Assisto, estarrecida, à cobertura televisiva das cerimónias fúnebres de José Saramago na Praça do Município. Todas as entrevistas procuram a polémica, o sangue, a acusação fácil, o ajuste de contas, com um total desrespeito pelo homem que “jaz morto e arrefece” ali mesmo ao lado. O aproveitamento político de uma circunstância desta natureza sempre me enojou, e aquilo a que assisto hoje é a costumeira hipocrisia nacional: salvaguardadas as aparências, mantidas com pompa e circunstância, semeie-se o veneno. Como se não bastasse, é confrangedora a ignorância dos pivots a quem está entregue a carnificina. Guilherme de Oliveira Martins, por exemplo, apresentado como Guilherme Silva, tem de rectificar o seu próprio nome a um jornalista que nem sequer sabe que ele é um homem há muito ligado à cultura (até como presidente do Centro Nacional de Cultura) e o apresenta apenas como presidente do Tribunal de Contas, parecendo estranhar que um jurista se interesse pela morte de um escritor. A pergunta sobre a ausência de Cavaco Silva é praticamente a única que oiço, lançada a torto e a direito a todos os que estão no recinto, desde Mário Soares até aos anónimos militantes do PC e ao povo simplesmente curioso, personificado numa senhora que confessa, com toda a simplicidade: “Isso não sei. Eu estou aqui para ver a urna, como toda a gente”. Há outra questão, igualmente insistente: se Saramago vai ou não para o Panteão Nacional, onde estão “muitas das grandes figuras portuguesas, da escritura e não só”, como nos esclarece o repórter de serviço à porta do cemitério. Ainda um terceiro tema, também muito adequado à ocasião: o preço das obras da Casa dos Bicos.
Felizmente, redime toda esta tristeza folclórica a lucidez sensata e conciliadora da Inês Pedrosa, em estúdio. Valha-nos isso.
Seguem-se os discursos oficiais, alguns deles excelentes, a sublime música de Bach e o cortejo fúnebre vai partir agora para o cemitério. Espero que o circo acalme um bocadinho e haja alguma dignidade na reportagem, mas engano-me. Mal escrevo estas palavras, um repórter diz esta frase edificante: “Nota-se que a neta, Ana, está com um ar muito pesado”. Desisto. Mas ainda vou a tempo de ouvir Jerónimo de Sousa, com muito mais classe do que Mário Soares (que não resistiu a exibir-se, como sempre) recusar-se a alimentar a polémica e lembrar que o momento é de respeito, de luto e de homenagem.

Dizes bem, Ana. Estes momentos devem ser de respeito, de luto e de homenagem. Infelizmente, costumam ser praticamente só de ruído e mais ruído: a tendência é cada vez mais essa. Hoje não vi nada: tudo quanto sei é por vocês aqui. De qualquer modo, ontem registei bons apontamentos de reportagem, que merecem ser assinalados, como os do Pedro Coelho (SIC), na Praça do Município, fazendo perguntas inteligentes e apropriadas à circunstância, e as da Rosa Veloso (RTP) em Lanzarote, que recusou fazer espectáculo à volta da urna de Saramago e respeitou a dor da família. Pena a tendência dominante não ser esta.
Ontem fui eu que não vi nada. Ainda bem que dizes isso, é bom saber. Mas falas de dois jornalistas com experiência, e penso que o problema maior hoje em dia é a ignorância e a falta de preparação dos pivots que são lançados às feras por tuta e meia e que querem mostrar serviço a todo o custo.
Subscrevo tudo o que dizes. Tenho passado a manhã especado, sem acreditar no que vejo e tu tão bem anotas. Moramos num circo, realmente, em nada melhor do que Eça descrevia nas suas… ‘escrituras’.
Pois é, João. O facto de as “escrituras” do Eça serem ainda actualíssimas não é exactamente um sinal animador para o nosso país…
Muito bem, Ana.
Não se aguenta tanta incompetência. Não se aguenta tanta falta de sensibilidade.
:))
Pois não, Maria do Sol. Eu tive vergonha.
É constrangedora a falta de competência da maioria dos repórteres que fazem entrevistas ao vivo. Mas também penso que às direcções dos departamentos jornalísticos destas mesmas televisões cabe a maior parte da responsabilidade.
