Estas são declarações de Paulo Côrte Real, presidente da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), que organizou ontem mais um Arraial Pride em parceria com a Câmara de Lisboa, desta vez no Terreiro do Paço. Este ano com uma especial comemoração a fazer: a legalização do casamento homossexual. No evento não faltou sequer um “arraialito” – um espaço dedicado às crianças – numa clara alusão ao direito à adopção para os novos casais. “O arraialito existe porque queremos celebrar as famílias que já somos, as crianças que já existem em que só uma figura parental é reconhecida pelo Estado”.
Fico sempre arrepiada com estas manifestações espalhafatosas, sobretudo porque dizem ter a intenção de dignificar a causa dos homossexuais. Continuo a não entender, sequer, a razão de ser de um sentimento de “orgulho gay” (da mesma forma que não veria qualquer razão para a defesa de um “orgulho straight”, para usar uma expressão equivalente). A afirmação de pertença orgulhosa a um determinado grupo identificado pela sua orientação sexual tem exactamente o efeito contrário ao que se pretende: acentua a clivagem e define barricadas, em vez de fazer com que as diferenças se diluam. E fazê-lo com recurso a um folclore de gosto mais do que duvidoso só piora as coisas. Acho particularmente criminoso meter crianças ao barulho, obrigando-as a uma exposição mediática brutal que não pediram, não lhes dá segurança nem lhes faz qualquer bem. Tenho a certeza de que a maioria dos homossexuais não aprova este circo exibicionista, como se torna evidente pelo reduzido número de participantes nestes eventos. Como querem ser respeitados e levados a sério, com atitudes deste calibre?
Nota: Numa reportagem de ontem, em directo, um casal de lésbicas aceitou ser entrevistado mas recusou-se a “dar a cara” para as câmaras. É estranho: estas duas mulheres estavam presentes numa manifestação cuja regra é a visibilidade máxima, em plena rua, sabendo que os media não resistem a este tipo de eventos. Mais: defendem (ou não estariam ali), o tal “orgulho gay” a ponto de terem corrido ao Terreiro do Paço de mãos dadas e empunhando cartazes sugestivos. E depois, no momento da verdade… não deram a cara. Alguém me explica um comportamento destes?


Apoiadíssimo! E servirá este post como copy+paste para eventos futuros do mesmo calibre, digo eu! É porque o disco irá virar, e tocar o mesmo. Enfim 🙂
Espero que não, André, para bem dos próprios. E sobretudo das crianças.
Boa tarde.
Concordo que este não é um espectáculo que “dignifique” a causa gay, e que a grande maioria da comunidade não aprova. No entanto, como em todas as causas (sejam raciais, religiosas, de género ou de qualquer outro cariz), há sempre algum extremismo que, regra geral, se verifica ser necessário, ainda que não fosse desejável. É a sociedade que temos, por agora.
Quanto à diferença, não se trata de a anular, ou diluir, mas de afirmá-la. Trata-se de permitir a diferença pela aceitação. É disso que trata a sua luta, do meu ponto de vista.
A questão – entre outras – é que o “extremismo” parte de quem esteve no centro das reivindicações gay e que fez parte do almoço (que nós pagámos) em S. Bento.
Joana, percebo o que quer dizer e até concordo consigo em parte. Por exemplo, a luta das mulheres pela sua igualdade de direitos teve alguns extremismos vistosos no início – uma estratégia segura para a visibilidade – sem os quais hoje talvez ainda não tivéssemos a comodidade de dar esses direitos por adquiridos. Essas primeiras feministas, criticadas e humilhadas por homens – e mulheres! – da sua época, abriram caminho e pouparam-nos a todas ao enxovalho que elas próprias sofreram.
Mas há a questão dos limites da dignidade, que neste caso não vejo ter paralelo com o que citei como exemplo. “Permitir a diferença pela aceitação” é um belo objectivo e eu concordo com ele, mas não terá grandes resultados se for defendido por este exibicionismo lamentável que ninguém respeitará. Muito menos com o aproveitamento comercial que permite, transformando uma luta séria e justa numa palhaçada oportunista. E temos ainda a questão das crianças, talvez a mais relevante aqui, cujos direitos ninguém parece ter em conta nesta guerra de adultos.
Os vencedores estão com sorte: o governo grego já veio desmentir a notícia de que iria vender ilhas para combater a crise.
Quanto ao arraial propriamente dito. A coisa só prova que, como dizem que disse o Einstein, só há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana. porque ficariam os gays e lésbicas de fora? não será exigir-lhes demasiado?
Visto por esse prisma dou a mão à palmatória, Ana Cristina. A humanidade passa metade da vida a fazer coisas contra si própria, e a outra metade a queixar-se dos resultados. E sem nunca aprender a lição.
É o resultado de soluções que já têm barbas: o direito à diferença às segundas, quartas e sextas e o direito à igualdade às terças, quintas e sábados. O domingo é para o chorrilho de disparates que se sabe.
Bem visto, Ana Cristina.
