O populista contra o sistema


Luís Naves,

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A insurreição populista de esquerda, protagonizada na América por Bernie Sanders, deverá acabar já nos próximos dias, com a provável derrota na Carolina de Sul, onde o candidato socialista não consegue seduzir o eleitorado negro, e logo a seguir na super-terça-feira da próxima semana, quando votarem os estados de maior dimensão, sobretudo do sul dos EUA, onde terá vantagem a máquina política de Hillary Clinton. Se no campo democrata as sondagens permitem prever a vitória de uma facção tradicional, a agenda populista parece ter conquistado o Partido Republicano: há três candidatos ainda com hipóteses, mas um deles já se destaca, o milionário Donald Trump. Veremos na próxima semana com maior clareza, mas tudo indica que só um erro crasso o separa da nomeação pelo seu partido.

Assim, a eleição de Novembro será entre um populista radical e uma das figuras mais destacadas do establishment político americano, do sistema, o que promete criar um debate entre demagogia e conteúdo, entre seriedade e delírio, entre oligarquia e interesse nacional. Será uma campanha complicada, recheada de discussões absurdas em torno de pequenos assuntos domésticos transformados em escândalos de proporções bíblicas. As derivas imprevisíveis de Trump podem até criar, nas semanas finais, um cenário de implosão da sua candidatura.

Do ponto de vista europeu, será a votação de todos os perigos. A vitória de Hillary Clinton significa uma América forte, capaz de intervir no exterior e de defender os seus aliados. A vitória de Donald Trump seria um salto no escuro, representaria uma América isolacionista, quezilenta e em plena decadência, perfeitamente capaz de lançar acções desastrosas. Teríamos uma América liderada por um lunático, tomada pelo dinheiro, paralisada pela falta de visão, a pensar exclusivamente a curto prazo, enfim, sem inclinação para liderar o mundo.

Equívocos sobre o Brexit


Luís Naves,

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O referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia promete ser um evento dramático e perigoso. Da luta pela liderança no Partido Conservador pode resultar uma crise política interna. Por isso, vamos ouvir argumentos tontos, emotivos, parciais e demagógicos, mas o grande risco é que a campanha se transforme numa simplificação exagerada da complexa relação entre o Reino Unido e a União Europeia, levando o eleitorado britânico, geralmente lúcido, a dar um improvável tiro no pé.

O Brexit é uma perspectiva de pesadelo que introduz incertezas económicas para o Reino Unido e que teria um impacto devastador na economia europeia. Fora da UE, o Reino Unido teria menos comércio externo, uma moeda mais fraca, uma praça financeira mais irrelevante, e seria uma potência mundial de segunda classe. Os defensores da saída usam argumentos vagos e dizem que o Reino Unido pode permanecer no mercado único (ninguém será tão louco para dizer que isso não interessa), mas a ideia não passa de uma ilusão, pois Londres teria de aceitar a legislação comunitária sem participar na sua definição, situação bem pior do que a existente. A alternativa, não aceitar a legislação da UE, equivale a dizer que se está fora do mercado único.

Em caso de Brexit, a Escócia aproveitava para sair do Reino Unido e Londres teria de negociar uma rede de novos tratados comerciais com dezenas de países, dos quais beneficia por pertencer à UE. As complicações legais seriam assombrosas, por exemplo, para os dois milhões de britânicos que vivem em países da União Europeia e cujos interesses não podiam ser negociados caso a caso. Concluindo um tratado de saída, o Reino Unido poderia dispensar políticas comuns, por exemplo, na agricultura ou pescas, evitando legislação de segurança, ou social, ambiental, de energia, mas a negociação tem tudo para correr mal, pois esse eventual tratado exigiria a unanimidade dos 27 países que se mantinham na UE. O exemplo da Islândia, Noruega ou Suíça deveria fazer pensar os defensores da saída: estes países têm de aceitar legislação comunitária que não negoceiam, mas o seu estatuto só existe por serem pequenos, além de que manter a relação actual será cada vez mais difícil, devido ao tempo que demora a transposição das directivas e à irritação que isto causa em Bruxelas.

A luta pela flexibilidade


Luís Naves,

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A União Europeia mudou ontem de forma fundamental. Na prática, o Reino Unido garantiu o direito de não avançar com certas políticas comunitárias sem negociar contrapartidas. O primeiro-ministro David Cameron referiu-se a um “estatuto especial” para o seu país, mas já existia no jargão europeu um termo para designar o que acabou por ser adoptado: Europa à la carte.

É cedo para avaliar todos os efeitos, mas é natural que a UE se transforme gradualmente numa organização mais complexa, a várias velocidades, contendo Estados que avançam depressa na integração e outros países que preferem maiores cautelas, escolhendo as políticas mais convenientes. Com a passagem do tempo, as periferias vão afastar-se do centro, também porque o centro tem agora a liberdade de avançar mais depressa.

Para já, a Europa evitou um processo traumático de fragmentação, mas o federalismo não se aplicará a todos, o que permite lento reaparecimento das antigas rivalidades nacionais. Cameron vai agora lutar pelo “sim” no referendo sobre a manutenção do Reino Unido na UE. Será uma luta difícil, pode ainda ocorrer o Brexit (a saída do Reino Unido), mas isso é menos provável. No fundo, não existe agora nenhuma razão objectiva para os britânicos votarem a favor da saída, pois Cameron obteve cedências improváveis, desmentindo os que sempre o subestimaram, desmentindo também aqueles que afirmam não haver líderes europeus à altura dos problemas.

