Não há coincidências (13)


Ana Vidal,
 


Lacrymosa (2006)
– Evanescence

 

É a sétima faixa do álbum The Open Door, o segundo gravado em estúdio pelos Evanescence. Depois do fulgurante sucesso de Fallen – o álbum que lançou a banda no estrelato em todo o mundo – The Open Door é considerado o seu disco de consagração: maduro, poderoso e denso. Vendeu oito milhões de cópias, esteve mais de cem semanas no topo da lista da famosa Billboard e tem rendido ao grupo concertos esgotados e muitos, muitos dólares. Os autores creditados de 12 das 13 canções de The Open Door são Amy Lee (vocalista) e Terry Balsamo (guitarrista), e Lacrymosa não é a excepção. No entanto, apesar do título sugestivo, do coro e da orquestra de fundo, nem como “inspirador” o genial Amadeus tem direito a umas letrinhas de agradecimento…

É a vida.

 

 

Lacrimosa (Requiem) –  Wolfgang Amadeus Mozart

 

O deslumbrante Requiem de Mozart, aqui pelo Coro da Ópera de Viena e Orquesta Filarmónica de Viena, dirigida pelo maestro Karl Böhm.

Blogue da Semana


Ana Vidal,

 

A minha escolha para esta semana não é de leitura fácil. Mais: rompe deliberadamente as regras mais lineares de um blogue, servindo longos e densos textos carregados de informação semi-encriptada, tal como é sempre a linguagem dos visionários. Ou dos loucos, porque, para muitos, os dois estatutos frequentemente se confundem. No caso, posso garantir que o autor não é louco. É racional, apaixonado, teimoso, afável, persistente e consistente nas suas inquietações e buscas interiores. É família próxima, conheço-o bem. Já fez de tudo um pouco na vida: desenho, escrita, cinema, agricultura, sei lá mais o quê. A procura incessante do seu graal levou-o a rumar à Galiza (de onde vem, aliás, o nosso nome de família), a reconstruir um solar do séc. XVI em ruínas e a instalar-se aí com a mulher e os filhos (cinco, nada menos). É lá que vive hoje em dia, num eterno encantamento com a terra, a gente e a história.

 

Há uma outra razão para ter escolhido o Gnosiberica como blogue da semana: ainda no rescaldo da morte de José Saramago, que ressuscitou ódios e críticas inflamadas pelas afirmações iberistas do escritor (eu própria me zanguei com ele, até perceber melhor o alcance do que defendia), faço-o na esperança de que a leitura destes textos lance alguma luz sobre as incompreensões e equívocos que grassam facilmente quando tudo é interpretado à letra. Os cultores da chamada Portugalidade – entre os quais se contam os grandes Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva – sempre defenderam simultaneamente uma vocação ibérica do seu país. Tal como Saramago. Raramente as coisas têm só uma leitura, há que vencer a preguiça e ver as palavras que estão para além das palavras, o pensamento que está para além do óbvio.

 

Esta apresentação já vai longa e arrisco-me a ser criticada por intrometer-me em terrenos que mal conheço. Deixo-vos, por isso, um excerto do que encontrarão neste blogue, esperançada em que espicace a vossa curiosidade:

 

“Custa-me muito conceber como é que Portugal, sendo um país de marinheiros experimentados, acabou por perder o norte e soçobrar tão desoladamente…A não ser que o desnorte total em que vivemos faça parte de uma determinada estratégia, ou mesmo de um processo iniciático, em que a morte sirva de prova máxima.

Analisando bem todas as circunstâncias históricas, tenho para mim que foi esse o caso.”

 

Nota: Luís Vidal Lopes, autor do blogue, é o realizador do filme “Mensagem” (1988), feito à custa de teimosia, quase sem orçamento e com a “prata da casa” da família. A rodagem foi uma aventura delirante e inesquecível. A estreia do filme, no S. Luís, foi uma cena digna de registo: de um lado da plateia, os maiores estudiosos de Pessoa e do V Império em silêncio reverente, tomando notas e abanando a cabeça em sinal de aprovação ou desagrado. Do outro, a população em peso de uma vila ribatejana, que participou como figurante, aos gritinhos e gargalhadas incontidas ao ver-se no grande écran trajada a rigor de cavaleiro templário, conquistador das Índias, jesuíta, etc. Uma noite que não esquecerei por muitos anos que viva, e que daria a um bom humorista português matéria para muitos programas.

