Não há coincidências (11)


Ana Vidal,

 


All over the World (2009) – Pet Shop Boys

Já em 1987 – dois anos antes de lançarem Yes, o álbum a que pertence All over the World – os premiadíssimos Pet Shop Boys tinham sido acusados por Jonathan King de plagiar Wild World, de Cat Stevens, com a canção It’s a Sin. Pecado ou não, o certo é que inverteram a acção, a ganharam e, num golpe publicitário de mestre, ofereceram a choruda indemnização conquistada por danos de imagem a uma obra de caridade. Mas “uma vez bandido, sempre bandido”… e a verdade é que reincidiram dois anos depois com esta canção, omitindo descaradamente a presença óbvia de uma longa frase melódica de Tchaikovsky, sem sequer lhe mudar o ritmo. E logo a tão conhecida Marcha do Quebra-Nozes. Tennant/Lowe é a dupla a quem é atribuída a autoria de All over the World, mas ouçam bem a canção (especialmente a partir dos 2.25′)  e  comparem-na com o original. E tirem as vossas conclusões.

 



Marcha do Quebra-Nozes
– Tchaikovsky

 

A melodia original, aqui interpretada pela Orquestra de Câmara de S. João da Madeira, num concerto no Conservatório de Música do Porto (em honra da nossa comentadora Ana de Sá, que me sugeriu a “coincidência” de hoje).

A revelação mística


Ana Vidal,

 

Eu sei que chegámos todos ao limite, nervos em franja e bolsos desertos, pela frente um futuro negro a que só Sócrates – esse filósofo da vida cor-de-rosa – parece estar imune.

 

Eu sei que um inverno anormalmente longo, frio e molhado acabou de estoirar-nos as defesas mal habituadas, povo do Sul que somos no mais profundo de uma alma enganada até pela meteorologia, com vulcões explodindo em cinzas, marés de petróleo, tempestades e sismos sortidos. Que se lixe a Europa, de onde só nos vem o peso das responsabilidades, a humilhação das comparações e o bafio de uma História eivada de sangue e musgo, por contraste com o alegre apelo do mar que nos leva para baixo, sempre para baixo, em direcção ao sol e ao mistério dos berços ancestrais que nos embalaram.

 

Eu sei que todo o povo precisa de um ópio qualquer, seja lá ele qual for, para poder aguentar tudo isto e muito mais que nos espera ainda. E que a religião já não basta, nesta era atormentada por todas as dúvidas e todos os escândalos, consciências em ebulição e caminhos que se bifurcam infindavelmente em múltiplos sentidos, como diria o Borges. Não, a religião perdeu a liderança no ranking dos ópios de estimação. Hoje há o futebol, que abraçamos avidamente para nos mantermos entretidos, despertos, vibrantes. Vivos. O que pensaria disto Karl Marx?

 

Mas em tempos de crise profunda todos os ópios são poucos e em Portugal, país de prodígios inesperados, deu-se o milagre da fusão: surgiu um vitorioso Jesus, que parece ter descido directamente dos céus aos relvados. Se não, como se explica um insistente teaser a abrir telejornais, anunciando “O verdadeiro Jesus como você nunca o viu”? Fico curiosa com o que terá a dizer-nos este novo messias nacional, mas logo me dou conta do estado alarmante a que chegou a alienação geral. A principal promessa da “reportagem alargada” não me deixa dúvidas: “Jesus revelará à SIC, em primeira mão, quantas pastilhas elásticas mastiga em cada jogo”. Valha-nos Deus.

Não há coincidências (10)


Ana Vidal,


Russians
(1985)– Sting

 

Em 1985, Sting – não preciso de apresentá-lo, pois não? – lançou, pela primeira vez a solo, o álbum The Dream of the Blue Turtles. Depois do êxito dos Police, uma carreira a solo seria sempre um risco. Mas a qualidade musical de Sting e o excelente elenco de músicos da área do jazz que foi buscar para disco, garantiram que ele fosse muito bem aceite, tanto pela crítica como pelo público. A mim conquistou de vez, e eu nem era grande fã dos Police (com excepção de uma ou duas canções). Desde logo sobressairam deste primeiro álbum alguns hits: “If You Love Somebody Set Them Free”, “Fortress Around Your Heart”,”Love is the Seventh Wave” e Russians, a nossa canção de hoje. The Dream of the Blue Turtles deu a Sting, nesse ano, o Grammy de melhor álbum europeu. Seguiram-se outros enormes sucessos e um sem-fim de prémios, a partir daí. Por curiosidade, destaco o álbum da dupla platina imediata, Nothing Like the Sun – recheado de pérolas como “Fragile”, “Englishman in New York” e “We’ll Be Together”, por exemplo – que teve mais tarde a sequela latina Nada como el Sol (1988), uma selecção de canções em que Sting canta em espanhol e em português.