Aos espectadores que não são do meio jornalístico, com eu, parece que apanham um qualquer que anda a passear lá pelo estúdio e mandam-no para a rua fazer a tal reportagem com a promessa de ganharem um premio se conseguirem fazer a pergunta mais estúpida da emissão. E também pecam pelo excesso de horas a cobrirem sempre o mesmo assunto, por mais relevância que possua. A mim parece-me preguiça mental.
Maria Carvalho
Claro que tem razão, Maria: a culpa não é deles, é de quem os manda em reportagem com uma total falta de preparação para isso. Acabam por estar ali a encher chouriços, com perguntas estúpidas e declarações ignorantes, e isso é ainda mais grave num funeral.
É inadmíssivel a falta de respeito. Sensibilidade, bom senso e profissionalismo não são para todos.
Pois não, Leonor, mas a coisa está a ficar preocupante. O que será que lhes ensinam nos cursos de jornalismo? E que pressões terão para conseguirem audiências a todo o preço?
Não faço ideia, Ana, mas sei que é preciso rever a formação universitária em alguns cursos, porque as pessoas já não são o que eram e não têm a menor noção. No ensino, por exemplo, seria fundamental ensinar ética e comunicação, além das cadeiras de formação científico-pedagógica.
Tudo se resume à ética, de facto. Mas o conceito está demodé, pelos vistos.
Na minha pouca sabedoria e cultura, concordo plenamente consigo. Aquilo que fica da transmissão televisiva é o aproveitamento politico. Terá sido por isso que Cavaco não foi ao funeral ? O grito a Saramago depois de cremado era o grito do PCP, em todas as outras ocasiões. Morreu um prémio Nobel português, estamos habituados a poucos, morreu um homem da cultura e depois quantos têm morrido? Não gosto da literatura de Saramago, deveria ter ido ao funeral? Acho que não merecia ter sido Nobel, deveria ter ido ao funeral? Hipócrita não !
Caro Zeparafuso, deixe-me pôr a coisa assim: eu ou você podemos dar-nos ao luxo de não ir ao funeral de um Nobel aclamado no mundo inteiro se não gostarmos dele, mas o presidente da República não pode misturar os seus gostos pessoais com a sua obrigação enquanto presidente do país. Não é uma questão de hipocrisia, é uma questão de obrigação e ele tem de ser superior a tudo o resto. Só lhe teria ficado bem estar presente. Quanto ao aproveitamento político estamos de acordo. Mas a triste figura fica com quem o fez.
É ! Realmente somos um país do politicamente correcto. Talvez por isso nunca venhamos a ser um país forte seja no que for. Para quem gosta de Saramago…..tudo bem. Façam aquilo que acharem de mais justo. Façam as homenagens que estenderem. Cavaco, indo ao funeral, arriscava-se a ser apupado, não indo……ficou-se pela atitude que para uns será condenável e para outros nem, por isso. Daqui por meia dúzia de meses tudo estará esquecido e voltamos ao mesmo.
Das muitas horas de televisão dedicadas à cobertura deste acontecimento (pelo que leio nos comentários anteriores), apenas vi cerca de 15 min., mas, sorte ou falta dela, cheguei precisamente na altura dos discursos. Esse curto espaço de tempo, no entanto, deu para ver um pouco de tudo. Saliento estas: uma homenagem póstuma, longa, mas justíssima, e muito bem estruturada do representante da fundação José Saramago, Carlos Reis; um discurso belíssimo e comovente da ministra da Cultura de Espanha, Maria Teresa Fernández de la Vega, que mostrou conhecer profundamente, entender e apreciar mais a obra do autor do que certamente a grande maioria dos intelectuais portugueses; uma homenagem sentida e com palavras simples de Jerónimo de Sousa, o qual, porém, não se cansou de repetir até à exaustão, que Saramago era um ‘camarada’ e que ‘o PCP fora o seu partido de sempre’, (como se tudo isto já não fosse mais que sabido), não se entendendo, ao mesmo tempo, o que é que isso tira ou acrescenta à obra do autor. Finalmente e para fechar com ‘chave de ouro’ um dissertação paupérrima da nossa ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, (vestida como se fosse para ir jantar, a uma ‘vernissage’, ou a S. Carlos) que se limitou a fazer um discurso recheado de infindáveis citações de excertos de obras de Saramago e que, assim, demonstrou estar a léguas da sua congénere espanhola, em todas as vertentes. Julgo que se percebe melhor agora, porque é que sendo Saramago um português de gema – que o era – preferia contudo viver em Espanha.