A União Europeia está ainda mergulhada numa situação pantanosa, com várias frentes de crise, sobretudo a financeira e das migrações, que ameaçam estilhaçar a organização. Não dispondo de uma política comum de asilo, fronteiras e de imigração, a Europa precisa de responder a uma crise humanitária sem precedentes, não podendo abandonar à sua sorte milhões de pessoas que fogem da guerra da Síria, mas também não podendo deixar que os traficantes controlem o processo. Sem condições para acolher de uma vez quatro milhões de refugiados, os europeus precisam de encontrar um meio-termo que lhes permita reduzir a crise humanitária sem dar demasiados argumentos aos partidos populistas que estão a fazer do assunto uma bandeira.

O telegrama judeu


Luís Naves,

Num artigo do New York Times sobre as tensões internas da UE, nomeadamente entre países de leste e ocidentais, era citada a história do telegrama judeu, anedota divertida, que se resume a isto: “Começa a preocupar-te, pormenores seguem mais tarde”.

Não reencontrei o artigo (pouco importa, não era interessante), mas julgo que a ideia da frase se aplica de forma perfeita à actualidade. Sentimos que se prepara alguma coisa má, mas não sabemos exactamente o quê. Os mercados andam nervosos e os economistas explicam esse nervosismo como algo um pouco no ar, que tem a ver com preços de petróleo, instabilidade dos bancos, lucros em queda, abrandamento na China, dívidas monstruosas, pequenos pânicos bolsistas.

Começa a preocupar-te, os detalhes seguem depois, aplica-se muito bem à situação geral, sobretudo nos países avançados, onde alastra um descontentamento difuso. Os eleitores estão furiosos com os efeitos de uma crise interminável, mas sobretudo com a impotência das elites e a arrogância dos intelectuais, a língua de pau dos burocratas e a indiferença dos poderosos. As classes altas instalaram-se numa torre de marfim e o homem da rua perdeu a sensação de mobilidade social. Aprofundam-se as desigualdades, mas o poder nunca defendeu tanto a igualdade a todo o custo.

Esta ansiedade junta-se à opinião, cada vez mais espalhada, de que os pequenos não contam (proprietários, lojistas, empresas, países) e que só a dimensão garante influência. Os mais líricos dizem que não há partidos à sua imagem, como se houvesse um partido para cada um de nós ou alguém impedisse a formação de novos partidos. Estas tiradas demagógicas apenas abrem o caminho ao corolário de não valer a pena participar, que cada voto não conta, que o homem simples não risca nada. É isso que anuncia o telegrama judeu: a história mal contada conduz a medos imprecisos e, mais tarde, ao receio cínico de fazer alguma coisa contra os pormenores que não tardam.

Paradoxo americano


Luís Naves,

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A rebelião populista que alastra um pouco por todas as democracias avançadas contém um paradoxo: os eleitores estão descontentes com a impotência dos políticos, mas recusam qualquer proposta que lhes pareça demasiado ligada à capacidade de intervir.

Os políticos contemporâneos são incapazes de resolver os problemas causados pela crise financeira, de aumento das desigualdades, estratificação da sociedade, crescente rigidez na disposição das classes sociais. Eles parecem alheados dos problemas quotidianos dos eleitores, da fragilidade no emprego, endividamento e aparente empobrecimento, tensão na ordem urbana, percepção do crime, sensação geral de instabilidade.

De forma contraditória, os eleitorados são sensíveis à aparência de força e rejeitam todas as propostas associadas à capacidade de decisão. Veja-se a insurreição eleitoral nos EUA, onde Hillary Clinton é acusada de ser a personificação do poder, havendo forte desconfiança em relação à sua óbvia capacidade de agir. As sondagens indicam que na super terça-feira, 1 de Março, a candidata vai ter um bom resultado em vários estados de certa dimensão, mas Hillary não se livra de um susto, pois o argumento do anti-sistema convenceu numerosos eleitores, sobretudo independentes e brancos. Agora, com a votação étnica e de democratas pobres, Hillary deverá vencer folgadamente em estados  do sul, como Geórgia, Texas, Virgínia, correndo depois para uma nomeação mais folgada.

Do outro lado estará com toda a probabilidade um candidato populista, talvez Donald Trump, milionário com fama de neurótico. A eleição do nomeado republicano está difícil e a direita americana parece ter mergulhado no mesmo paradoxo: queremos alguém exterior ao sistema, que diga coisas simples e tenha pouca força, mas que ao mesmo tempo seja capaz de resolver todos os problemas.

É uma escolha estranha, mas devemos habituar-nos: a política americana antecipa a nossa.

A rebelião


Luís Naves,

Os comentadores descobriram de repente que há uma insurreição populista na Europa e na América, mas uma coisa é medir a febre, outra coisa é tentar perceber a que se devem os sintomas. Hoje, na rádio pública, alguém comparava a crise dos refugiados com a Alemanha nazi, mas estas tolices, que desvalorizam os males do passado e iludem de forma hipócrita o esforço de alguns países, tornaram-se banais no comentário.

Por toda a parte vemos isto: os eleitores recusam a política tradicional, os arranjinhos do costume, as decisões dos burocratas, os pequenos comités instalados. O populismo é apenas o aproveitamento do descontentamento geral, no fundo trata-se de aproximar o discurso das necessidades das pessoas e dos seus problemas. A comunicação social abdicou desta função e vai perdendo a confiança da opinião pública. Claro que devemos perguntar o que provocará a rebelião anti-elitista na Europa ou na América, mas devemos também perguntar de onde vem o descontentamento que alimenta os partidos ou candidatos da contestação ao sistema.

