“Já se podem alugar malas de luxo em Portugal.”
Este é o título de um post de “A Vida de Saltos Altos, o blogue mais cor-de-rosa do Expresso“, recentemente relançado e com uma equipa feminina de luxo. Assim é definido pelo próprio jornal, que anuncia “textos diários que prometem humor e sensibilidade”. Só não prometem bom português, o que é uma pena. Mas suponho que não se pode ter tudo.

Já se podia deixar um comentário chistoso mas não me apetece. Por falar nisso, sinto um certo ressabiamento, tipicamente feminino, perspassando o post … será que se pode sugerir que tal seja verdadeiro?..
Pode sugerir o que quiser. Aqui cada um é livre de dizer o que acha, mesmo que seja a maior patetice. Não percebi o que quer dizer com essa do “ressabiamento tipicamente feminino”, mas não tenho grande esperança de que me explique. Vejo que lhe apetece pouco argumentar com alguma lógica, mas não cairei no seu erro, classificando essa preguiça de “tipicamente masculina”. É só típica de um certo tipo de homens: o seu, ao que parece.
Deixa lá, que o Carlos Pimentel consegue incorrer duas vezes no mesmo mau português que apontaste à equipa feminina dos saltos altos.
Fui dar uma espreitadela e também gostei muito da expressão «pornografia feminista». E eu que sempre pensei que as (e os) feministas estão, de certo modo, nos antípodas da pornografia…
Nem entro por aí, João… saltou-me à vista o erro básico de português, e logo num título, e logo num blogue alojado no Expresso. Não classifiquei os conteúdos, embora me identifique pouco com o tom e com a irritante mensagem de que as mulheres só falam e pensam em futilidades. Claro que pensam e falam em futilidades também (e ainda bem!), mas o universo feminino vai muito além disso, felizmente. A expressão “pornografia feminista” é um velho chavão com que se (des)classifica as mulheres que pensam em mais do que “malas Luis Vuitton de aluguer”.
Falar de popós e de bola é menos fútil do que falar de trapos? Bem me parecia que não…
Ora bem.
Alguém tem algo contra os popós???
Olá Ana,
Sempre que me aparece o verbo alugar, lembro-me do meu mestre Orlando de Carvalho e de uma das suas tiradas mais famosas.
Numa oral da cadeira de Direitos Reais, no mês de Setembro, começou por afirmar, enquanto fitava o aluno – “Está com bom aspecto, bronzeado. Esteve na praia?”
O aluno respondeu que sim, que tinha regressado da Figueira.
O Orlando de Carvalho perguntou-lhe então – “Casa própria?”
Resposta do aluno – “Não, alugada”.
Imediatamente, o Orlando de Carvalho retorquiu – “Alugada? Sim senhor. Faz favor, arrende um táxi e vá para casa que está chumbado”.
Juridicamente, valha-nos isso!!, as meninas que alugam as malas, não estão erradas.
Já no português, o meu amigo Aníbal Pinto de Castro era bem capaz de lhes dizer algo de desagradável, provavelmente a terminar com “em casa a coser meias”.
Há cerca de 17 anos, um professor de História contou a mesma coisa. Nunca mais me esqueci.
Tem graça, Pedro, não sou jurista mas também conhecia essa história. Confesso que não entendo muito bem a nuance jurídica, mas sei que ela existe e é relevante.
Quanto ao seu último parágrafo, diz tudo… o tom geral e o pouco cuidado português de “A Vida de Saltos Altos” suscita logo esse tipo de comentário machista do seu antigo professor. E é disso mesmo que tenho pena…
É simples de explicar – arrendamento só para imóveis e aluguer para bens móveis.
No que se refere ao comentário machista, a pessoa em questão, Professor jubilado, e com mais umas quantas honrarias, é capaz da linguagem mais desbragada que se possa imaginar.
Mais, é extremamente machista em qualquer situação.
Tal com o Orlando de Carvalho era.
Obrigada pela explicação, Pedro. É mais simples do que eu pensava.
“Sonha com uma mala de luxo da Louis Vuitton, Burberry ou Prada (entre outras), e não tem budget para a comprar?” Não, eu cá sonho é com o budget.
:))
Ah, também eu, Ariel! E é tudo uma questão de perspectiva… mesmo para quem for essencial a carteirinha de marca bem visível, aconselho uma outra solução: que agarre no dinheiro que lhe custa o aluguer da dita por 3 ou 4 dias e vá a Istambul pelo mesmo número de dias (o dinheiro chega para isso e ainda tem uma cidade inesquecível como brinde), vá ao fabuloso Grande Bazar e compre uma igualzinha, com número de série e tudo (nem os especialistas as distinguem…). E ainda fica com ela, para alugar a outras incautas que não conheçam o truque…
Ai Ana, o Grande Bazar, valham-me so deuses! O que eu gostava de lá voltar! Adorei, amei, completamente, mas eu sou o tipo de mulher que prefere algo indígena do que uma falsificação duma marca qualquer, até porque quem me conhece sabe que não tenho guito para comprar um objecto desses.
