E agora, José?


Ana Vidal,

 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse….
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

 

Dedico este belo poema do grande Drummond ao nosso primeiro-ministro, com amor e carinho. E não me venham com tretas, não se trata de bater em quem já está no chão. No chão estamos todos nós há muito tempo. Só faltava ele.

21 comentários em “E agora, José?”

  1. Como ficava bem aqui o quadro sobre este poema :

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    Como ficava bem aqui o quadro sobre este poema : <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>http</A> :/ anapintura.blogspot.com /2007/12 e-agora-jos.html <BR><BR>Talvez concordem comigo. Dêem lá uma saltada. <BR>
  2. Sócrates José,
    Ministro do reino
    É o que é
    Sem precisar de treino

    Um mimo de rapaz
    Vindo do quase nada
    Um menino sagaz
    De Vilar de Maçada

    Ganhava para o tacho
    Com algumas habilidades
    Assinando por baixo
    Projectos/nulidades

    Fez engenharia
    Ao fim de semana
    Com boa pontaria
    Nunca se engana

    Envia fax
    Ao camarada
    E o curso faz-se
    Em menos de nada

    Levou à pobreza
    Casas antigas
    Mas fez a riqueza
    De amigos e amigas

    É um portento
    Um herói genial
    É um talento
    De Portugal

  3. Parece mesmo que o Carlos Drummond escreveu este “José” propositadamente a pensar neste nosso (salvo seja) José, não é Ana? Adapta-se-lhe tudo tão bem, tudo se encaixa com tal perfeição, que é caso para perguntar se isto não teria sido uma profecia. Conhecia este poema dito pelo Vinicius e só há pouco o ouvi dito pelo próprio Drummond de Andrade.Muito bonito e premonitório.
    Oxalá venha daquelas bandas alguém sério e que esteja disposto a acabar com este país de fantasia em que vive este ‘José’ e com vontade de ver e de dar um rumo àquele que realmente existe. Essencialmente, precisamos de alguém “Seguro”, em minha opinião.

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