 

Ensaio sobre um enterro


Ana Vidal,

Assisto, estarrecida, à cobertura televisiva das cerimónias fúnebres de José Saramago na Praça do Município. Todas as entrevistas procuram a polémica, o sangue, a acusação fácil, o ajuste de contas, com um total desrespeito pelo homem que “jaz morto e arrefece” ali mesmo ao lado. O aproveitamento político de uma circunstância desta natureza sempre me enojou, e aquilo a que assisto hoje é a costumeira hipocrisia nacional: salvaguardadas as aparências, mantidas com pompa e circunstância, semeie-se o veneno. Como se não bastasse, é confrangedora a ignorância dos pivots a quem está entregue a carnificina. Guilherme de Oliveira Martins, por exemplo, apresentado como Guilherme Silva, tem de rectificar o seu próprio nome a um jornalista que nem sequer sabe que ele é um homem há muito ligado à cultura (até como presidente do Centro Nacional de Cultura) e o apresenta apenas como presidente do Tribunal de Contas, parecendo estranhar que um jurista se interesse pela morte de um escritor. A pergunta sobre a ausência de Cavaco Silva é praticamente a única que oiço, lançada a torto e a direito a todos os que estão no recinto, desde Mário Soares até aos anónimos militantes do PC e ao povo simplesmente curioso, personificado numa senhora que confessa, com toda a simplicidade: “Isso não sei. Eu estou aqui para ver a urna, como toda a gente”.  Há outra questão, igualmente insistente: se Saramago vai ou não para o Panteão Nacional, onde estão “muitas das grandes figuras portuguesas, da escritura e não só”, como nos esclarece o repórter de serviço à porta do cemitério. Ainda um terceiro tema, também muito adequado à ocasião: o preço das obras da Casa dos Bicos.

 

Felizmente, redime toda esta tristeza folclórica a lucidez sensata e conciliadora da Inês Pedrosa, em estúdio. Valha-nos isso.

 

Seguem-se os discursos oficiais, alguns deles excelentes, a sublime música de Bach e o cortejo fúnebre vai  partir agora para o cemitério. Espero que o circo acalme um bocadinho e haja alguma dignidade na reportagem, mas engano-me. Mal escrevo estas palavras, um repórter diz esta frase edificante: “Nota-se que a neta, Ana, está com um ar muito pesado”. Desisto. Mas ainda vou a tempo de ouvir Jerónimo de Sousa, com muito mais classe do que Mário Soares (que não resistiu a exibir-se, como sempre) recusar-se a alimentar a polémica e lembrar que o momento é de respeito, de luto e de homenagem.

Parabéns!


Ana Vidal,

 

Ao nosso João Carvalho, que hoje faz anos.

Um dia muito feliz, muitos anos e… muitos posts de vida!

 

– o O o –


ADENDA (alocada abusivamente pelo aniversariante) — Na falta das ilustrações escolhidas pela Ana Vidal, que parece terem desaparecido para parte incerta, torno aqui pública a oferta com que fui brindado pela Ariel na caixa de comentários.

 

Branco mais branco não há!


Ana Vidal,

Com humor, limpeza e um português sem mácula (desculpem, é uma pecha minha gostar de ler bom português), este texto remata um despique entre este e outro blogue da nossa praça, em que me envolvi directamente. Não digo qual é o blogue, para obrigar os preguiçosos a procurarem nos posts anteriores e assim aumentarem as nossas visitas (glup!). Parabéns à Maria do Sol, que assim nos vence por KO logo ao primeiro round. Às vezes são os árbitros, e não os jogadores, quem ganha o jogo. Chapeau. E agora vão lá lê-la, vá.

De visita aos Canaviais…


Ana Vidal,

… encontrei esta adenda que a Morgadinha teve a gentileza de dedicar-me, acedendo ao meu pedido. Vamos lá então à prova dos nove, minha fidalga:

 

1. “Sobressaíram” leva acento. Tem razão. Leva e traz, para sermos completamente rigorosas. E é claro que não tenho grande esperança de que (“de que”, note) admita ter sido uma gralha minha. Por isso, adiante.