Uma perdição, Leonor… e ainda por cima é uma beleza por dentro. Mas eu sou como tu, o que me tenta são os produtos locais. Perdi-me com casacos de seda bordados à mão (por meia dúzia de euros), balandraus, pasheminas, pratas, etc. E os tapetes, que são o meu pecado mortal…
As pratas é que matam e as pasheminas ajudam. Quanto aos tapetes só demasiado preguiçosa 🙂
Sim, o edifício é muito bonito e atmosfera muito engraçada. Mais curioso ainda é ir a pé do Grande Bazar à Mesquita Nova, perto do Bazar das Especiarias. É um misto de Feira da Malveira com a Rua dos Fanqueiros. Vi coisas que já não via há anos.
Já me esquecia do Bazar das Especiarias (ou Bazar Egípcio), que me encheu as medidas! Ariel, não perca essa delícia, por favor. É uma experiência sensorial única, e todos os sentidos ali são usados ao limite. Uma maravilha estética, ainda por cima.
Nunca tive atracção pelas contrafacções, se posso comprar tudo bem, se não posso também não choro, há tanta coisa boa por aí que é um disparate as fixações em determinadas marcas, mas pelas suas indicações, para o ano se se concretizar a ida a Istambul, lá estarei caída no Grande Bazar.
:))
Tem de preparar-se psicologicamente para o Grande Bazar, Ariel… é uma espécie de caverna de Ali-Babá para qualquer mulher (e homem também, que há lá de tudo)! Mas não deixe de ir, o próprio edifício do souk é uma beleza. Vai adorar Istambul, atrevo-me a dizer.
Obrigada Ana pelas preciosas indicações. Vamos lá ver se tudo corre bem e consigo ir.
:))
Não deixe de ir também ao Bazar das Especiarias, ariel.
Obrigada Leonor, não deixarei de ir, sou perdida por especiarias.
:))
O Grande Bazar requer preparação, é verdade, especialmente se levar companhia masculina.
Além do português manhoso, acho piada a esta coisa de se alugar o que não se tem dinheiro para pagar. É de uma pobreza de espírito atroz. Faz-me lembrar aqueles casamentos chiquérrimos em que exigem fraque como traje e depois os homens vão todos mal atamancados com os fraques alugados. Muito triste.
Leonor e Ana, posso juntar a minha à vossa voz e fazemos um trio? :)))
Arrematado, Teresa e Leonor! Somos o trio de combate ao novo-riquismo galopante…
🙂
Trio de combate sempre é melhor do que trio d’ataque. Ou triodemo. Eheh…
Ou Trio do Demo 🙂
Be afraid, be very afraid! eh eh eh
:o)
Feito! É que não posso, não suporto. Antes ir com um vestidinho duma marca espanhola acessível (gostaram deste eufemismo?) do que ir de vestido alugado. E quem diz vestido, diz fraque, ou carteira.
Não estou a ver-te de fraque…
Dificilmente, João, as abas não me assentam bem.
Já agora quarteto, sem me permitem, deixem-me juntar a tão ilustre companhia.
:))
Junte-se a nós, Ariel. The more the merrier 🙂
Sinto-me envergonhada neste momento, porque a verdade é que já reli a frase algumas vezes e não consigo perceber onde está o erro. Será que alguma alma caridosa me pode esclarecer? (não estou a ser irónica)
Não precisa de ter vergonha. É muito comum. O erro está no reflexivo. O verbo é “alugar” e não “poder”.
Errado: «Já se podem alugar».
Certo: “Já podem alugar-se”.
Certo (no Brasil): “Já podem se alugar”.
Caro João,
Não sei se a observação da sua colega Ana Vidal tinha a ver com o “se”. Pelo itálico no “podem”, parece-me que era outra coisa, muito comum (há muito quem ache que, por exemplo, deve dizer-se “vende-se casas” e não “vendem-se casas”).
Já agora, gostaria que a Ana esclarecesse qual foi, efectivamente, o erro que quis apontar.
Cumprimentos do estreante e curioso da língua-mãe ,
Adão de Oliveira
Claro, Adão: a frase que queriam escrever era “já se pode alugar”. Mesmo assim errado, porque seria “já pode alugar-se”. Pior ainda é que só aluga quem não pode (comprar).
Um abraço.
Mas o João não acha que estando “malas” e “casas” no plural, também está correcto “podem alugar-se” e “vendem-se”?
Adão, sou um péssimo explicador. A Ana Vidal talvez seja a pessoa adequada para o fazer.
