Criadores e criaturas


Ana Vidal,

“Experimentei ler em inglês e agora vou experimentar ler uma parte em português, mas às vezes a tradução é melhor do que o original.”

 

(Senhora entrevistada em livraria, para a RTP2, sobre os livros de Saramago)

19 comentários em “Criadores e criaturas”

      1. E que tal o comentário/história,relatado por um senhor da Azinhaga, que contou ter Saramago, no decorrer dum comício ou reunião ali havida,nos idos de 70/80, dito que se não tivesse dali saído em miúdo, estaria igual a eles…

        Pode ser mania minha, mas aquilo não me soou lá muito bem…

  1. Acho muito curioso esse comentário, Ana, porque um dos problemas que tenho com a leitura de Saramago é a abordagem aos seus períodos infinitos e «ladainhescos». São verdadeiras travessias do deserto. Ora o inglês é língua que favorece os períodos curtos. Talvez as traduções tenham feito alguns «arranjos», com pontual vantagem… 😉

    1. Li Saramago em alemão e, garanto-vos, é muito mais acessível que em português. E a língua alemã não é coisa fácil.
      Também ouvi a senhora na TV. E não fiquei admirado. Provavelmente a expressão “melhor” não tenha sido feliz, mas compreendi-lhe o sentido.

  2. Luísa e João Espinho, não tinha pensado na coisa por esse ângulo e admito que tenham razão quanto à forma. Seja como for, acho bizarra a afirmação de que alguma obra literária pode ser melhor numa tradução do que no original. Mais fácil de ler não significa melhor, e é sempre no conteúdo que ela é mais importante, não é?

    1. Ana, eu talvez distinguisse dois aspectos: o enredo e o estilo literário (ou domínio da língua). Para quem leia por curiosidade no enredo, a qualidade literária é secundária. Nesse sentido, a tradução, facilitando a leitura, pode ter vantagem. Para quem também – ou sobretudo – aprecie o aspecto formal, dificilmente uma tradução supera um original, concordo. Mas já li algumas traduções (raras) verdadeiramente extraordinárias, feitas por grandes escritores, que dão que pensar, até no tal plano formal. 🙂

      1. É bem verdade o que diz, Luísa. Mas há excepções: em algumas obras, a forma e o estilo da escrita são indispensáveis ao enredo. Penso, por exemplo, em The Catcher in the Rye: escrito de outra maneira, o romance perderia grande parte da sua força.

        1. Há traduções que superam largamente o original. Dois exemplos clássicos: a tradução para português d’ «As Minas de Salomão», de Haggard, feita por Eça de Queirós, é considerada superior à versão original, o mesmo acontecendo com a tradução para francês d’ «A Selva», de Ferreira de Castro, feita por Blaise Cendrars.

          1. Lembro-me de uma que, creio, dá empate: a tradução (talvez adaptação seja o termo correcto( feita por Fernando Pessoa ao poema “The Raven”, de Edgar Allan Poe.

          2. Muito bem: aceito que haja “traduções” extraordinárias que cheguem a superar o original (li As Minas de Salomão, que é uma maravilha, mas não li o original de Haggard, por exemplo) mas essas não são exactamente traduções: são reinvenções do tema, ou adaptações mais ou menos livres, ou como lhes quiserem chamar. Uma boa tradução deve ser fiel ao original, respeitando-o, e limitar-se a isso. Afinal de contas, se não tivesse existido esse original na cabeça de alguém, de que cabeça sairia a tradução?

          3. “Uma boa tradução deve ser fiel ao original, respeitando-o, e limitar-se a isso” – discordo em absoluto. O tradutor não pode esquecer o leitor, a língua de chegada. O tardutor pode, e deve, ter a capacidade de reformular, tendo em vista a compreensão por parte de quem lê. Mas esta é uma polémica antiga e com bons argumentos nas várias “trincheiras”.

          4. Percebo e até consigo concordar,João, mas com muitas, muitas cautelas. Porque temo sempre que essas reformulações acabem por desvirtuar e alterar a mensagem original, o que acho imperdoável. Se alguns leitores locais não entenderem a mensagem por terem uma sensibilidade diferente, paciência. Pior, para mim, é perceberem uma mensagem diferente da que o autor queria transmitir. Nesse caso, o melhor é que o tradutor passe a autor, mas das suas próprias obras…
            Sim, esta é uma discussão infindável.

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