A resposta é complexa, mas o descontentamento é natural para quem encontra trabalho mais mal pago do que aquele que existia antes; é natural para quem viu os grandes génios da gestão a estoirarem bancos e empresas sólidas, ao mesmo tempo que ganhavam milhões em bónus por efectuarem despedimentos em massa; é natural para quem empobreceu e não se adaptou às novas tecnologias; para quem perdeu empregos que foram para a China; para quem perdeu a casa e para quem vive hoje em bairros degradados, marcados pelos choques culturais da imigração que ameaça a identidade. O descontentamento é natural quando o eleitorado percebe que os políticos têm cada vez menos espaço para agir. Muitos europeus e americanos sentem uma ansiedade profunda em relação ao seu futuro económico, por causa do aumento das desigualdades, mas não apenas por isso, por ouvirem da parte dos políticos as mesmas banalidades de sempre, por ouvirem dos intelectuais as análises do costume, que culpam os eleitores por escolhas “erradas”, sem respeito pela vontade do povo.

Os europeus desta lenda são agora xenófobos sem coração, que desconfiam dos migrantes e recusam aceitar muçulmanos nas suas ruas, ou são reaccionários que criticam os óbvios benefícios do progresso ou da bondade daquilo que é decidido pelas burocracias supranacionais que ninguém elegeu. Segundo a lenda dominante, os europeus são perigosos nacionalistas agarrados aos fantasmas de impérios perdidos, recusam-se a assumir as culpas evidentes do homem branco e sobretudo votam mal, votam estupidamente, abandonam os partidos tradicionais e cedem ao canto da sereia do simplismo. O sistema parece ter entrado numa crise que não é exactamente uma ameaça à democracia, essa crise só existe por vivermos em democracia.

Primárias americanas


Luís Naves,

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Começa amanhã no irrelevante estado do Iowa o ciclo frenético das primárias americanas, cujo momento decisivo (pelo menos no caso dos democratas) deverá ocorrer no início de Março, na chamada super-terça-feira. No Verão, haverá convenções partidárias e a votação presidencial realiza-se em Novembro.

As sondagens indicam que, do lado republicano, o milionário Donald Trump tem vantagem, só não se sabe quais serão os rivais capazes de aguentar até Abril ou de dar luta até à convenção (talvez Marco Rubio ou Ted Cruz). Do lado democrata, apesar da subida do esquerdista Bernie Sanders, a eleição parece ao alcance de Hillary Clinton. Mesmo que sofra contratempos no Iowa ou em New Hampshire, Hillary tem vantagem nos estados do Sul que votam na super-terça-feira e já garantiu a maioria dos delegados institucionais do partido.

As eleições americanas baseiam-se num mecanismo arcaico do século XIX que convive mal com a sociedade mediatizada do século XXI. Este paradoxo favorece um sistema oligárquico, dependente de quantidades impressionantes de dinheiro, e produz campanhas que afunilam os temas, discutidos com extrema demagogia. A política americana está a tornar-se mais populista e virada para dentro, incapaz de ter um olhar sobre o mundo. Os candidatos precisam de ter cuidado com temas tóxicos (imigração, armas, aborto) e nunca perdem tempo com assuntos complexos, que não interessem à televisão.

A América é um império relutante, que ao longo da sua História manteve políticas de isolamento, sobretudo após intervenções externas. Na pré-campanha, Trump já radicalizou o partido republicano, que parece aderir a um isolacionismo patológico. Do lado democrata, a favorita Hillary Clinton foi chefe da diplomacia americana, mas aí está também a sua vulnerabilidade. Com a política externa submetida a discussões de política interna, a América tenderá a desinteressar-se pelos conflitos mundiais, o que implicará eventual abandono de aliados, acções a meio-gás, paralisação institucional, hesitação ou até incapacidade de agir.

A criança problemática


Luís Naves,

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Os defensores da frente de esquerda subestimam as dificuldades da sua estratégia populista. O Governo parece cercado por duas opções incompatíveis: continua a consolidação orçamental ou perde a confiança dos mercados. Dito de outra forma: o País cai em crise política ou as taxas de juro sobem. A questão não está apenas nas exigências de Bruxelas, que teme os efeitos da súbita perda de credibilidade portuguesa, mas na percepção dos investidores e na ilusão de que será possível convencer os credores de que esta é uma luta entre bem e mal.

O Governo ignora os sinais da realidade. O problema das migrações transformou-se na crise mais séria da última década na Europa. Um grupo de países de Leste (com os mesmos votos que a França) uniu-se em rebelião contra os poderes da Alemanha, e talvez mais do que isso. A banca italiana pode necessitar de um resgate gigantesco. A UE entrou numa difícil negociação sobre reformas internas, visando manter o Reino Unido nas instituições; sem mudanças profundas, algumas difíceis de concretizar, os ingleses poderão abandonar a organização.

