Navigare necesse est (3)


Ana Vidal,

«Viajar pressupõe não tanto um espírito missionário, nacionalista, eurocentrado e limitado, mas uma vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro fica à porta de uma civilização, aflora uma cultura e contenta-se em vislumbrar a sua espuma, qual espectador empenhado (…), o segundo esforça-se por entrar num mundo desconhecido, desacautelado, qual espectador liberto, preocupado não em rir ou chorar, julgar ou condenar, absolver ou resolver anátemas, mas sim desejoso de apreender esse mundo do interior – compreender, segundo a etimologia da palavra.»

 

O melhor conselho que posso dar a quem viaja – se é que posso ter a presunção dar algum – está contido neste parágrafo. Não tanto no caso desta viagem que aqui descrevo, que não lhe trará grandes choques culturais ou de qualquer outra índole, mas ainda assim o conselho é aplicável: parta de espírito aberto, despindo a sua pele habitual e vestindo, a cada momento, as que se lhe apresentarem como naturais. Deixe-se diluir na paisagem, nos costumes, e verá como tudo é mais saboroso e surpreendente. Além disso, só assim se consegue verdadeiramente apreender e compreender o húmus de cada lugar, e “viajar”, no seu sentido mais amplo, é precisamente isso. Sobre Itália se diz, aliás, uma máxima que resume bem este estado de espírito: “Em Roma, sê romano”. Mas pode, no caso excepcional deste país, deixar vestida a sua hipoderme portuguesa: os italianos são tão parecidos connosco que  se sentirá em casa com facilidade. São nostálgicos, desorganizados, hospitaleiros, desenrascados e apenas mais barulhentos do que nós.

 


(só um cão de pedinte napolitano usa óculos com esta graça)

 

Ser napolitano em Nápoles, por exemplo, passa por aderir sem resistências ao caos generalizado: as regras de trânsito são para cumprir, mas só se não atrapalharem demasiado a circulação. Os próprios polícias se impacientarão com o seu zelo e manda-lo-ão avançar mesmo com o sinal vermelho,  estacionar num passeio ou inverter a marcha em sentido proibido, se isso facilitar as coisas. Esta foi a minha quarta vez numa das minhas cidades preferidas de Itália, se bem que esteja muito longe de ser a mais bonita. Achei-a ligeiramente mais organizada e francamente menos perigosa, e movimentei-me à vontade pelas ruelas empedradas dos bairros velhos, em tudo semelhantes à Madragoa, Alfama ou Ribeira.

 

Terá à sua disposição palácios e monumentos para visitar – será fácil encontrá-los, estão todos sinalizados – mas o único que considero imperdível é o Museu Nacional de Arqueologia, o mais importante do seu género na Europa. Ali encontrará todo o esplendor de Pompeia, Ercolano e outras localidades arrasadas pela súbita fúria do Vesúvio (veja primeiro o museu e depois as ruínas in loco, se puder seguir esta ordem) em salas que reconstituem paredes inteiras de frescos magníficos em tons de ocre e ferrugem vindos de templos e villas particulares, objectos do quotidiano e tudo o que de valor foi retirado a pincel, em alguns casos impressionantemente intacto, de um sepulcro de cinzas e lava. A estatuária do museu  – Roma e alguma Grécia – é igualmente digna de uma visita prolongada, assim como a colecção Farnese (joalharia e adornos dos impérios romano e grego e também da Renascença) e ainda a secção de arte egípcia, uma das mais completas do mundo se excluirmos o museu do Cairo. Depois da arte, a descontracção: uma refeição rápida na pequena marina muralhada de Castel dell’ Uovo, ou uma pizza na famosa Pizzaria Michele. Vá treinando o seu italiano, faça um esforço. Mas mesmo que não consiga perceber nada, não há perigo: os italianos poderiam ser todos surdos-mudos e ainda assim se fariam entender facilmente, tal a eloquência da linguagem gestual que os caracteriza. No sul, essa exuberância é ainda mais acentuada.

 

 

Deixe Nápoles e siga viagem para sul. Esperam por si as ruínas de Pompeia e Ercolano (as que mais valem a pena), impressionantes pela conservação e, no caso de Pompeia, pelo tamanho da cidade. Apesar dos seus olhos calejados por imagens diárias de mortos em todos os jornais televisivos, deixe-se comover perante a visão dos corpos carbonizados, cor de pedra, que as vitrines exibem: lembre-se de que o que está a ver não são esculturas, são pessoas reais eternizadas pelas cinzas em plena agonia, a meio da noite, sufocando num inferno piroclástico. Para concluir, suba à cratera do Vesúvio (só a vista já valeria a visita) e avalie, lá de cima, toda a extensão da tragédia. A noção da enorme desproporção entre o nosso poder e o das forças naturais é sempre uma lição útil, e esta é uma daquelas que nunca mais esquecerá.

 

 

Mas por hoje chega de emoções fortes. 

 

(cont.)

14 comentários em “Navigare necesse est (3)”

    1. Obrigada, já as apaguei. Prefiro sempre pôr fotografias minhas da viagem (as que ficaram são minhas, à excepção da do vulcão).

      Ainda bem que gostas da reportagem.
      🙂

        1. Cão incluído. Não resisti àquele ar altivo, de óculos iguais aos do dono e se calhar tão falsamente cego como ele. Estive um bom bocado a olhar para ele e nunca tentou tirar os óculos, deve ser já um hábito. Engraçadíssimo.

  1. Muito bom, Ana. Mas se me é permitido um aparte… Isso da vontade etnológica… é um perigo do relativismo. (Eu sei. Eu tirei um curso disso). Há coisas melhores do que outras e não há etnologia (que por acaso é um termo francês – what else) que valha à realidade.

    1. Isso daria uma longa conversa, caro Javali (eu não tirei um curso disso, lamento não ser uma interlocutora à altura e digo-o sem qualquer ironia). Claro que reconheço os perigos do relativismo que uma visão etnológica pressupõe, mas desconfio bem mais da bitola que nós, “ocidentais superiores”, implantamos nos olhos e aplicamos a tudo o que nos parece estranho noutras culturas. Por isso escolhi este parágrafo da Teoria da Viagem, de Michel Onfray, que para mim define muito bem a diferença entre turista e viajante: o primeiro compara sempre, arrogante, o segundo separa para tentar perceber.
      Obrigada pelo seu comentário.

  2. Emoções fortíssimas, Ana! Também não consigo abstrair de que essas pedras foram pessoas apanhadas na mais arrepiante e mortífera das ratoeiras. E de que a natureza continua a estender-no-las quase todos os dias, de formas absolutamente inesperadas. :-S

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