Vou tentar. Há alguma coisa que é possível fazer-se com as malas. O que é que é possível fazer-se? Alugarem-se? Errado. Porquê? Porque há malas e é possível fazer-se (e não porque há malas e é possível fazerem-se) alguma coisa ou algumas coisas com elas. Então o que é que é possível fazer-se com elas? Alugá-las. Ou vendê-las. Portanto, é possível alugar ou vender as malas. Os verbos estão no infinitivo, pelo que nem se discute se hão-de ser no singular ou no plural. Apenas falta ver se faz falta o reflexivo (“se”). Diferente seria dizer: as malas alugam-se. Ou então: alugam-se ou vendem-se malas. Aqui, elas, as malas, constituem o sujeito (terceira pessoa do plural) e os verbos acompanham o sujeito.
Tentei, mas não sei se consegui. Devo ter armado uma bagunça, mas foi sem querer.
Claro que armei bagunça. O exemplo do sujeito plural é: as malas alugam-se ou vendem-se.
Fantástica explicação, João! LOL. Eu só sou capaz de explicar a coisa numa terminologia completamente demodée, mas é a que aprendi na gramática: O verbo deve concordar sempre com o sujeito (neste caso, “se”) e não com o complemento directo (neste caso, “as malas”). Por isso não pode ser no plural. A frase mais correcta seria: “Já pode alugar-se malas de luxo em Portugal”, embora seja aceitável dizer “Já se pode alugar malas de luxo em Portugal”.
Não sei se me fiz entender, Adão, mas a explicação do João é bem mais divertida.
🙂
Tu és craque. Olha agora esta:
– Já podem alugar malas de luxo em Portugal.
Simples e escorreita.
Tenho uma ainda melhor: “As deslumbradas tesas já podem alugar malas de luxo em Portugal”.
😉
E esta: Antónios Pretos alugam malas de luxo em Portugal.
E as Fátimas Felgueiras, alugam sacos azuis?
Agora só sacos rotos.
Agradeço as explicações de ambos (ambos os dois, como diria o presidente dum certo clube desportivo), mas não fiquei esclarecido.
Como sabem, o habitual é ver-se, por exemplo, “vende-se apartamentos” e não “vendem-se”.
Ora, parece-me que o João entende que a forma correcta seria “vendem-se apartamentos”, ao passo que a Ana acha que é “vende-se…”.
Eu também achava que “vende-se” estaria correcto, mas há tempos li um texto dum filólogo que, creio, defendia que a forma mais correcta era “vendem-se”, mas “vende-se” também seria aceitável, devido à influência da língua francesa.
Enfim, se conseguissem esclarecer isto…
Obrigado.
Adão: alugam-se malas, vendem-se apartamentos. Acho que a Ana também está de acordo. Mas a frase em causa é diferente: tem dois verbos e um é reflexo.
Para mim é “vende-se apartamentos” a forma correcta. Mas admito que possa estar errada. Aliás, a língua é uma coisa viva e, por isso, em mudança permanente. Quando tenho dúvidas hoje em dia, consulto alguns sites especialistas na matéria (abençoada net!), como por exemplo o “Ciberdúvidas da Língua Portuguesa”. Nem sempre nos dá respostas cabais, mas quando não o faz é mais interessante ainda: dá-nos as várias possibilidades, defendidas e fundamentadas por quem sabe o que está a dizer. Experimente.
Por curiosidade, tenho à minha frente o “Livro do Desassossego”, do Pessoa. Tenho andado a relê-lo com o maior deleite e a descobrir uma vez mais que tudo o que interessa sobre a nossa língua e sobre nós próprios está ali, naquele puzzle fabuloso. Para além do prazer de ler um português reinventado a cada linha, quase diria que não há tratado de psicologia que lhe chegue aos calcanhares…
Certo. Nas livrarias, vendem-se livros do Pessoa…
Os livros vendem-se, as malas alugam-se. Logo, vendem-se (os) livros, alugam-se (as) malas e os apartamentos.
Hummm… para mim, não. A não ser que as malas e os livros tratem de alugar-se e vender-se sem ajuda de ninguém…
Olha, não estamos de acordo! Isto até tem graça, João. Precisamos de quem desempate esta questão. Alguém se oferece?
🙂
Alguém se atreve?
Tem razão, Adão, era a esse erro que me referia. Uma questão de concordância errada, mas é muito comum ver-se escrito (ou falado) assim.
Se é um estreante no Delito, volte sempre.
Obrigado, Ana. Sou estreante, de facto, embora este seja o único blogue que acompanho quase diariamente. Voltarei, logo que ache oportuno e tenha alguma disponibilidade.
Os melhores cumprimentos para todos vocês e deixem que lhes diga que têm excelentes autores, incluindo o meu conterrâneo e, de alguma forma, companheiro de luta(s) – especialmente há algns anos -, Coutinho Ribeiro.
Abraço.
Então, se estiver com o seu amigo, diga-lhe que o espera um puxão de orelhas do Delito por falta de comparência no jantar…
🙂
Obrigada pela sua simpatia.
Não se sinta, Su.
Su, não há razão para vergonhas: todos nós fazemos erros, até porque temos uma língua difícil. Vai-se aprendendo e corrigindo, que é o que interessa.
🙂
Esclarecida, obrigada.
Ser útil é sempre um gosto.