Estas negociações decorrem num ambiente inquinado pela ascensão dos populistas de direita. A Frente Nacional, em França, ultrapassou um patamar eleitoral que ameaça o regime da Quinta República; outro partido, Alternativa para a Alemanha, conquistou parte do eleitorado da CDU da chanceler Angela Merkel; o governo minoritário dinamarquês (liberal) terá de aplicar uma lei injusta que confisca os refugiados, demonstrando que os populistas de direita (Partido do Povo, DF), fora do governo, mexem todos os cordelinhos; o fenómeno do crescimento de formações que contestam o sistema tradicional estende-se ainda à Suécia, Finlândia e Holanda. Todos estes países receberam multidões de refugiados, pelo que parece pura hipocrisia o tom das críticas em Portugal. E como se resolve isto? Suspende-se a democracia? Entretanto, a zona euro não estabiliza e a Espanha entrou numa crise política que talvez só tenha solução em Maio.

Nem é preciso alargar o palco para se perceber que 2016 será um ano de instabilidade. Ao contrário do que escrevi, o populista Donald Trump tem mesmo hipóteses de ser nomeado candidato republicano às eleições presidenciais americanas de Novembro de 2016. Esse pesadelo não é impossível, nem sequer improvável. Para piorar os cenários, o petróleo barato pode não durar muito tempo, sobretudo se tiverem êxito as tentativas russas de negociar cortes na produção; a alternativa é o inevitável estoiro de economias emergentes, o que pode provocar uma nova vaga na crise financeira mundial.

Talvez António Costa acredite ser possível passar entre as gotas desta chuva torrencial, mas parece insensato apostar em travessia tão arriscada. Convinha ter prudência, pois com tantos problemas entre mãos, os nossos credores tentarão matar à nascença qualquer veleidade de insubordinação da “criança problemática”.

Expulsões


Luís Naves,

Na crise migratória europeia não há apenas refugiados. Alguns comentadores resistiram ao uso da palavra ‘migrantes’, dizendo que tinha carga ideológica. São refugiados, dizia-se, por isso deve ser usada apenas essa palavra. Ontem, a Suécia decidiu expulsar 60 mil a 80 mil migrantes, tendo rejeitado quase metade dos pedidos de asilo recebidos em 2015, e algumas notícias mostram que entre nós o fenómeno não é compreendido, escrevendo-se por exemplo que estão a ser expulsos refugiados, algo que seria crime. A Suécia não deixou de cumprir as leis internacionais e expulsa pessoas que não têm direito a asilo, com origem em países que não estão em guerra.

A opinião pública portuguesa foi submetida a uma versão da crise migratória que torna difícil assimilar alguns dos problemas criados. A proporção de refugiados é metade do total de pessoas que entraram nas fronteiras europeias e a expatriação dos migrantes que não têm direito a asilo terá custos adicionais. A crise migratória coloca questões de segurança e ameaça alterar a própria identidade europeia, tendo criado graves divisões, com um grupo de países de leste a recusar a ideia de uma política comum de imigração e asilo. Neste momento, está em perigo o próprio espaço de livre circulação de Schengen, que permite uma das liberdades essenciais na União Europeia, mas a animosidade entre governos pode já ter ultrapassado o ponto de não retorno. O número elevado de migrantes e refugiados provocou reacções de descontentamento em países como Alemanha, Dinamarca ou Suécia, o que beneficia partidos populistas que exigem limites. Entretanto, apesar do Inverno, os números continuam a crescer.

Em 2015, a Europa recebeu mais de 1 milhão de pessoas, que têm de ser alojadas, alimentadas e integradas na sociedade. Este é o problema político mais grave que a Europa enfrentou nos últimos dez anos, mas em Portugal pairam as teses politicamente correctas, sobretudo a ideia simplista de que a Europa está a falhar por falta de generosidade, quando ocorre o caso inverso, ela parece incapaz de enfrentar esta quantidade de refugiados, para mais havendo a perspectiva de multidões que se podem pôr em movimento (2 a 3 milhões de refugiados sírios na Turquia) e a dificuldade em integrar altas percentagens de gente com uma cultura distinta. É evidente que a Suécia não pode receber em cada ano 150 mil pessoas (1,5% da sua população) e a rejeição dos migrantes económicos era uma mera questão de tempo.

A quarta vaga


Luís Naves,

As pessoas informadas costumam deitar um olhar mais lúcido sobre o presente e este ano os peritos reunidos em Davos estão mais pessimistas do que é costume. A economia vai correr mal, diz a maioria, embora sem consenso nos motivos, o que nos leva a admitir que talvez no final haja um conjunto de factores a confirmar a profecia. Alguns destes peritos estão a dizer que o mundo atravessa já uma quarta globalização, envolvendo novas tecnologias de informação que estão ainda a nascer nos laboratórios.

Isto está além da minha compreensão, mas penso que é possível concluir o seguinte: a civilização digital e a robotização avançam em grande ritmo, a humanidade tem hoje tecnologia que lhe permite modificar a própria espécie humana, milhões de empregos vão ser substituídos por algoritmos e robôs. Além disso, a vantagem dos países ricos em relação aos pobres atingiu um grau que não se via desde meados do século XIX, quando os grandes impérios europeus começaram a dominar todo o planeta, levando as suas instituições e a sua medicina a povos que consideravam primitivos.

Como explicar então a ansiedade dos peritos em relação ao futuro imediato? Provavelmente, os novos avanços estão a criar rupturas económicas em larga escala e o fosso entre países causa uma vaga migratória sem precedentes. O mundo entrou em fluxo, em movimento rápido, e muito do que vemos na política contemporânea corresponde ao aparecimento de bolhas de resistência, de conchas duras onde se resguardam grupos de perdedores, de interesses instalados, línguas em perigo, culturas minoritárias, sociedades inteiras, facções religiosas. Há mundos em extinção que resistem e as bolsas de desobediência são apenas um estorvo temporário, que os grandes poderes financeiros da globalização gostariam de afastar do seu caminho.

