Testemunho


Ana Vidal,
Dia de abrir envelopes


Há sempre aquele momento. Aquele terrífico e intimidante momento de abrir os envelopes. Olho-os a medo, tentando estabelecer com o exterior, civilizado e inócuo, um pacto de não agressão. É inútil. A desproporção de forças é total, nada a fazer. De que forma poderia eu vingar-me? A ideia absurda deixa-me, pelo menos, um sorriso. Volto a olhá-los, tentando agora outra abordagem: a do optimismo, que sempre me salvou em todas as situações difíceis por que passei na vida. Mas não é fácil, como o foi em tempos, antes daquela vez. Daquela vez em que tudo mudou, em que nem o meu mais delirante optimismo podia iludir o que o Abre-te Sésamo revelava. Nada de tesouros, nada de pérolas e ânforas de ouro. Só uma desolada frase, composta de cinco palavras letais. Todas elas, uma por uma. As palavras também podem ser letais, mesmo sendo feitas com as mesmas letras com que se escreve uma declaração de amor. Nem o pobre “de” parecia inofensivo, no meio delas. Palavras compridas, complicadas, ameaçadoras, fúnebres. Um Requiem em cinco andamentos. Conhecia-as, não me enganaram. Sou filha de médicos, a terminologia arrevezada e áspera não tem grandes segredos para mim. Palavras bastardas de um latim que gerou outras tão bonitas, tão doces. Mas também pariu estas, afinal. Há os bons e os maus em todas as famílias. Aquelas palavras eram as ovelhas negras do latim. Abro sempre os envelopes, eu mesma. Se é de mim que falam, é a mim que têm de dar explicações primeiro. E faço-o sem testemunhas. Não quero que me vejam nos olhos o medo ou a euforia, ambos demasiado íntimos para subirem ao palco. Daquela vez, os envelopes apanharam-me desprevenida. O que traziam dentro era um violento murro no estômago, no meu estômago, que não esperava murros. Foi desde aí que nunca mais abri os envelopes com a mesma souplesse, essa alegre certeza de que estava tudo bem. Ficaram-me na memória e ficarão para sempre, gravadas a ferro e fogo, as cinco palavras que eram uma condenação explícita. Sem enfeites, sem disfarces, sem bálsamos. Só a sentença de morte, nua e crua. Mas afinal ganhei eu. Nessa altura não o sabia ainda, mas o meu optimismo salvou-me, uma vez mais. Ganhei eu, em todas as frentes. Venci as palavras, venci os envelopes mensageiros da escuridão. Passaram dez anos. Venci os envelopes, sim, mas eles rogaram-me uma praga, como vingança: a de ter de abri-los, para o resto dos meus dias, com um misto de medo e de esperança, mas nunca mais com a confiança que tinha antes. Há dez anos que os abro, há dez anos que ganho eu. Hoje foi dia de abrir envelopes, e uma vez mais me intimidaram. Mas hoje, uma vez mais, a caverna de Ali Babá só tinha pérolas e ânforas de ouro para mim.

(Nota: Este texto foi escrito há cerca de um ano e publicado no meu blogue pessoal. Hesitei em trazê-lo para aqui, por medo de ser mal interpretada ou acusada de exibicionismo gratuito. Mas numa altura em que está a decorrer uma importante campanha de sensibilização para o rastreio do cancro do colo do útero – aquele que mais mulheres mata por ano em Portugal, e quase sempre por falta de diagnóstico precoce – penso que poderá ser útil e encorajador o testemunho de alguém que passou por isso e está de boa saúde, onze anos depois. Só por isso o publico no Delito de Opinião, esperando que anime outras mulheres a fazerem o rastreio e a não enterrarem a cabeça na areia. Hoje em dia existe uma vacina eficaz, até. Não há desculpas para a fuga.)

15 comentários em “Testemunho”

  1. Um escrito de alerta e de esperança. Dou fé (que me desculpem) da minha experiência,há dez anos que todos os dias olho o “traço” que me percorre, do esterno à ilharga esquerda. Uma supra-renal que se perdeu de amores com um sujeito chamado carcinoma e o pobre do rim anexo,que nem tinha nada a ver com aquilo,foi arrastado na queda…
    há dez anos que procuro viver de pequenos passos e pequenas alegrias. Bem contados todos.

    A Ana Vidal perdoa-me o beijo solidário que lhe envio !!

  2. Obrigada por partilhar a sua coragem, Ana. Porque sem ela não há estórias de esperança para contar.

    Bem haja. E tudo de bom para si.

  3. Ana
    Leio-a sempre, nem sempre a comento. Não deixo comentários por discordâncias gratuitas, por ter outras prioridades ou tão só por falta de argumentos. Uma vez ou outra registo o que penso e faço-o de forma “avinagrada”. Hoje, para este texto denso mas descomprimido e liberto de más mensagens, trago-lhe adjectivos agradáveis de dizer: belíssimo de ler; sublime a dar testemunho.

    Fez bem em repetir este post

    1. Arrepiaste-me, Ana. Só agora te li. E o madrugador aqui de cima disse o que percebi desde o primeiro dia: “basta olhar para ti para se perceber de que fibra és feita”. Beijo e muitos envelopes sonsos mas inócuos é o que te desejo.

  4. Que texto generoso, Ana! E nem assim, neste contexto, consegue deixar de ter a sua marca habitual de amenidade e firmeza. Eu, que visto a minha cobardia de coragem táctica, ao primeiro sinal interrogado decidi sozinha prescindir do apenso… Foi há seis anos e ‘no pasa nada’, a coisa também já tinha cumprido a sua função 🙂 Só que o seu recado assenta-me como uma luva, pq costumo ser muito indisciplinada nas rotinas preventivas que todos devemos cumprir (e tb . sou filha de médico, shame on me).
    Mas o que eu quero mesmo é que o frisson dos envelopes a acompanhe por muiiiiiiiiiito tempo 🙂

  5. Li este post pouco antes de ontem à noite, Ana, e ocorreu-me exactamente o mesmo que o Bandeira diz aqui em cima.
    Tenho uma amiga que há quatro anos abre os seus envelopes nessa mesma expectativa, e felizmente com esse mesmo alívio. Faço votos para que esse alívio se suceda por muitos e bons anos.

  6. Obrigada a todos.

    Embora não tenha sido para ouvir palavras simpáticas que aqui trouxe este texto, não negarei que me sabe muito bem ouvi-las. Sobretudo, como disse a Cristina, é bom que haja “estórias de esperança para contar”, para que quem está agora a entrar num destes processos saiba que a cura é possível e cada vez mais frequente, felizmente. O que não podemos é facilitar, como eu fiz por puro desleixo. O preço pode ser alto de mais.

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