 

Mas voltemos a “Russians“: a canção fala-nos do equilíbrio instável da Guerra Fria e dos perigos da estratégia militar MAD (mutual assured destruction), defendendo que não há vitória possível numa guerra que faça uso de armas nucleares, entre duas potências capazes de destruir-se mutuamente. Na frase “I hope the russians love their children too” ecoa o grito de desespero de um dos lados da barricada, depositando nesse amor a única esperança de evitar um holocausto. A canção apoia-se, justamente, na obra (Lieutenant Kijé) de um compositor russo: Sergei Prokofiev. Sting admitiu-o desde logo e, segundo as minhas investigações (porque não tenho aqui o álbum para confirmá-lo), os créditos devidos são atribuídos ao compositor original. Sendo assim, não há plágio.

 

(Nota: Russians não é a única canção de Sting a utilizar uma melodia clássica. Há-de passar por aqui também “The Secret Marriage”, do álbum Nothing Like the Sun, que é a adaptação de uma melodia do compositor alemão Hanns Eisler)



Lieutenant Kijé Suite – Sergei Prokofiev


A melodia original, de Prokofiev.

Porque no se calla?


Ana Vidal,

 

Das notícias da noite:

 

Depois de uma peça mostrando uma inacreditável entrevista (dada ao jornal ABC) numa língua estranha que me lembrou de imediato o palhaço rico dos circos da minha infância, fiquei a saber que José Sócrates foi jantar com o rei de Espanha. Espero que o rei não tenha visto e ouvido o mesmo que nós, para bem do nosso infeliz primeiro ministro. É que Juan Carlos é conhecido pelo imediatismo do seu sentido de humor, e aposto que não resistiria a dizer ao convidado (desta vez com uma pancadinha amigável nas costas e um largo sorriso, certamente): Porque no te callas, Pepe?

Não há coincidências (9)


Ana Vidal,

I can (2002) – Nas


Nas, nome artístico de Nasir bin Olu Dara Jones, é um conhecido rapper americano. Em 1994, o seu ábum de estreia Illmatic foi considerado por muitos como um dos melhores ou mesmo o melhor álbum de hip hop de todos os tempos e valeu-lhe um lugar elevado nos rankings musicais, pelo  grau de exigência que imprime às suas criações. No ano de 2002 Nas lançou God’s Son, do qual se destaca a canção I Can, aqui apresentada. Desta vez não há lugar a críticas de plágio: o tema Für Elise aparece em fundo, intocado, a referência no álbum é explícita e pretende ser um tributo a Beethoven, como que a provar que todas as fusões musicais são possíveis. Fica a curiosidade.

 

 

Per Elisa (1981) – Alice

 

Alice (que ficou conhecida também como Per Elisa depois deste episódio) é o nome da cantora e autora italiana que ficou famosa por ter ganho em 1981 o festival de Sanremo com um rock “da pesada”, em vez das tradicionais baladas que sempre costumavam ficar em primeiro lugar. A canção chamava-se justamente Per Elisa e colou-se-lhe à pele, a ponto de Alice tê-la incluído em mais do que um dos seus álbuns posteriores e até de tê-la gravado com o simbólico nome “Una notte speciale”, em memória dessa noite de glória. Alice pode agradecer também a Beethoven pelo êxito que teve, porque Für Elise está presente nesta canção sem quaisquer dúvidas, até para os ouvidos mais abstrusos.  No entanto, apesar do título dizer já tudo sobre a “inspiração”, apesar da potente voz de contralto de Alice ter uma amplitude invejável (quase quatro oitavas, segundo apurei) graças a uma aprendizagem e técnicas do canto lírico, apesar de um dos co-autores referidos no álbum – Giusto Pio – ser um violinista clássico, a verdade é que no disco “Per Elisa” os créditos de autoria são atribuídos apenas a três nomes, sem outras referências: Alice, Franco Battiato e Giulio Pio. Não pode talvez considerar-se um plágio, mas não prima pela correcção. Talvez seja por isso que me irrita tanto.