O mundo novo


Luís Naves,

As notícias deviam preocupar a classe política, mas julgo que a retórica vazia vai continuar mais ou menos na mesma. A economia mundial está em situação péssima e acumulam-se sinais de que a crise não acabou. Segundo a Oxfam, um grupo de apenas 62 pessoas tem rendimento semelhante a metade da riqueza mundial (em 2010, o número era de 338). Uma tal acumulação, acompanhada do empobrecimento efectivo de parte da população mundial, terá necessariamente consequências políticas, por exemplo, tornam-se mais aliciantes todas as críticas ao processo de globalização. O facto é que os economistas já não conseguem explicar muito bem as razões da estagnação geral, como não conseguem explicar o nervosismo dos mercados, o petróleo barato, a falta de crédito, os problemas do sistema financeiro, as dificuldades da China e a irritação da classe média.

Em ambientes voláteis e de pânico, quem se põe a jeito torna-se alvo fácil e Portugal pode já estar a pagar a factura pelos sinais que enviou para o exterior de querer acabar com a estratégia de credibilidade e prudência que nos foi imposta durante o ajustamento. Vem aí uma nova vaga de colapsos financeiros e, com a crise migratória, a Europa entrou numa divisão interna, entre leste e ocidente, que pode ser pior do que o anterior conflito das dívidas soberanas (que, aliás, não está resolvido). O contexto em que Portugal se move ainda piora se tivermos em conta que a Espanha parece ingovernável. A nossa dependência é demasiado grande para nos tranquilizarem as cenas de delírio dos vizinhos. Em El-Rei Junot, um livro brutal sobre o falhanço das nossa elites, Raul Brandão escrevia que “a realidade é a força imensa que engendra o mundo novo”. Esta não era uma referência ao mundo novo das utopias lunares ou dos tempos imaginários de candidatos presidenciais cheios de palavreado obeso, era o mundo novo concreto em que teremos de viver e que pede juízo a quem decide.

Três faces do poder


Luís Naves,

Existe uma ligação íntima entre cultura, economia e política. As três esferas parecem independentes, mas são faces do mesmo poder. A cultura oficial tem hoje sobretudo uma expressão mediática; os intelectuais dependem inteiramente da visibilidade e esta é concedida apenas às visões conformistas do mundo. Quem se move na política e na economia tem de saber usar uma linguagem codificada e empobrecida que, sem nunca dizer o que deve, não tolera desvios. Se quiserem ter carreira, os políticos precisam de compreender as regras do compromisso, os negócios dependem por seu lado das necessidades da política e o êxito cultural da obediência ao princípio da massa crítica, ou seja, da popularidade máxima. A aparência domina o poder contemporâneo, triunfa a percepção visual e a superfície da pele, o que de alguma forma deve explicar a mediocridade que nos rodeia.

A próxima ruptura europeia


Luís Naves,

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As crises europeias quase parecem provocadas por um desejo de mudar, ignorando tratados e reduzindo a actual complexidade. Não é segredo que muitos dirigentes comunitários desejam que os ingleses saiam, que os ‘irresponsáveis’ do sul saiam e que o alargamento seja revertido. É uma visão trágica, mas os países do Sul têm sido tratados com desprezo, os de Leste com uma inaturável condescendência e os ingleses, esses, diz-se que continuam ao serviço da América.

O texto cuja leitura proponho é extenso, está em duas partes, infelizmente apenas em inglês, mas convém fazer a sua leitura, para se perceber o grau de frustração que se instalou nos chamados países de Leste, onde a atitude em relação à Alemanha começa a ser um desalentado ‘eles arrastam-nos estupidamente para os maiores sarilhos e depois abandonam-nos na latrina’. Aqui está a primeira parte e aqui está a segunda parte. A historiadora Maria Schmidt é pró-Fidesz e, portanto, próxima do líder húngaro, Viktor Orbán. Não recomendo a leitura a alminhas sensíveis, mas o texto é um vislumbre raro daquilo que pensam os intelectuais de uma corrente que tem tido escassas oportunidades para se manifestar.

Do ponto de vista ocidental, sendo impossível ‘disciplinar’ estes países, o melhor caminho será o da ruptura. Nos meios de comunicação, a história unilateral está a ser contada segundo um guião previsível: de um lado, há governos autoritários de extrema-direita e, do outro, os que defendem a concórdia no mundo. Países como Hungria e Polónia estão a ser diabolizados sem perdão, acusados de derivas neo-fascistas e ultra-nacionalistas, de atropelos imaginários e muros ilegais. O arrastão mediático é evidente e todos os argumentos servem, dos delírios de aproximação a Moscovo às invenções anti-semitas. Nestas interpretações ignoram-se as centenas de ataques que se registaram em países ocidentais contra os refugiados (mostrando que a integração dentes será difícil), ignora-se que a crise migratória foi uma imposição alemã aos seus vizinhos, que os tratados não incluem decisões colectivas sobre políticas de imigração, ignora-se ainda que o governo húngaro recusou obedecer a um programa de ajustamento do FMI e mandou a factura da crise aos bancos (sobretudo austríacos e alemães) e que o novo governo polaco se prepara para passar uma factura semelhante, que é o sonho do Bloco de Esquerda. A ideia de que estamos perante regimes não-democráticos, apesar de falsa, foi tão repetida que já parece autêntica. A ruptura será mais fácil se pensarmos nestes países como pré-ditaduras, sem liberdades e onde os regimes se fazem eleger através de chapeladas eleitorais. A vontade dos povos está a ser ignorada, sem dúvida, mas é pelas interpretações jornalísticas.