Ana, julgo que a tese da Joana faz sentido. O que não faz sentido, do meu ponto de vista, é que, (1) numa sociedade onde já há uma razoável aceitação, se recorra aos extremos apalhaçados e ridículos que só podem reacender reservas, e cujos riscos são bem compreendidos pelos próprios (ou as duas raparigas não teriam escondido a cara); e que (2) a luta se restrinja a essa sociedade aberta e não se alargue às outras, que mantêm os seus furores persecutórios. Mas é o paradoxo dos «idealismos» sofisticados do Ocidente. Só lutam nos campos em que já venceram.
A sua última frase diz tudo, Luísa: os idealismos ocidentais tornaram-se preguiçosos e batoteiros, conquistadas que estão as liberdades e os direitos fundamentais…
Mas o que são os festejos dos casamentos heterossexuais, sobretudo os católicos, senão uma palhaçada? Automóveis com latas penduradas, buzinadelas, noiva vestida de parva, bebidas a mais, etc etc. Cada um festeja como entende. Deixe lá os homossexuais, que não fazem mal a ninguém!
A sua argumentação é esmagadora, Luís Pedro… não sei rebater uma afirmação tão brilhante como “noiva vestida de parva”. E, meu caro,toda essa “palhaçada” que enumera é decalcada nos casamentos homossexuais, ainda não reparou?
Claro que homossexuais não fazem mal a ninguém, será que eu disse o contrário? A não ser a si próprios, como neste caso.
Ahah! O Luís Pedro foi realmente esmagador!
Olá Ana,
Gostei muito de ler o seu post porque reflecte muito aquilo que penso também acerca desta temática.
Há muitos anos que digo aos amigos que não compreendo estas manifestações, este espalhafato, este paradas carnavalescas de muito mau gosto.
E faço sempre a mesma pergunta – o que é que acham da ideia de fazermos uma parada cujo tema seria qualquer coisa como “gostamos de gajas”?
Ridículo, não é?
Exactamente. Seria igualmente ridículo e contraproducente para os promotores da manifestação.
“Acho particularmente criminoso meter crianças ao barulho”
Talvez tenha razão (não sei em que consistiu, exatamente, o arraialito, pelo que não sei se seria criminoso). Mas há outros sítios onde crianças são metidas ao barulho: manifestações contra o aborto, por exemplo, e, frequentemente, grupos de danças folclóricas (que agora se vêem em Lisboa em arraiais). Nesses sítios é, decididamente, criminoso ver crianças metidas ao barulho, a fazer papeis que não compreendem e que só deveriam ser para adultos..
Olhe, Luís Lavoura, pode acreditar que ainda tentei responder-lhe com toda a seriedade e boa vontade de que sou capaz. Mas perante um comentário tão disparatadio como este, desisti. Lamento, mas a minha paciência já não chega para tanto.
“Disparatado”, quero dizer. Você até me baralha, mas talvez seja isso mesmo que pretende.
Sobre o casal de lésbicas que não deu a cara: imagine que elas são de uma terra da província onde poderiam ser vítimas de homofobia. Vêem a Lisboa dar a cara numa manifestação, numa terra onde ninguém as conhece nem lhes pode fazer mal. Mas não querem aparecer na televisão, na qual poderiam ser vistas e reconhecidas por gente da terra delas. Esta é uma explicação plausível para o seu comportamento.
Bem, até aí ainda chego, Luís Lavoura…
Mas o seu comentário faz-me chegar à conclusão de que você é tão ingénuo como elas: não foi só a entrevista personalizada, era óbvio que todas as televisões fariam a cobertura do evento. Aquele casal, como todos os que lá estavam, foi filmado na manifestação e é impossível saber antecipadamente qual o destaque que cada canal dá às imagens que gravou. A única forma de garantir que na terrinha ninguém sabe do segredo era não pôr lá os pés. Ou levar máscaras. E ainda há a questão do “orgulho gay”, que não vi onde estava neste caso. Entendeu agora?
Se são lésbicas não podem ser vítimas de homofobia, Luís Lavoura. Só de mulhofobia.
É espantoso como o predomínio masculino ocorre até na comunidade homossexual, reproduzindo a disparidade existente entre os heterossexuais. São quase sempre ‘gays’ a assumir-se como porta-vozes desta comunidade (e porta-vozes a que título? foram eleitos para tal?). As mulheres homossexuais são relegadas para segundo plano – ou ficam totalmente esquecidas. O próprio vocabulário está contaminado. Homofobia e lesbofobia são questões diferentes. Mas presume-se que lesbofobia já está contida na definição de homofobia.
Etc, etc. Um tema que oferece imensa matéria de reflexão.
Eheh…
É interessante essa questão, Pedro, que levantou problemas inesperados. Tanto os termos jurídicos ligados ao casamento propriamente dito, como tudo o resto, terá de ser revisto urgentemente. A terminologia do “modelo único” está completamente desactualizada.
Tudo muito bem visto, com o seu olho analítico de sempre, Ana. Além do post, gostei também muito do modelo das ‘alianças’. Só é preciso é ver se a porca e o parafuso têm o mesmo passo… Acho que não, o que, para o caso presente, também não tem muita importância, uma vez que não se trata de juntar machos e fêmeas…
Não resisti à imagem, Luís. O modelo de alianças é genial, não é? Mas também está demodé…