 

2. Lamento informá-la de que (outra vez o “de que”, sou uma kosher chata…) “entre duas potências capazes de destruir-se mutuamente” e “(…) capazes de se destruírem mutuamente” são duas formas igualmente aceites como correctas para dizer o mesmo. As opiniões divergem, como em variadíssimas outras questões discutidas por eruditos e leigos em sites da especialidade. Fiz os trabalhos de casa, fui procurar. Sugiro que faça o mesmo.

 

3. “A mim conquistou de vez” em vez de “conquistou-me”. Pois bem, Morgadinha, aqui é que a porca torce o rabo… é que “A mim conquistou-me de vez” seria um pleonasmo. Sabe o que isso é? Informe-se, se não for grande incómodo, porque aqui não há dúvidas.

(Eu disse “porca”? Ai, valha-me Deus, isto não é linguagem de Vicentina que se preze! Vou já ali pôr o segundo cilício, que o que trago está a ficar lasso e já só me faz cócegas).

 

4. “A canção fala-nos”, gramaticalmente kosher mas de gosto questionável. De metáforas e outras figuras de estilo, suponho, nunca ouviu falar. Mas se é de gostos que falamos, então nem discuto.

 

5. Finalmente, a cereja no topo do seu bolo: o malfadado “de”. Pois… que maçada, mantenho a minha versão e explico porquê, de forma a que possa perceber facilmente: tem-se pena “de” alguma coisa ou alguém, e não “que” alguma coisa ou alguém. Ainda que fosse uma hipercorrecção,  e não é, prefiro-as sempre à versão “hipo” de que o seu blogue tanto gosta. Em questões de correcção e de educação, mais vale a mais do que a menos.

 

Se lhe estraguei o brilharete, as minhas desculpas.

 

Nota à margem: Já agora, fiquei a saber que sou uma refência das letras pátrias, coisa que desconhecia em absoluto. Só não sei se deva sentir-me feliz ou insultada, porque não sei o que é uma refência. Ignorância minha, naturalmente. Mesmo uma mestre-escola vicentina e holier-than-thou não pode saber tudo.

Mas agradeço-lhe o elogio de ter-se dado ao trabalho de ler a minha “obra” no DO, o que, confesso, não fiz com a sua. Só conheço o post em que me interpela, para defender um colega ultrajado pela minha infinita soberba. Não posso devolver-lhe o seu amigo Talião, portanto. Mas sempre lhe digo, com base apenas nesse texto, que um erro não se “dá”. “Faz-se”.

 

Adenda sintética, só para encerrar o assunto: Já que a Morgada se deu ao trabalho de ler todos os meus posts e até algumas caixas de comentários do DO em que intervenho (ou não saberia que eu tinha achado graça a um texto seu), pensei que o mínimo que eu podia fazer era retribuir o gesto e o interesse. Fui portanto, com a melhor das intenções (sem ironia), ler a sua “obra” bloguística. Para meu grande espanto, e logo num post recentíssimo, dei de caras com um dos tais “dedos virtuosos apontados às incorrecções gramaticais dos outros” que eu e o João Carvalho fomos acusados de apontar ao 5 Dias. No caso, com link e tudo para o post de “um fulano do 31 da Armada”. Depois de tanto moralismo e tanta virtude ofendida, a incoerência não deixa de ser curiosa. Os telhados de vidro são bonitos, mas tãããão frágeis…


Frases do ano (36)


Ana Vidal,

“Há uns pândegos que dizem que fomos apanhados de surpresa pela crise internacional. É preciso ter coragem para dizer tal coisa.”

Ernâni Lopes, no Plano Inclinado de ontem

 

“Quem defende a durabilidade do Estado social, ou é ignorante ou mentiroso. Ou ambas as coisas, o que não é invulgar.”