Também achei o discurso da nossa ministra da Cultura o mais pobrezinho e o mais pretensioso, Luís.
Jerónimo de Sousa estava no seu papel… e gostei do tom discreto e simples do discurso.
Perfeitamente em sintonia. Também gramei a pastilha – em fundo, mas mesmo assim… – e ia pensando em tudo o que refere e tão bem sintetiza. Com uma única excepção que nem vale a pena focar, em nome do sagrado direito à opinião.
Já agora, só mais um pormenor: Guilherme d’Oliveira Martins é jurista 🙂
Tem razão, Chloé. Obrigada pela correcção, vou emendar. Fiquei a pensar na excepção, acho que sei qual é… quanto a mim, tem dias!
😉
Por uma questão de princípio travo sempre o 1º impulso porque, mesmo não sendo, pode parecer uma ferroada desleal na ‘classe’, digamos assim… E não é da classe sindical que falo – essa esteve bem representada, sim senhor. É de outra 🙂
Não pergunto mais nada, Chloé…
🙂
Volto só para dizer que ainda não aprendi esse sábio princípio de travar os primeiros impulsos, o que já me rendeu algumas complicações…
🙂
:):) Não é de certeza absoluta mais impulsiva do que eu, pode acreditar e registar:):) Este comedimento específico, que cultivo com algum sucesso à força de puxar logo da bomba da racionalidade, é um tributo que pago à minha própria (má) experiência neste campo. Não há coisa mais letal do que as zarabatanas de um inimigo que se auto-recruta dentro da própria ‘classe’… As juras são de morte precisamente por isso, tínhamos de estar no clube oposto para sermos tolerados… Um belo dia, quando decidi passar à apologética activa contra esta atitude, jurei a mim própria que criava uma espécie de lei das quotas, tão aleatória como a original: -“às primeiras trava, julgas que não mas estás muito provavelmente sob o efeito do síndrome da ciumeira de género”…
Uma vez cumprida quota, é só malhar no ceguinho :):)
Ahahahahah
O que eu já me ri com o seu comentário, Chloé! Vou tentar aprender consigo: primeiro salva-se a honra do convento, depois pagam todos os pecadores que tiveram o azar de chegar atrasados! É o doce sabor da desforra…
Boa!
🙂
Corei de vergonha (e não era nada comigo) quando uma rapariguinha da RTP (não sei quem era, só lhe ouvi a voz) a falar em sussurro, no interior da CML, antes do início dos discursos, dizer que «está ali no caixão o corpo de José Sócrates»… Eu ouvi. E se há gravações (talvez no Youtube) pode-se checar. Fiquei estarrecido. Mas como tudo se desculpa, o melhor é seguir a dança.
Cumprimentos
Credo! Essa não ouvi…
Só pude assistir a bocadinhos de entrevistas e reportagens, mas o que vi deixou-me igualmente estarrecido. Estamos habituados a péssimos directos nas nossas televisões, é um facto, mas estes ultrapassaram todos os limites. A procura da polémica irrelevante e a qualquer preço foi nauseabunda, tal como as entrevistas a torto e a direito aos chamados anónimos. Valeu-nos Inês Pedrosa (concordo em absoluto) a falar da obra de Saramago, que era o que interessava.
Um momento arrepiante: quando Pilar, Violante e uma outra senhora vêm à varanda dos Paços do Concelho, um repórter já não sei de que televisão informa que elas são familiares de Saramago: a mulher, a filha e uma neta. A “neta” era a violoncelista Irene Lima, que tinha acabado de interpretar Bach e o “Canto dos Pássaros”.
Uns momentos depois, Irene Lima, a violoncelista, era apanhada já cá fora por uma repórter: «Como foi tocar aqui…?»
Essa pérola escapou-me também. Felizmente, porque tudo o que vi e ouvi chega e sobra…