A crise europeia é hoje, acima de tudo, um desfasamento entre os partidos tradicionais que fizeram a UE e a rebelião eleitoral que alastra no Sul e Leste, com contestações populistas, de esquerda nos primeiros países e de aparência direitista nos segundos*. A Alemanha, a grande vencedora desta crise, terá de escolher entre apagar fogos nos pequenos Estados ou aproveitar a contestação para quebrar as amarras e avançar para um núcleo duro europeu onde caberão poucos membros da actual UE (França, Itália, Holanda, Áustria, Bélgica e talvez Espanha) e onde os alemães serão ainda mais inflexíveis e dominadores. A tentação de acabar com a UE que conhecemos parece irresistível.

 

* Uso a palavra ‘aparência’ porque o Leste funciona como a imagem ao espelho do ocidente: os pós-comunistas chamam-se socialistas e querem manter o máximo da ordem política anterior, sendo portanto conservadores; a direita conservadora é na realidade reformista, pois deseja mudar todas as estruturas políticas. Essa mudança, que na Hungria está consumada, é vista pelos media ocidentais como exemplo do horror, por razões que Schmidt procura explicar no texto.

Um ano difícil


Luís Naves,

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O próximo ano não será fácil para Portugal. No final de 2015, houve uma acumulação de tensões políticas como não se via desde os anos 80. Temos agora a bizarra situação de um partido de governo que perdeu as eleições, com apenas 32% dos votos, e que em certas votações cruciais para a credibilidade externa do país necessitará do apoio de um partido rival com mais deputados ou, alternando, do apoio de duas formações da esquerda radical. O PS vai governar de forma precária, toureando à vez, à esquerda e à direita, conforme o tema. As trapalhadas serão constantes, as surpresas inevitáveis, e nem o apoio automático de uma comunicação social desligada da realidade poderá esconder as sucessivas crises.

As promessas da esquerda ameaçam inverter o que foi conseguido na redução da despesa pública e nas contas externas. As incertezas políticas podem reflectir-se no crédito da república e esbanjar a rara oportunidade do petróleo barato e do financiamento a juros baixos. E, no entanto, é perfeitamente possível que a transição pantanosa dure mais de um ano, pois será punido nas urnas quem derrubar este governo minoritário antes que sejam visíveis os seus estragos.

As bolhas das elites políticas, empresariais, culturais e jornalísticas estão a rebentar, pondo fim às ilusões em que todos viveram. Os bancos serão comprados por bancos estrangeiros maiores e esse processo talvez já seja visível em 2016. Os jornais perdem leitores e abraçam a cultura da banalização do superficial. A economia é pouco competitiva, o desemprego elevadíssimo, as empresas precisam de capital e a credibilidade externa do país depende de decisões que não controlamos, tomadas por burocratas da Comissão ou do BCE e por tecnocratas anónimos das agências de notação.

Dentro de semanas, nas eleições presidenciais, o país terá de fazer uma escolha entre estabilização e agravamento da instabilidade, sendo mais provável a primeira opção, com a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta. Marcelo é o candidato que está em melhores condições de conseguir introduzir algum bom senso nesta complexa equação política.

A Europa de hoje


Luís Naves,

Fala-se muito em populismo e na tensão que o fenómeno está a criar na integração europeia, mas o termo não é definido.

Os populistas tendem a ignorar rótulos ideológicos e procuram simplificar as ideias simples do homem da rua. Em textos anteriores, separei populismo de esquerda e de direita, mas em boa verdade as distinções não são evidentes. O populismo desconfia dos capitalistas, da banca e dos especuladores financeiros, detesta as instituições internacionais e as potências. No caso europeu, há forte retórica eurocéptica e críticas duras aos Estados Unidos e Alemanha, sobretudo quando a opinião pública fica com a percepção de que houve interferência nos assuntos internos. A resistência fictícia ou real a essas pressões garante ganhos imediatos de votos. Podia dar muitos exemplos, mas basta referir que ao longo dos últimos anos a esquerda portuguesa sempre se referiu ao anterior governo como subserviente dos interesses alemães, uma das ideias mais persistentes e negativas que a direita enfrentou.

Os populistas esperneiam antes de aceitar o inevitável, como fez a Grécia, mas acima de tudo seguem uma agenda nacional, são adversários da globalização, preocupam-se com os perdedores deste processo, querem reforçar as funções do estado e as companhias de bandeira, tentam interpretar a todo o momento a sensibilidade do povo, distanciam-se da opinião publicada. Os populistas da direita, por exemplo, erguem trincheiras contra a imigração em massa e o que isso implica de perigos (reais ou imaginários) para a identidade nacional ou para os salários futuros. Os populistas governam por sondagens e desconfiam das elites mediáticas e dos partidos tradicionais, embrulham-se na bandeira, gostam de feiras de enchidos, enchem a boca com as palavras valores e tradição, combatem os privilégios dos ricos e assumem-se como defensores dos mais fracos e como opositores dos piores aspectos das culturas forasteiras.

