Russians (1985)– Sting
Em 1985, Sting – não preciso de apresentá-lo, pois não? – lançou, pela primeira vez a solo, o álbum The Dream of the Blue Turtles. Depois do êxito dos Police, uma carreira a solo seria sempre um risco. Mas a qualidade musical de Sting e o excelente elenco de músicos da área do jazz que foi buscar para disco, garantiram que ele fosse muito bem aceite, tanto pela crítica como pelo público. A mim conquistou de vez, e eu nem era grande fã dos Police (com excepção de uma ou duas canções). Desde logo sobressairam deste primeiro álbum alguns hits: “If You Love Somebody Set Them Free”, “Fortress Around Your Heart”,”Love is the Seventh Wave” e Russians, a nossa canção de hoje. The Dream of the Blue Turtles deu a Sting, nesse ano, o Grammy de melhor álbum europeu. Seguiram-se outros enormes sucessos e um sem-fim de prémios, a partir daí. Por curiosidade, destaco o álbum da dupla platina imediata, Nothing Like the Sun – recheado de pérolas como “Fragile”, “Englishman in New York” e “We’ll Be Together”, por exemplo – que teve mais tarde a sequela latina Nada como el Sol (1988), uma selecção de canções em que Sting canta em espanhol e em português.
Mas voltemos a “Russians“: a canção fala-nos do equilíbrio instável da Guerra Fria e dos perigos da estratégia militar MAD (mutual assured destruction), defendendo que não há vitória possível numa guerra que faça uso de armas nucleares, entre duas potências capazes de destruir-se mutuamente. Na frase “I hope the russians love their children too” ecoa o grito de desespero de um dos lados da barricada, depositando nesse amor a única esperança de evitar um holocausto. A canção apoia-se, justamente, na obra (Lieutenant Kijé) de um compositor russo: Sergei Prokofiev. Sting admitiu-o desde logo e, segundo as minhas investigações (porque não tenho aqui o álbum para confirmá-lo), os créditos devidos são atribuídos ao compositor original. Sendo assim, não há plágio.
(Nota: Russians não é a única canção de Sting a utilizar uma melodia clássica. Há-de passar por aqui também “The Secret Marriage”, do álbum Nothing Like the Sun, que é a adaptação de uma melodia do compositor alemão Hanns Eisler)
Lieutenant Kijé Suite – Sergei Prokofiev

Duas excelentes melodias a enquadrarem um facto que desconhecia por completo. Bom trabalho, Ana.
Obrigada, Sérgio.
Já agora, acho que vale a pena deixar aqui a letra de “Russians”, porque ilustra bem essa época de grandes tensões em equilíbrio instável:
In Europe and America, there’s a growing feeling of hysteria
Conditioned to respond to all the threats
In the rhetorical speeches of the Soviets
Mr. Krushchev said “we will bury you”
I don’t subscribe to this point of view
It would be such an ignorant thing to do
If the Russians love their children too
How can I save my little boy from Oppenheimer’s deadly toy
There is no monopoly in common sense
On either side of the political fence
We share the same biology
Regardless of ideology
Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too
There is no historical precedent
To put the words in the mouth of the President
There’s no such thing as a winnable war
It’s a lie that we don’t believe anymore
Mr. Reagan says “we will protect you”
I don’t subscribe to this point of view
Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too
We share the same biology
Regardless of ideology
What might save us, me, and you
Is if the Russians love their children too
Eis um não-plágio que valeu a pena, Ana. Não me recordo da outra canção, “The Secret Marriage”, mas hei-de investigar.
Vou trazê-la também aqui, Paulo. É uma adaptação de uma música de Eisler com letra de Bertolt Brecht, nada menos. E eu acho que resultou muito bem.
As coisas que ando a aprender aqui contigo! Desde que seja assumida a fonte de inspiração, não há problema, claro. Nem outra coisa era de esperar de Sting. Com tanto talento não precisa de roubar nada a ninguém. Eu sou fã.
Também sou fã de Sting, Teresa. Além de óptimo músico, tem feito um excelente e generoso trabalho de divulgação da música de vários países (incluídos na chamada World Music), através de parcerias com várias vozes que ele procura e escolhe criteriosamente. Foi o caso do argelino Cheb Mami (Desert rose) e até da nossa Mariza (A thousand years).
Reafirmo: excelente série, Ana. Uma das melhores da nossa blogosfera, desde sempre.
Obrigada, Pedro. Exagero teu, mas estou a gostar de fazê-la.
Sempre achei que Russians tinha qualquer coisa de especial, mas não sabia o quê. Agora já sei.
É uma canção especial, sim, Ariel. Dramática e comovente, não é?
Não sabia, muito bem achado, Ana!
Outro não-plágio, que deixo por sugestão (penso ainda não te ocupaste dele nesta grande série), é mais conhecido mas não menos interessante: a relação entre o “Summertime” de Gershwin e o “Verdes Anos”, de Carlos Paredes.
Ora aí está uma excelente sugestão! Dessa relação não sei nada, mas promete… vou investigar, claro. São duas melodias fortíssimas.
Obrigada, Ana.
Sim, no álbum de Sting consta o crédito a Prokofiev, logo abaixo da letra ou do título da canção (esse detalhe já não lembro). Foi graças a isso que acabei procurando e conhecendo a Suite Lieutenant Kijé.
Ótimo post.