Medina Carreira, no mesmo programa

Não há coincidências (12)


Ana Vidal,

 

 

 

Because (1969) – The Beatles


 

 

Chegaríamos fatalmente aos Beatles. Que não me trucidem os amantes incondicionais dos 4 magníficos (eu própria sou fã,  embora não de tudo o que eles fizeram), mas também eles sucumbiram à tentação. Because é uma belíssima balada escrita por John Lennon (créditos, no álbum Abbey Road, para a dupla Lennon/McCartney).  Uma das curiosidades desta canção é a tripla dobragem de vozes de Lennon, McCartney e Harrison, de maneira a obter um resultado final de nove vozes, que lhe dão uma projecção muito especial.  Outra, é o facto de ter sido “inspirada” – a  palavra usada por Lennon – na celebérrima Moonlight Sonata, de Beethoven. Segundo John Lennon, a sua mulher Yoko Ono estava a tocar essa peça musical quando ele lhe pediu, subitamente: “importas-te de tocar isso ao contrário”? E pronto, assim surgiu Because, uma espécie de luar invertido, seja lá isso o que for. Valha-nos a melodia, porque a letra é esta pobreza confrangedora:

 

 

Because the world is round it turns me on
Because the world is round…aaaaaahhhhhh

Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high……aaaaaaaahhhh

Love is all, love is new
Love is all, love is you

Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue…….aaaaaaaahhhh

Aaaaahhhhhhhhhh….

 

 


Moonlight Sonata – Ludwig Van Beethoven

 

 

A melodia original, aqui ainda antes de ser virada do avesso...

Pedido de informação


Ana Vidal,

(dois snipers disfarçados de lavadores de vidros foram vistos subindo pela fachada do prédio onde mora o primeiro-ministro. Cá em baixo, atento, um terceiro elemento garantia que ele não pudesse escapar pela porta)


Pergunto: alguém já viu as notícias de hoje, que me possa informar? Enfim, depois da descrição exaustiva da primeira noite da selecção na África do Sul, que deve ter sido a notícia de abertura de todos os jornais, o que há de novo? Nada? Nadinha?? De certeza???

Uma cabala internacional?


Ana Vidal,

A CE publicou ontem um comunicado onde refere que, não tendo Portugal tomado uma acção para corrigir as distorções à concorrência em relação a este programa, terá agora dois para apresentar uma justificação fundamentada para os moldes em que desenvolveu o programa, ou o caso segue para o Tribunal Europeu de Justiça.

(…)

“As regras do procurement público foram desenhadas para assegurar uma concorrência justa para os contratos públicos a uma escala europeia, criando oportunidades para as empresas europeias e assegurando o melhor valor para o dinheiro público”, refere a CE. “O procurement público define como as autoridades públicas gastam os dinheiros públicos. Cobre compras de tudo. Desde o café até aos computadores”.

Saltos altos, baixas letras


Ana Vidal,

“Já se podem alugar malas de luxo em Portugal.”

Este é o título de um post de “A Vida de Saltos Altos, o blogue mais cor-de-rosa do Expresso“, recentemente relançado e com uma equipa feminina de luxo. Assim é definido pelo próprio jornal, que anuncia “textos diários que prometem humor e sensibilidade”. Só não prometem bom português,  o que é uma pena. Mas suponho que não se pode ter tudo.

Dia da Criança


Ana Vidal,

Hoje, em vez de dizermos em posts como as crianças são bonitinhas e engraçadas, em vez de lamentarmos as que sofrem e passam fome, as que não têm acesso ao mais básico conforto, as que vivem em cenários de guerra ou são vítimas de todo o género de abusos, façamos alguma coisa de concreto. Se não podemos acudir a todas elas, tratemos de ajudar UMA.

 

Hoje, parece-me um bom dia para divulgar esta notável campanha da Diocese de São Tomé e Príncipe: dando a uma criança uma oportunidade de desenvolver-se mais harmoniosamente, estaremos a melhorar também todas as vidas que ela vier a tocar, no futuro, com os instrumentos que lhe demos.