O discurso é iliberal, repleto de adjectivos e entra facilmente na linguagem. As versões radicais desta estratégia de poder serão suavizadas, para não prejudicar os interesses dos países. É por isso que a ascensão do populismo dificilmente destruirá a União Europeia ou deixará a Alemanha num limbo de isolamento onde esta teria de procurar o seu próprio caminho. E, no entanto, está a ser ultrapassado um ponto de não retorno neste processo de mudança que acabará por criar um mundo diferente.

A crise da Imprensa


Luís Naves,

Patrícia Reis cita Fernando Dacosta, segundo o qual as redacções perderam os seus escritores. Diria de outra forma: as redacções perderam os seus intelectuais.

A crise dos jornais tem uma explicação, a tese da tempestade perfeita, que juntou globalização, custos salariais elevados e perda de leitores e de receitas de publicidade. E, no entanto, isto não esclarece totalmente o fenómeno da morte dos jornais. Nos últimos vinte anos, as redacções perderam metade dos jornalistas, como se tivessem perdido um dos seus braços. Tornaram-se locais onde se trabalha por rotina, com chefias burocráticas, inflexíveis, muito politizadas e dependentes. Perdeu-se a camaradagem e as diferenças salariais são escandalosas. Isto dá origem a produtos previsíveis, que pouco adiantam à vida das pessoas.

No seu longo declínio de vinte anos, os jornais perderam sobretudo a criatividade. Eles transformaram-se em simples retratos do tempo, em vez de interpretações. São pouco pensados, mudam regularmente o aspecto gráfico e pioram constantemente o conteúdo escrito. É cada vez mais difícil encontrar autores que pensem pela sua cabeça, com sentido de humor e coragem para desafiar convenções ou para recusar a linguagem codificada do politicamente correcto. Nos jornais, encontramos páginas e páginas com pequena intriga, não há rasgo, acredita-se ainda que o estilo pedante e sentimental é o correcto para as reportagens.

Ao longo de uma geração, os jornais perderam progressivamente a crónica e a narrativa, dedicando-se ainda mais à notícia e opinião, dois tipos de texto que a globalização banalizou, com a agravante dos jornais tradicionais recusarem assumir as tendências políticas que obviamente possuem. Em breve, as notícias serão redigidas por máquinas, de onde se conclui que, perante as dificuldades financeiras, os donos dos jornais fizeram o inverso do que deviam ter feito, apostando erradamente nas formas jornalísticas que a internet já tornara quase universais. Ao deixarem sair os jornalistas mais experientes e de melhor qualidade, os jornais perderam memória e independência, condenaram-se à morte lenta, dando de bandeja a discussão da sociedade a meios gratuitos que têm sustentação económica oposta. No processo, os intelectuais desapareceram da paisagem e a própria palavra ganhou toque de ironia. É por isso que o país não tem debates nem circulação de ideias, por isso papagueamos banalidades em mau inglês e dependemos cada vez mais das interpretações que outras nações e culturas fazem do mundo.

O melhor candidato


Luís Naves,

A crise nacional é mais funda do que parece e exige que na presidência esteja uma personalidade com indiscutível carisma e conhecimento do país. Marcelo Rebelo de Sousa é o único candidato presidencial com capacidade e autonomia para equilibrar o frágil sistema político, agora tornado ainda mais instável pela estratégia de poder do partido que perdeu as eleições. As reformas ainda não acabaram e os compromissos europeus não são algo de vago ou de retórico, mas um elemento central da nossa história dos próximos anos. Se falharmos, cairemos num patamar de menoridade, por isso estas eleições presidenciais são mais importantes do que tem sido tradicional. Marcelo é o único candidato que garante utilizar todas as ferramentas constitucionais ao seu dispor, mas também é um político reconhecidamente hábil e experiente, o que nos oferece garantias de uso inteligente desses poderes. Portugal precisa de um presidente capaz da moderação e da equidistância, precisa de alguém que dê garantias de confiança e firmeza, de um presidente colocado ao centro, capaz de negociar com as diferentes forças, proporcionando entendimentos entre elas. Portugal precisa de um presidente pragmático que conheça profundamente o sistema político e constitucional. Num período de crise, não se fazem experiências, elege-se alguém com experiência.

Intolerância e bipolarização


Luís Naves,

As últimas semanas demonstraram que a sociedade portuguesa tem no seu código genético certa tendência para a intolerância. Instalam-se a retórica de tudo ou nada, a má qualidade do debate público, a agressividade dos comentadores e um argumentário fantasista da esquerda, que vê em simples manobras tácticas grandes batalhas ideológicas. A propósito do espirro de um dirigente, tornou-se moda dizer que a direita se radicaliza; isto agora vai mudar tudo, dizem outros, vendo vastas cedências na declaração burocrática de um responsável europeu que quer tudo na mesma; vem aí a “austeridade inteligente”, afirmam certos crentes, como se a austeridade fosse “estúpida” ou “inteligente”, conforme o autor.

O sistema anterior ao resgate era insustentável e a Europa mudou. Há problemas nacionais como desemprego de longa duração, fragilidade económica, crónica falta de capital, défice de qualificações, influência excessiva de grupos de interesses, crise demográfica, enfim, todas as dificuldades tradicionais continuam em força, mostrando que as reformas impostas pelos credores foram insuficientes.

