«No começo, muito antes de qualquer gesto, qualquer iniciativa ou vontade deliberada de viajar, o corpo trabalha, à semelhança dos metais sob a canícula do Sol. (…) Toda a genealogia se perde nas águas mornas de um líquido amniótico, esse banho estelar primitivo em que cintilam as estrelas com as quais, mais tarde, se fazem os mapas do céu. O desejo de viagem tem a sua fonte nessa água lustral e morna, alimenta-se estranhamente desse manto metafísico e dessa ontologia germinativa.
Mais tarde, muito mais tarde, cada qual se descobre nómada ou sedentário, amador de fluxo, de transportes, de deslocações, ou apaixonado pelo estatismo, imobilidade e raízes. (…) Os primeiros gostam da estrada, longa e interminável, sinuosa e ziguezagueante, os segundos adoram o solo, sombrio e profundo, húmido e misterioso. Estes dois princípios existem não tanto em estado puro, sob a forma de arquétipos, mas em componentes indiscerníveis no pormenor de cada individualidade.»
É assim que começa o belíssimo livro de Michel Onfray, a minha leitura de viagem nestas curtas férias em Itália. Chama-se “Teoria da Viagem – Uma poética da geografia” (Quetzal, textos breves) esta pequena pérola que descobri na Feira do Livro de Lisboa, a melhor compra que lá fiz este ano e que recomendo a todos os viajantes inveterados. Cada linha de cada parágrafo de cada página me diz, de uma forma claríssima, o como e o porquê daquilo que eu sempre soube no meu íntimo: pertenço, sem qualquer dúvida, à tribo dos nómadas. Não saberia explicar-vos porque me sossega tanto a confirmação de um desassossego assumido e irremediável. Mas é exactamente isso que acontece, ao reconhecer-me neste livro como se ele fosse um espelho. Não resisto a incluir pequenas citações dele nas crónicas que se seguirem. Se é verdade que o mundo vai resistindo sempre às nossas tentativas de traduzi-lo em palavras, não o é menos que toda a viagem é uma possível aproximação da compreensão desse mundo. Tentar, tentar sempre, é o que nos cabe.
(Imagem: Chema Madoz)


Bem vinda nómada. Espero que tenham sido umas boas férias. Acho que conheço bem essa tribo. 😉
Acho que conheces sim, Mike. As férias foram óptimas, obrigada.
🙂
Necessitas caret lege…
Nesse banho estelar
de cores cintilantes,
da viagem exemplar
ficam sonhos falantes.
O espírito aventureiro,
entre estradas misteriosas,
é um espectacular viveiro
de recordações imperiosas.
Ena, Amêijoa, que recepção de luxo!
De facto, sinto cada viagem como um viveiro de sonhos e recordações.
Querida Amadora das estradas longas e ziguezagueantes: ainda bem que se divertiu e que está de volta.
Assin: Uma apaixonada pelos solos sombrios e profundos.
;-D
Que monotonia seria este mundo se todos fossemos iguais, Luísa! E, afinal, as estradas ziguezagueantes não são feitas de solos profundos?
Já estou de volta, sim. Mas confesso que já ando a pensar na próxima partida…
😉