 

Faça de conta que tem (mais) um filho – distante, é certo, mas presente pelas notícias que lhe irá mandando dos seus sucessos escolares e pessoais. O contributo que nos é pedido é mínimo, quase ridículo no nosso orçamento (mesmo que apertado, como infelizmente está o de quase todos nós): não mais do que uma jantarada fora, uma peça de roupa de marca ou uma ida ao futebol. Aliás, o que se nos pede é uma participação à medida das nossas possibilidades, não mais do que isso. Por isso esqueça o preconceito, esqueça as conotações religiosas desta iniciativa, caso não se identifique com elas: quem a toma é quem está no terreno, logo, quem pode intervir com mais eficácia e conhecimento de causa. E o que está em jogo é infinitamente superior a esses pormenores.

 

Decida-se: tenha, como eu, um(a) afilhado(a) em São Tomé.

 

Aqui fica a informação de que disponho:

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Diocese de São Tomé

 

Apadrinhamento à distância

 

 

A sua ajuda poderá ter um grande impacto

na vida de uma destas crianÇas

 

 

 

A sua participação ou pedido de informações deve ser dirigida à CARITAS de Setúbal, que coordena a organização aqui em Portugal. O e-mail: caritas.setubal@mail.telepac.pt

 

Uma escolha de paz para o desenvolvimento

 

– No mundo, e em particular em São Tomé e Príncipe, muitas crianças são vítimas diariamente da marginalização, da fome, das doenças, da violência e da pobreza.

 

– Neste país falta o acesso à alimentação, à água potável, à assistência médica, à educação de base, faltam os direitos fundamentais do homem.

 

– A Diocese de São Tomé e Príncipe, com esta campanha de apadrinhamento à distância, tem-se empenhado em representar os mais necessitados do mundo.

 

– O apadrinhamento à distância é um grande esforço de solidariedade humana e de participação no desenvolvimento dos povos.

 

– O apadrinhamento à distância aproxima-o de uma criança, da sua família e da sua comunidade, torna-o um elemento activo e participante no desenvolvimento e no crescimento das comunidades em vias de desenvolvimento e permite-lhe colaborar para a sensibilização de muitas outras pessoas como você.

 

A sua participação é essencial

 

– Receberá um postal informativo e descritivo dos programas que implementamos, bem como uma fotografia da criança que adoptará à distância.

 

– Durante o ano receberá também duas mensagens da criança, por ocasião das épocas do Natal e da Páscoa, e um relatório anual sobre o trabalho desenvolvido no terreno.

 

Apadrinhamento à distância significa desenvolvimento

 

– Não pretendemos unicamente distribuir fundos destinados à aplicação em situações de emergência. Visamos o planeamento de um projecto que construa, no decorrer do tempo, um instrumento moral e humano sólido e uma estrutura para o desenvolvimento no interior da comunidade local, da criança à família.

 

– Uma vez individualizada uma área de intervenção seleccionada pelos nossos contactos locais, laicos ou missionários, planificamos em conjunto com as famílias, operadores e autoridades locais, as intervenções de emergência que se impõem, que fazem parte de um programa para combater a longo prazo as causas que estão na base da pobreza.

 

– Através do contacto com a criança sustentada à distância, o seu apadrinhamento contribuirá para proporcionar à criança a escolha de um futuro, apoiará a sua família e contribuirá para o desenvolvimento e para o bem-estar da comunidade em que se insere.

 

– Por estes motivos, os nosso programas não se limitam a fornecer bens materiais e estruturais, mas alargam-se à participação e envolvimento das comunidades locais no fomento do desenvolvimento, por forma a torná-las autónomo para agirem como interlocutores directos dos seus direitos combatendo as causas da pobreza.

 

Uma longa amizade à distância

 

– Porque combatemos a pobreza juntos, o seu papel será tão importante como o nosso,


– Ajudando uma criança e a sua comunidade, num dos países mais pobres do mundo

 

– Dando vida a projectos a longo prazo que garantam melhores condições de vida e o respeito pelos Direitos do Homem;

 

– Aproximando-se de uma realidade distante através da fotografia de 1 criança, das suas mensagens e de informações sobre o seu percurso escolar.