 

 

Für Elise – Ludwig Van Beethoven

 

O tema original, de Ludwig Van Beethoven. Este é um daqueles casos em que uma melodia, por ser “orelhuda”, é tocada e aproveitada à exaustão ao longo dos tempos, chegando mesmo a tornar-se enjoativa até na versão original.

Rasgos (18)


Ana Vidal,

 

 

“O mágico fez um gesto e desapareceu a fome, fez outro e desapareceu a injustiça, fez um terceiro e desapareceram as guerras.

O político fez um gesto e desapareceu o mágico.”

 

(Woody Allen)

Presentes


Ana Vidal,

 

Num gesto simbólico, uma empresa portuguesa de congelados resolveu oferecer ao Papa uma caixa de… peixe: bacalhau, sardinhas, linguado, polvo. Estranhei não haver robalos, um presente tão apreciado em Portugal.

Milagre?


Ana Vidal,

 

Diz-nos o cada vez mais surpreendente ministro das Obras Públicas que, afinal, o TGV vai poder entrar em Lisboa pela ponte 25 de Abril. Espantoso. Todos os estudos que justificavam a construção de uma terceira ponte sobre o Tejo se apoiavam na total impossibilidade técnica desta solução. Das duas, uma: ou os estudos estavam enganados (ou viciados, uma hipótese que nunca deve ser ignorada neste país de plácidos favorecimentos), ou o TGV passará uma única vez pela ponte, numa chegada apoteótica a Lisboa que acabará numa igualmente estrondosa catástrofe.

 

Há, talvez, uma terceira hipótese: um milagre. Em época de visita papal, talvez Deus tenha tido a caridade de reforçar os carris existentes sem custos adicionais, condoendo-se do estado deplorável das nossas finanças.

Frases do ano (24)


Ana Vidal,

“Com certeza que os senhores, que há milénios prevêem tudo, têm um plano B se o Papa não puder chegar de avião.”

Mário Crespo no Jornal das 9 da SIC N, para D. Carlos de Azevedo, responsável pela organização da vinda de Bento XVI a Portugal

Consumatum est


Ana Vidal,

 

Contra tudo e contra (quase) todos lá foi adjudicada, hoje de manhã, a construção do primeiro troço do TGV. Coisa pouca, dirão os incautos, se comparada com todas as grandes obras públicas pelas quais se batia José Sócrates até há tão pouco tempo que o som mavioso da sua voz ainda ecoa nos nossos ouvidos. Obrigado, pela enorme pressão interna e externa, a um flic-flac encarpado ao melhor estilo olímpico, levou pelo menos a sua avante neste “pequeno” investimento. É uma questão de Teimosia à Grande Vitesse ou da costumeira arrogância que sempre o impermeabilizou a conselhos alheios e o impediu de dar o braço a torcer, até ao limite. O ministro António Mendonça vem justificar-nos a assinatura do contrato (com uma convicção que me pareceu um bocadinho duvidosa) reforçando a ideia de que o avanço do TGV é essencial para o progresso do país. Ou seja, o programa seguirá dentro de momentos, é mais do que certo: depois do troço Poceirão-Caia virá o resto, porque sem este imprescindível meio de transporte não poderemos sobreviver durante muito tempo. Segundo uma investigação feita há dois anos pelo Jornal de Negócios, seria preciso que todos os 8,3 milhões de portugueses que têm mais de 14 anos fossem a Madrid, para pagar os custos de operação do TGV que une as capitais ibéricas. O custo total foi orçado em 3,3 mil milhões de euros. O preço do bilhete? Uns míseros 100 €… o que é isso para um português médio? Numa época em que as companhias de aviação low cost quase oferecem as viagens Lisboa-Madrid, o estrondoso sucesso do TGV está garantido, como se adivinha pela premonitória imagem ali de cima. E como o TGV não será viável sem a terceira ponte sobre o Tejo (eu faria até mais quatro ou cinco, para ficarmos com uma espécie de Paris em versão lusa), esse novo “pequeno” investimento virá a seguir. E depois o novíssimo aeroporto, para compôr o ramalhete de um país próspero da grande Europa. E porque não, já agora, uma estação espacial portuguesa chamada, por exemplo, “A casa da Mariquinhas”? Viva o progresso.

