Fernando Henrique Cardoso foi um excelente presidente do Brasil. Mas é um dos mais entediantes sociólogos da língua portuguesa, como está bem patente no seu livro Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento – um título que já diz quase tudo sobre a capacidade de atracção da sua escrita.
Millôr Fernandes pegou nesta obra de 323 páginas e de lá extraiu este excerto tão esclarecedor (aviso desde já que convém tomar balanço antes de começar a ler): “Em síntese, reconhecendo a especificidade das distintas formas de comportamento, a análise sociológica trata de explicar os aparentes ‘desvios’, através da determinação das características estruturais das sociedades subdesenvolvidas e mediante um trabalho de interpretação. Não é exagerado afirmar que é necessário todo um esforço novo de análise a fim de redefinir o sentido e as funções que as classes sociais têm no contexto estrutural da situação de subdesenvolvimento e as alianças que elas estabelecem para sustentar uma estrutura de poder e gerar a dinâmica social e económica.”
De fazer perder o fôlego a qualquer um.
Millôr, humorista consumado, compara a prosa de Fernando Henrique Cardoso com a de Ludwig Wittgenstein, autor do Tractatus Logico-Philosophicus, de que Bertrand Russell certa vez disse: “Não entendi nada. Mas é genial.” Pois Millôr, na sua coluna da revista Veja, chega à conclusão que o austríaco que revolucionou a filosofia do século XX – “a que FHC chama de século vindouro” – produziu textos bem mais acessíveis do que o do ex-presidente brasileiro. E fornece um exemplo, extraído precisamente do Tractatus Logico-Philosophicus: “O sentido total do livro pode ser sintetizado nas seguintes palavras. O que pode ser dito pode ser dito claramente e aquilo sobre o que não podemos falar devemos passar por cima, silenciar.”
De regresso à prosa de Fernando Henrique Cardoso, segue nova peça de artilharia apta a fulminar qualquer leitor: “As duas dimensões do sistema económico, nos países em processo de desenvolvimento, a interna e a externa, expressam-se no plano social, onde adoptam uma estrutura que se organiza e funciona em termos de uma dupla conexão: segundo as pressões e vinculações externas e segundo o condicionamento dos factores internos que incidam sobre a estratificação social.”
Mais excertos de Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento? Antes Wittgenstein que tal sorte.
Imagem: Ludwig Wittgenstein (1889-1951)


O excerto escolhido por Millôr Fernandes diz tudo: Fernando Henrique Cardoso começa com um «em síntese» e só acaba quando lhe dói a mão.
O antigo presidente brasileiro é o nosso Rui Santos da sociologia.
Rui Wittengstein Brilhantina Santos consegue ser ainda mais prolixo.
Isto é-me muito familiar… Por acaso ele não estudou em Coimbra, não? 🙂
De facto, cheira-me a Basófias.
Sobre o «Tractatus Logico-Philosophicus», tenho exactamente a mesma opinião que B. Russell…
Eheheheh. Não me surpreendo nada, Joana.
Bem, Pedro, eu diria que há pior, muito pior, em livros escritos por sociólogos. 🙂
Há com certeza, Ana. Não tenho a menor dúvida.
Meu caro,
Permita-me apenas o seguinte comentario:
Lula da Silva está a herdar as (boas) consequências do trabalho feito pelo Fernando Henrique que – para mim – iniciou o caminho em que o Brasil trilha hoje…
Bom regresso á Capital, que espero que não seja muito duro
O regresso foi bom, meu caro «desconhecido». Um abraço.
Sempre que passo por um naco de prosa deste quilate, não posso deixar de me lembrar daquela cena de dois amigos que numa plateia ouviam um discurso muito chato. A certa altura, um deles, não estando a perceber nada da palestra, pergunta ao outro:
– «O que é que ele está a dizer?»
– «Nada, está só a discursar…», responde-lhe o primeiro.
Terá sido num 25 de Abril ou num 10 de Junho?