Testemunho


Ana Vidal,
Dia de abrir envelopes


Há sempre aquele momento. Aquele terrífico e intimidante momento de abrir os envelopes. Olho-os a medo, tentando estabelecer com o exterior, civilizado e inócuo, um pacto de não agressão. É inútil. A desproporção de forças é total, nada a fazer. De que forma poderia eu vingar-me? A ideia absurda deixa-me, pelo menos, um sorriso. Volto a olhá-los, tentando agora outra abordagem: a do optimismo, que sempre me salvou em todas as situações difíceis por que passei na vida. Mas não é fácil, como o foi em tempos, antes daquela vez. Daquela vez em que tudo mudou, em que nem o meu mais delirante optimismo podia iludir o que o Abre-te Sésamo revelava. Nada de tesouros, nada de pérolas e ânforas de ouro. Só uma desolada frase, composta de cinco palavras letais. Todas elas, uma por uma. As palavras também podem ser letais, mesmo sendo feitas com as mesmas letras com que se escreve uma declaração de amor. Nem o pobre “de” parecia inofensivo, no meio delas. Palavras compridas, complicadas, ameaçadoras, fúnebres. Um Requiem em cinco andamentos. Conhecia-as, não me enganaram. Sou filha de médicos, a terminologia arrevezada e áspera não tem grandes segredos para mim. Palavras bastardas de um latim que gerou outras tão bonitas, tão doces. Mas também pariu estas, afinal. Há os bons e os maus em todas as famílias. Aquelas palavras eram as ovelhas negras do latim. Abro sempre os envelopes, eu mesma. Se é de mim que falam, é a mim que têm de dar explicações primeiro. E faço-o sem testemunhas. Não quero que me vejam nos olhos o medo ou a euforia, ambos demasiado íntimos para subirem ao palco. Daquela vez, os envelopes apanharam-me desprevenida. O que traziam dentro era um violento murro no estômago, no meu estômago, que não esperava murros. Foi desde aí que nunca mais abri os envelopes com a mesma souplesse, essa alegre certeza de que estava tudo bem. Ficaram-me na memória e ficarão para sempre, gravadas a ferro e fogo, as cinco palavras que eram uma condenação explícita. Sem enfeites, sem disfarces, sem bálsamos. Só a sentença de morte, nua e crua. Mas afinal ganhei eu. Nessa altura não o sabia ainda, mas o meu optimismo salvou-me, uma vez mais. Ganhei eu, em todas as frentes. Venci as palavras, venci os envelopes mensageiros da escuridão. Passaram dez anos. Venci os envelopes, sim, mas eles rogaram-me uma praga, como vingança: a de ter de abri-los, para o resto dos meus dias, com um misto de medo e de esperança, mas nunca mais com a confiança que tinha antes. Há dez anos que os abro, há dez anos que ganho eu. Hoje foi dia de abrir envelopes, e uma vez mais me intimidaram. Mas hoje, uma vez mais, a caverna de Ali Babá só tinha pérolas e ânforas de ouro para mim.

(Nota: Este texto foi escrito há cerca de um ano e publicado no meu blogue pessoal. Hesitei em trazê-lo para aqui, por medo de ser mal interpretada ou acusada de exibicionismo gratuito. Mas numa altura em que está a decorrer uma importante campanha de sensibilização para o rastreio do cancro do colo do útero – aquele que mais mulheres mata por ano em Portugal, e quase sempre por falta de diagnóstico precoce – penso que poderá ser útil e encorajador o testemunho de alguém que passou por isso e está de boa saúde, onze anos depois. Só por isso o publico no Delito de Opinião, esperando que anime outras mulheres a fazerem o rastreio e a não enterrarem a cabeça na areia. Hoje em dia existe uma vacina eficaz, até. Não há desculpas para a fuga.)

Não há coincidências (especial)


Ana Vidal,

“A economia portuguesa está a recuperar. No primeiro trimestre de 2010, Portugal foi o país da Europa que apresentou o maior crescimento, um dos que mais cedo saiu da condição de recessão técnica e que melhor resistiu à crise económica mundial”.

 

José Sócrates

(Maio 2010)

 

“A situação económica e financeira de Portugal não é comparável à da Grécia, e nem mesmo à de Espanha. O elevado crescimento da economia portuguesa no primeiro trimestre prova a diferença em relação a outros países do sul da Europa”.

Ricardo Salgado

(Maio 2010)

 

Plágio? Não é o caso. Coincidência? Não me parece.

O que dizer de tanta e tão bonita sintonia, no panorama actual?