Eu sei que chegámos todos ao limite, nervos em franja e bolsos desertos, pela frente um futuro negro a que só Sócrates – esse filósofo da vida cor-de-rosa – parece estar imune.
Eu sei que um inverno anormalmente longo, frio e molhado acabou de estoirar-nos as defesas mal habituadas, povo do Sul que somos no mais profundo de uma alma enganada até pela meteorologia, com vulcões explodindo em cinzas, marés de petróleo, tempestades e sismos sortidos. Que se lixe a Europa, de onde só nos vem o peso das responsabilidades, a humilhação das comparações e o bafio de uma História eivada de sangue e musgo, por contraste com o alegre apelo do mar que nos leva para baixo, sempre para baixo, em direcção ao sol e ao mistério dos berços ancestrais que nos embalaram.
Eu sei que todo o povo precisa de um ópio qualquer, seja lá ele qual for, para poder aguentar tudo isto e muito mais que nos espera ainda. E que a religião já não basta, nesta era atormentada por todas as dúvidas e todos os escândalos, consciências em ebulição e caminhos que se bifurcam infindavelmente em múltiplos sentidos, como diria o Borges. Não, a religião perdeu a liderança no ranking dos ópios de estimação. Hoje há o futebol, que abraçamos avidamente para nos mantermos entretidos, despertos, vibrantes. Vivos. O que pensaria disto Karl Marx?
Mas em tempos de crise profunda todos os ópios são poucos e em Portugal, país de prodígios inesperados, deu-se o milagre da fusão: surgiu um vitorioso Jesus, que parece ter descido directamente dos céus aos relvados. Se não, como se explica um insistente teaser a abrir telejornais, anunciando “O verdadeiro Jesus como você nunca o viu”? Fico curiosa com o que terá a dizer-nos este novo messias nacional, mas logo me dou conta do estado alarmante a que chegou a alienação geral. A principal promessa da “reportagem alargada” não me deixa dúvidas: “Jesus revelará à SIC, em primeira mão, quantas pastilhas elásticas mastiga em cada jogo”. Valha-nos Deus.


Não te entendo. Tu própria demonstras ter percebido a essência da coisa, quando referes os «caminhos que se bifurcam infindavelmente em múltiplos sentidos», como diria o David Borges…
LOL. O David Borges é mais bolos… perdão, golos.
:o)
Ana Vidal
Olá, sou o tal
O do mau-feitio e invejoso, lembra-se?
A propósito de ter dito “Hoje há o futebol, que abraçamos avidamente para nos mantermos entretidos, despertos, vibrantes. Vivos. O que pensaria disto Karl Marx”
Quero-lhe dizer que Karl Marx ficaria contrariado e feliz :
– Contrariado pelo facto de o povo português ter alargado a sua toxicodependência , passando de uma a três drogas (os já nossos conhecidos 3Fs ) e nem o facto de a Marisa abrir o RinR em tom roqueiro, retira a importância crescente ao nosso fado;
– Felíz por constactar que continuamos a ser um povo marchista, desfilaremos pela Av da Liberdade com as cores, os arquinhos e balões e as cantigas que nos enchem de alegria a todos nós mouros, mouros mouros e mourinhos…
Mau-feitio e invejoso? Desculpe, Rogério, não me lembro disso. Mas se a essas características pouco recomendáveis acrescenta qualidades mediúnicas que lhe permitem falar com Marx e saber o que ele pensa, fico curiosa. Lembre-me lá dessa conversa, ok?
E sabe que mais? Não tenho a certeza de ser assim tão garantido que Marx não gostasse de fado. Já de rock, tenho sérias dúvidas…
Excelente, Ana. Andamos muito místicos.
Muito, Leonor. E hoje tivemos outra revelação do nosso messias: anunciou que não sabe fazer um ovo estrelado. E eu que pensava que as estrelas eram a especialidade dele…
Tdos os povos precisam de um ópio. Não tem é que ser um qualquer, caramba!
(Só as tostas deixaram de ser místicas).
Hummm… se o ópio fosse esverdeado ficavas mais contente, aposto. Mas tens azar… esqueceste que o ópio é feito de papoilas? Saltitantes, no caso.
😉
Se Deus já foi ministro e Espírito Santo banqueiro, bem fica haver um Jesus treinador. Mas não haverá ninguém que lhe diga que a pastilha não se deve mascar com a boca escancarada, tipo caverna do Ali Babá?
Tens razão, não há quem lhe faça essa caridade cristã. Mas também, quem se atreveria a dar lições a Jesus?
E estás a esquecer-te de que até tivemos um Judas autarca, para completar o elenco bíblico.
🙂