norte

desprende-te do Sul

que a tua sorte

não é daqui, é de outro azul

 

Vai, habitar para sempre o Mar da Poesia 

 

Adeus, Sophia.


 

(2 de Julho de 2004)

 

 

(Nota: Faz hoje precisamente seis anos que Sophia partiu. Acredito que hoje ela seja já, por direito próprio, a verdadeira Menina do Mar.)

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Ana Vidal,

 

 

– Bom dia, é do Zezé World? Quero inscrever-me naquele curso de 15 dias grátis, de Kamasutra, com o vosso novo professor Zezé Littlebed.

– Não, não, espere aí… está a falar para o Wall Street Institute.

– E não é a mesma coisa?

– Não. Aqui só se ensina inglês.

– Só inglês?? Olhe, fique sabendo que vou queixar-me à DECO, por publicidade enganosa!

Rasgos (20)


Ana Vidal,

Ainda hesitei entre incluí-lo nesta série ou enviá-lo para a série dos mal-amados do João Carvalho, mas, independentemente da megalomania e do exibicionismo reinantes, é inegável o rasgo arquitectónico de Moshe Safdie, o criador do novíssimo  Hotel Marina Bay Sands, em Singapura. A inauguração, inicialmente prevista para 2009, foi adiada até agora por motivos que se prendem com a crise económica que assola até o mundo dos bilionários que frequentarão este hotel ultra-luxuoso de 2.500 quartos, parque de diversões, casino, spa e uma assombrosa piscina com 150 metros de comprimento, por razões óvias a estrela da companhia. Não deixe de visitar o site, se quiser saber mais pormenores. Todos os números são impressionantes. Aqui ficam algumas imagens, bem sugestivas:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arraiais e arraialitos


Ana Vidal,

 

“Não se vai celebrar qualquer matrimónio no recinto, mas haverá um concurso chamado Noivas do Arraial. Quem fizer o pedido de casamento mais original recebe duas viagens de oito dias em lua-de-mel à Grécia (Mikonos para eles, Lesbos para elas), copo-de-água para vinte pessoas e despesas com a conservatória.”

 

Estas são declarações de Paulo Côrte Real, presidente da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), que organizou ontem mais um Arraial Pride em parceria com a Câmara de Lisboa, desta vez no Terreiro do Paço. Este ano com uma especial comemoração a fazer: a legalização do casamento homossexual. No evento não faltou sequer um “arraialito” – um espaço dedicado às crianças – numa clara alusão ao direito à adopção para os novos casais. “O arraialito existe porque queremos celebrar as famílias que já somos, as crianças que já existem em que só uma figura parental é reconhecida pelo Estado”.

 

Fico sempre arrepiada com estas manifestações espalhafatosas, sobretudo porque dizem ter a intenção de dignificar a causa dos homossexuais. Continuo a não entender, sequer, a razão de ser de um sentimento de “orgulho gay” (da mesma forma que não veria qualquer razão para a defesa de um “orgulho straight”, para usar uma expressão equivalente).  A afirmação de pertença orgulhosa a um determinado grupo  identificado pela sua orientação sexual tem exactamente o efeito contrário ao que se pretende: acentua a clivagem e define barricadas, em vez de fazer com que as diferenças se diluam. E fazê-lo com recurso a um folclore de gosto mais do que duvidoso só piora as coisas. Acho particularmente criminoso meter crianças ao barulho, obrigando-as a uma exposição mediática brutal que não pediram, não lhes dá segurança nem lhes faz qualquer bem. Tenho a certeza de que a maioria dos homossexuais não aprova este circo exibicionista, como se torna evidente pelo reduzido número de participantes nestes eventos. Como querem ser respeitados e levados a sério, com atitudes deste calibre?

 

Nota: Numa reportagem de ontem, em directo, um casal de lésbicas aceitou ser entrevistado mas recusou-se a “dar a cara” para as câmaras. É estranho: estas duas mulheres estavam presentes numa manifestação cuja regra é a visibilidade máxima, em plena rua, sabendo que os media não resistem a este tipo de eventos. Mais: defendem (ou não estariam ali), o tal “orgulho gay” a ponto de terem corrido ao Terreiro do Paço de mãos dadas e empunhando cartazes sugestivos. E depois, no momento da verdade… não deram a cara. Alguém me explica um comportamento destes?