Não há coincidências (8)


Ana Vidal,

 

 


Little Atoms (1996) – Elvis Costello


O curriculum musical de Elvis Costello é de tal maneira impressionante que ele já ganhou o epíteto de “enciclopédia da pop”. Colaborou ou fez parcerias com quase todos os grandes músicos seus contemporâneos, faz crítica musical e escreve sobre música em reputadas publicações, fez e desfez diversas bandas e é um músico de refência, respeitado pelos seus pares. Faz parte, inclusivamente, do ranking dos “100 grandes artistas de todos os tempos”, uma selecção da Rolling Stone Magazine. Sugiro que siga o link acima – vale a pena, garanto – quem quiser conhecer toda a extensão da obra de Declan Patrick MacManus, o verdadeiro nome de Elvis Costello. Como todos os músicos, sofreu diversas influências musicais, das quais faz questão de salientar Joni Mitchel, uma das suas grandes musas. Tem com a cantora Diana Krall um casamento que ambos classificam de feliz e duradouro. Mas… apesar de tudo isto,  também ele se deixou tentar pelo plágio não confessado. Aconteceu em 1996, na segunda canção do álbum “All this useless beauty”: Little Atoms. No disco está bem explícita a informação “All songs written by Elvis Costello (AKA Declan MacManus) unless otherwise indicated”. E não há qualquer indicação de outro autor na canção Little Atoms. Pode dizer-se, neste caso, que não foi nada inútil a beleza criada por Haydn…

 

 

 

 

Deutschland Uber Alles – Joseph Haydn

 

(Nota: a melodia aqui representada faz parte do Haydn’s Kaiser Quarteto, de Haydn, e foi transformada no hino nacional alemão.)

Um lugar no céu… em saldo


Ana Vidal,

 

EasyJet oferece viagem low cost ao Papa

“A easyJet poderá oferecer a Sua Santidade uma variedade de rotas desde Roma para vários aeroportos do Reino Unido e toda uma nova experiência de viagens de baixo custo”, pode ler-se no comunicado de imprensa transmitido pela operadora aérea, que sublinha ainda a possibilidade de o Papa fazer o seu check in online e a oferta de speedy boarding gratuito para que o representante máximo da igreja católica esteja entre os primeiros passageiros a entrar no avião e possa escolher o seu lugar.

“Estamos confiantes de que uma vez que tenha experimentado viajar na easyJet, Sua Santidade não voltará a optar por outras companhias”

 

Esta extraordinária notícia chega-nos do fascinante mundo da publicidade. Será que a easy Jet ainda não descobriu que o Vaticano não é propriamente “pobrezinho”, e que o lugar do Papa nos céus já está há muito tempo reservado, sem necessidade de speedy boarding?

Não há coincidências (7)


Ana Vidal,

 


Do, Re, Mi / The sound of music (1959) – Rodgers and Hammerstein

 

Não me batam. Eu sei que The Sound of Music é um dos filmes da infância ou da adolescência de quase todos nós e que, apesar das repetições ad nauseam de que somos vítimas todos os Natais, continuamos a comover-nos com a ingenuidade da história e a beleza das melodias. A canção  Do-Re-Mi é um desses mágicos momentos do filme, em que a maçadora aprendizagem do solfejo se transforma numa brincadeira divertida e contagiante e a cumplicidade se estabelece definitivamente entre Maria e as crianças. Do-Re-Mi acabou por ganhar vida própria e tornar-se numa das primeiras melodias ensinadas nas escolas de música, pela facilidade de memorização das sete notas da escala básica.

 

Nem a canção nem o filme precisam de apresentações, pelo que não vou alongar-me. E talvez a canção não seja um vulgar caso de plágio, já que me parece mais uma propositada e provocatória piscadela de olho ao compositor alemão. Ou até mesmo uma pequena vingança, se tivermos em conta o teor da história. Mas uma coisa é certa: a vertiginosa sequência melódica de Wagner dá o mote à canção, sem que haja lugar a grandes dúvidas. E, que eu tenha apurado, não há registo de “inspirações” reconhecidas. Fica a curiosidade.

 

 


Tannhauser Overture – Richard Wagner


Sou uma apaixonada pelas geniais aberturas e coros de Wagner (embora nunca tenho tido a paciência de ouvir as óperas completas, que são intermináveis) e esta é uma das minhas preferidas. Vale a pena ouvir estes sete minutos completos, pela sua beleza, ainda para mais quando a batuta é a do grande Karajan. Para quem não quiser ouvir tudo, peço a especial atenção para o intervalo de tempo que vai do minuto 07′:16 ao 07′:24 deste video. E depois digam-me o que acharam.

 

Obrigada à Gi pela preciosa dica de hoje.


