
A minha escolha para esta semana não é de leitura fácil. Mais: rompe deliberadamente as regras mais lineares de um blogue, servindo longos e densos textos carregados de informação semi-encriptada, tal como é sempre a linguagem dos visionários. Ou dos loucos, porque, para muitos, os dois estatutos frequentemente se confundem. No caso, posso garantir que o autor não é louco. É racional, apaixonado, teimoso, afável, persistente e consistente nas suas inquietações e buscas interiores. É família próxima, conheço-o bem. Já fez de tudo um pouco na vida: desenho, escrita, cinema, agricultura, sei lá mais o quê. A procura incessante do seu graal levou-o a rumar à Galiza (de onde vem, aliás, o nosso nome de família), a reconstruir um solar do séc. XVI em ruínas e a instalar-se aí com a mulher e os filhos (cinco, nada menos). É lá que vive hoje em dia, num eterno encantamento com a terra, a gente e a história.
Há uma outra razão para ter escolhido o Gnosiberica como blogue da semana: ainda no rescaldo da morte de José Saramago, que ressuscitou ódios e críticas inflamadas pelas afirmações iberistas do escritor (eu própria me zanguei com ele, até perceber melhor o alcance do que defendia), faço-o na esperança de que a leitura destes textos lance alguma luz sobre as incompreensões e equívocos que grassam facilmente quando tudo é interpretado à letra. Os cultores da chamada Portugalidade – entre os quais se contam os grandes Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva – sempre defenderam simultaneamente uma vocação ibérica do seu país. Tal como Saramago. Raramente as coisas têm só uma leitura, há que vencer a preguiça e ver as palavras que estão para além das palavras, o pensamento que está para além do óbvio.
Esta apresentação já vai longa e arrisco-me a ser criticada por intrometer-me em terrenos que mal conheço. Deixo-vos, por isso, um excerto do que encontrarão neste blogue, esperançada em que espicace a vossa curiosidade:
“Custa-me muito conceber como é que Portugal, sendo um país de marinheiros experimentados, acabou por perder o norte e soçobrar tão desoladamente…A não ser que o desnorte total em que vivemos faça parte de uma determinada estratégia, ou mesmo de um processo iniciático, em que a morte sirva de prova máxima.
Analisando bem todas as circunstâncias históricas, tenho para mim que foi esse o caso.”
Nota: Luís Vidal Lopes, autor do blogue, é o realizador do filme “Mensagem” (1988), feito à custa de teimosia, quase sem orçamento e com a “prata da casa” da família. A rodagem foi uma aventura delirante e inesquecível. A estreia do filme, no S. Luís, foi uma cena digna de registo: de um lado da plateia, os maiores estudiosos de Pessoa e do V Império em silêncio reverente, tomando notas e abanando a cabeça em sinal de aprovação ou desagrado. Do outro, a população em peso de uma vila ribatejana, que participou como figurante, aos gritinhos e gargalhadas incontidas ao ver-se no grande écran trajada a rigor de cavaleiro templário, conquistador das Índias, jesuíta, etc. Uma noite que não esquecerei por muitos anos que viva, e que daria a um bom humorista português matéria para muitos programas.

Muito bem, Ana.