Seis anos


Ana Vidal,

 

 

 

ADEUS, SOPHIA

 

(A Sophia de Mello Breyner Andresen) 

 

Por fim, Sophia

desatados os laços

vencidos os limites

estende-te o mar o seu tapete de ondas

como quem estende os braços

Respondes ao convite?

 

Guardou, só para ti

na tua metade maresia

prodígios, espantos, maravilhas

estranhos como Giocondas


Esperam-te as ilhas

que sonhaste

E esses corcéis que nunca cavalgaste

sacodem já as crinas

em desafio 

 

Segue o teu fio

de praias extasiadas

de manhãs cristalinas

até que se te acabem as areias

e te venham buscar

breves, aladas

as vagas por que anseias

 

Vai, ruma ao Norte

desprende-te do Sul

que a tua sorte

não é daqui, é de outro azul

 

Vai, habitar para sempre o Mar da Poesia 

 

Adeus, Sophia.


 

(2 de Julho de 2004)

 

 

(Nota: Faz hoje precisamente seis anos que Sophia partiu. Acredito que hoje ela seja já, por direito próprio, a verdadeira Menina do Mar.)

28 comentários em “Seis anos”

  1. Lindo, de um azul, de uma qualidade poética que a própria Sophia subscreveria, estou certo. Parabéns, Ana, que não pára de nos surpreender com os seus múltiplos talentos.

  2. Ana, que poema comovente…
    Hoje também recordei Sophia, mas não me lembrava que fora a 2 de Julho que partira nem que fora há 6 anos já… conversava-se sobre as melhores autoras portuguesas (não gosto da palavra escritoras) do séc. XX… Sophia vinha à frente.

    O seu poema sintetiza de forma tão viva a sua essência, o mar… o mar sempre tão presente, a maresia, o mistério, a sua densidade…
    Se não se importa vou colá-lo para mostrar a algumas professoras de Português que levam Sophia aos seus alunos com este entusiasmo que a Ana revela…
    Ana

    1. Claro que não me importo, honra-me muito até.
      Sophia é talvez a minha poeta de eleição na língua portuguesa (não gosto da palavra poetisa) e estas palavras foram escritas com muita emoção à mistura, quando soube que ela tinha morrido. E sem um Nobel…
      🙁

      1. Ana
        Obrigada!
        Sabe que domina muito bem a linguagem autêntica da poesia? A síntese? A emoção? Está lá tudo!
        Também cncordo com a Ana: prefiro o termo 2poeta”, também não me agrada “poetisa”.
        Temos grandes mulheres poetas, mas Sophia é especial, muito especial…
        Beijinhos! Ana

  3. a tomar um cafe perto do castelo do queijo em frente ao mar da foz /esta frio/. eu ja chamava a estes sitios terras de sophia. imagine a coincidencia astral quando aqui chego e dou com esta evocacão. perfeito… gostei muito :*

      1. Acho que estou a ver qual é 🙂 Mas não, estou aqui vivinha da silva, sem ter trespassado o vidro. Adoro aqueles sítios do Porto à beira-mar, que ainda por cima estão logo do outro lado da rua de certas…como dizer… portas simpáticas de que sou freguesa. Mas hoje, para mal dos meus pecados, esta foi a minha única escapadela para fora de casa (alheia). Digamos que a missão do passeio, desta vez, era muito pouco agradável. Valeu-me o eco de Sophia 🙂

          1. E foi mesmo. Estes laços blogosféricos são o que são, mas não deixam de ter muita piada
            😉

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