
As crises europeias quase parecem provocadas por um desejo de mudar, ignorando tratados e reduzindo a actual complexidade. Não é segredo que muitos dirigentes comunitários desejam que os ingleses saiam, que os ‘irresponsáveis’ do sul saiam e que o alargamento seja revertido. É uma visão trágica, mas os países do Sul têm sido tratados com desprezo, os de Leste com uma inaturável condescendência e os ingleses, esses, diz-se que continuam ao serviço da América.
O texto cuja leitura proponho é extenso, está em duas partes, infelizmente apenas em inglês, mas convém fazer a sua leitura, para se perceber o grau de frustração que se instalou nos chamados países de Leste, onde a atitude em relação à Alemanha começa a ser um desalentado ‘eles arrastam-nos estupidamente para os maiores sarilhos e depois abandonam-nos na latrina’. Aqui está a primeira parte e aqui está a segunda parte. A historiadora Maria Schmidt é pró-Fidesz e, portanto, próxima do líder húngaro, Viktor Orbán. Não recomendo a leitura a alminhas sensíveis, mas o texto é um vislumbre raro daquilo que pensam os intelectuais de uma corrente que tem tido escassas oportunidades para se manifestar.
Do ponto de vista ocidental, sendo impossível ‘disciplinar’ estes países, o melhor caminho será o da ruptura. Nos meios de comunicação, a história unilateral está a ser contada segundo um guião previsível: de um lado, há governos autoritários de extrema-direita e, do outro, os que defendem a concórdia no mundo. Países como Hungria e Polónia estão a ser diabolizados sem perdão, acusados de derivas neo-fascistas e ultra-nacionalistas, de atropelos imaginários e muros ilegais. O arrastão mediático é evidente e todos os argumentos servem, dos delírios de aproximação a Moscovo às invenções anti-semitas. Nestas interpretações ignoram-se as centenas de ataques que se registaram em países ocidentais contra os refugiados (mostrando que a integração dentes será difícil), ignora-se que a crise migratória foi uma imposição alemã aos seus vizinhos, que os tratados não incluem decisões colectivas sobre políticas de imigração, ignora-se ainda que o governo húngaro recusou obedecer a um programa de ajustamento do FMI e mandou a factura da crise aos bancos (sobretudo austríacos e alemães) e que o novo governo polaco se prepara para passar uma factura semelhante, que é o sonho do Bloco de Esquerda. A ideia de que estamos perante regimes não-democráticos, apesar de falsa, foi tão repetida que já parece autêntica. A ruptura será mais fácil se pensarmos nestes países como pré-ditaduras, sem liberdades e onde os regimes se fazem eleger através de chapeladas eleitorais. A vontade dos povos está a ser ignorada, sem dúvida, mas é pelas interpretações jornalísticas.
A crise europeia é hoje, acima de tudo, um desfasamento entre os partidos tradicionais que fizeram a UE e a rebelião eleitoral que alastra no Sul e Leste, com contestações populistas, de esquerda nos primeiros países e de aparência direitista nos segundos*. A Alemanha, a grande vencedora desta crise, terá de escolher entre apagar fogos nos pequenos Estados ou aproveitar a contestação para quebrar as amarras e avançar para um núcleo duro europeu onde caberão poucos membros da actual UE (França, Itália, Holanda, Áustria, Bélgica e talvez Espanha) e onde os alemães serão ainda mais inflexíveis e dominadores. A tentação de acabar com a UE que conhecemos parece irresistível.
* Uso a palavra ‘aparência’ porque o Leste funciona como a imagem ao espelho do ocidente: os pós-comunistas chamam-se socialistas e querem manter o máximo da ordem política anterior, sendo portanto conservadores; a direita conservadora é na realidade reformista, pois deseja mudar todas as estruturas políticas. Essa mudança, que na Hungria está consumada, é vista pelos media ocidentais como exemplo do horror, por razões que Schmidt procura explicar no texto.