Não há coincidências (6)


Ana Vidal,


Um contra o outro (2010) – Deolinda

 

Interrompo os clássicos para dar-vos conta de um episódio (recorrente em mim, como já aqui expliquei) que voltou a acontecer-me recentemente. Desta vez, num concerto do grupo Deolinda. Gostei de vê-los/ouvi-los ao vivo e percebi que o seu grande trunfo é a comunicação directa com o público. Não sendo o tipo de música que oiço em casa, reconheço que Ana Bacalhau tem uma fortíssima presença em palco e pôs toda a gente a cantar e a dançar. Mas… mal tinham arrancado os primeiros acordes desta canção (foi a primeira do alinhamento, se não me engano) e eu já estava a ouvir outra. Uma outra letra, em inglês, que nem sequer recordava bem, mas – diga-se em abono da verdade – com muito menos graça e qualidade do que a letra portuguesa. Para além de um sopro familiar de António Variações no refrão, havia uma melodia conhecida a buzinar-me ao ouvido, que atravessava toda a canção. Cheguei a casa e fui investigar, claro. Encontrei as Baccara e o seu Yes, sir, I can boogie. Estava explicado.

 

Acredito piamente que Pedro da Silva Martins, apresentado no novíssimo álbum dos Deolinda como autor de todas as letras e músicas, não tivesse feito de propósito. Há memórias que nos ficam escondidas num canto qualquer do subconsciente e se insinuam, feiticeiras, nas criações que acreditamos serem nossas. Com as melodias isso deve acontecer muito. Pero que las hay, las hay… e o single de estreia de “Dois Selos e um Carimbo”, Um contra o outro – cuja semelhança com uma canção anterior é mais subtil do que as que tenho aqui trazido – será talvez um bom exemplo disso. Ironicamente, começa assim a letra: “Anda/ Desliga o cabo/ Que liga a vida/ A esse jogo/ Joga comigo/ Um jogo novo/ Com duas vidas …”.

 

Ora bem, o que se passou comigo foi eu não ter conseguido desligar o cabo. Por isso fui parar à vida anterior deste “jogo com duas vidas”.

 

 

Yes, sir, I can boogie – Baccara

 

Esta canção, que foi um êxito estrondoso desde o primeiro momento – o mais significativo na carreira das Baccara, se não o único – teve inúmeros covers. O último conhecido data de 1977, num álbum de êxitos chamado Top of the Pops, Volume 62 , que usou a canção sem atribuir os créditos devidos aos músicos originais. O último? Não. O último, para mim, é o refrão de “Um contra o outro”, a canção dos Deolinda. Deixo ao vosso imperial polegar o julgamento da minha tese.

Honra – um conceito ultrapassado


Ana Vidal,

Recebi ontem, por mail, o texto que aqui partilho. É escrito na primeira pessoa e a história é comprovadamente verdadeira. Antes que me caia o mundo em cima, aqui fica também uma declaração de princípios: não, não sou saudosista, não suspiro por um novo Salazar nem a figura do próprio me foi alguma vez particularmente simpática. A conquista da democracia é para mim um valor inestimável e, espero, sem retorno. O que me parece importante destacar neste texto é a atitude de um país perante os seus compromissos, que mudou radicalmente em tão pouco tempo. Bem sei que as alterações de fundo na posição de Portugal perante o exterior são enormes desde então, que o facto de pertencermos a uma comunidade económica mudou definitivamente as regras do jogo e que deixámos de ter capacidade para tomar posições isoladas. Apesar dessa inevitável perda de autonomia, não hesito em afirmar: ainda bem que já não estamos “orgulhosamente sós”. Mas a verdade é que, pelo caminho, entre as muitas vantagens que ganhámos, alguns princípios fundamentais se perderam. Um deles, para mim o mais importante, é a “velha” noção de Honra. Como se constata pelas escandaleiras nacionais que nos invadem diariamente, em que até as instituições mais sagradas são postas em causa e perderam todo o prestígio, a Honra – tanto a nível particular como colectivo – transformou-se num conceito ultrapassado. Por isso deixo aqui este testemunho, que transcrevo na íntegra, memória de algum conforto nos dias lamacentos e ameaçadores que atravessamos.

 

«Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

 

O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada – dessa missão.

 

Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

 

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: “Pague já e exija recibo”. Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

 

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: – não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.

 

Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado – ao tempo Dean Rusk – teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. “Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall”; “Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam” e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

 

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por “Ordenações Felismínicas” as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: – “Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja”.

 

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

 

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

 

Estoril, 18 de Abril de 2010


Luís Soares de Oliveira»

 

(Nota: Descobri entretanto que este texto foi publicado em primeira mão neste blogue.)