Neste contexto, a política entrou numa onda de crispação que pretende ignorar o voto de 38% do eleitorado. A direita tem um problema grave: só será poder com maioria absoluta, pois acabou de vez a solução bloco central que permitia resolver situações de impasse, como era o caso a 4 de Outubro. Se não aparecer um novo partido ao centro, CDS e PSD terão todas as razões para se entenderem em coligações pré-eleitorais, mas precisarão de 43% dos votos, o que é a fasquia mais alta da Europa para partidos tradicionalmente de poder evitarem ser oposição eterna. No futuro, independentemente do que disser antes das eleições, o PS ficará colado a parceiros que até hoje eram sobretudo partidos de protesto à sua esquerda*. Acabou a alternância dos dois grandes partidos moderados do centro, que era a base do regime. A bipolarização decidida por António Costa, criando dois campos nítidos, pouco coerentes, radicalizados e muito antagónicos, foi um erro crasso e surge numa altura em que é o pior sistema possível para um país que precisa de continuar as reformas.

 

* Embora o partido comunista tenha presença no poder autárquico, a sua vocação é claramente de protesto e o bloco, sem poder autárquico significativo, tenderá provavelmente a integrar futuros governos.

Sismo eleitoral


Luís Naves,

A Europa está a sofrer uma mudança radical. As causas são complexas, mas julgo ser claro que muitos eleitores pobres sentem alta ansiedade em relação à sua segurança económica e física. Sentem em perigo a sua identidade e têm conflitos com os vizinhos muçulmanos. Ontem, na primeira volta das eleições francesas, ocorreu um novo sismo, que deslocou um pouco mais as placas tectónicas da política europeia: a Frente Nacional, de extrema-direita, foi o partido mais votado. Um em cada três eleitores escolheu os nacionalistas. A política francesa tem agora três grandes blocos.

É difícil antever a segunda volta, por causa da abstenção elevada, mas se a direita republicana desistisse numa das regiões, isso equivalia a eleger o representante da extrema-direita. A fusão de candidaturas de esquerda com direita está afastada. Se houver muitas votações triangulares, é natural que a FN vença pelo menos em duas ou três regiões. A esquerda pode ganhar duas, os republicanos talvez seis ou sete, mas estamos à beira de algo de profundamente diferente, com possíveis consequências nas presidenciais, dentro de ano e meio. A FN é uma formação xenófoba, proteccionista e que quer limitar a emigração. Enquanto tinha 15 ou 16% dos votos, podia ser enfrentada como protesto. Com um em cada três votos, isso deixa de ser possível, daí a reacção cautelosa dos republicanos de Sarkozy e o nervosismo da esquerda, que na realidade foi trucidada.

O que se passou em França é sintoma de uma irritação mais vasta. Os conservadores eurocépticos venceram na Polónia e há sinais de rebeliões em outros países, por exemplo na Finlândia. A União Europeia sairá desta onda populista com um aspecto diferente, com escassa paciência para periferias incapazes de controlar a sua contabilidade, provavelmente a duas velocidades e com um núcleo duro que acelerará a integração. Teremos saudades dos tempos de Schauble e Merkel. Nos próximos anos, os políticos vão ouvir mais os seus eleitores ou arriscam-se a derrotas. A recente tentativa de criar uma política comum de emigração e asilo foi um erro que pode agora conduzir a reacções em que será pior a emenda que o soneto. As elites mediáticas também precisam de pensar mais nas respectivas sociedades, pois começa a ser patética a distância entre público e matéria publicada (e se as pessoas não o compram, o órgão de comunicação não existe).

Era impensável


Luís Naves,

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Se estivesse em 1915 a tentar imaginar o mundo do século seguinte, teria provavelmente uma perspectiva pessimista do futuro. Em 1915, as pessoas morriam cedo, em média com pouco mais de 40 anos: a mortalidade infantil atingia valores astronómicos, as mulheres morriam de parto e eram raros os casais que não perdiam filhos ou os velhos que passavam de 65 anos, geralmente com problemas que tornavam o prolongamento dessas vida num inferno de dor, sofrimento e pobreza.

Havia tempo para ler e amar e talvez se possa afirmar que as pessoas eram mais felizes, mas encontramos muitos relatos estranhos desse tempo: os jornais estão cheios de cenas de pancadaria e notícias de crimes passionais. O mundo rural era violento, as pessoas viviam com dificuldade e trabalhavam muito, por pouco dinheiro e sem rede social. Não havia apoios à velhice nem medicina gratuita; os poderosos tinham mais direitos e os pobres analfabetos obedeciam. Temos tendência para mitificar a vida quotidiana do passado e a nossa imagem de 1915 vem dos relatos de uma burguesia com privilégios, que vivia em certo conforto luminoso e protegido. As classes baixas, sobretudo os camponeses, tinham na realidade uma existência de pouco alimento e muita doença. As suas vidas eram curtas e as oportunidades raras. Nas décadas anteriores, a emigração permitira a abundância dos “brasileiros”, mas por cada aventureiro que fez fortuna, morreram dezenas, de febres e fome.

Em 1915 havia uma guerra mundial cujos efeitos devastadores tinham sido previstos por alguns visionários e futuristas: sonhava-se com máquinas voadoras e houve os primeiros bombardeamentos aéreos; o mundo entrara na era do aço, na modernidade industrial a sério, com produção em massa e nações em armas, exércitos de milhões e guerras tridimensionais. Eram impensáveis as ideologias totalitárias, mas o primeiro grande genocídio foi nesse ano. Foi também o ano da relatividade, os impérios europeus dominavam o mundo e era difícil prever os conflitos imperiais que iriam durar até 1989. Eram certamente impensáveis o Holocausto e a bomba atómica, o computador e os antibióticos, os aviões a jacto e o módulo lunar. E como será daqui a cem anos?