Ó amigo Joaquim, achas que já posso regressar?
Algo fascinante se passou no território: o colapso do PS, o desaparecimento do Bloco, o triunfo absoluto do PP não ocorrem sem um vasto desequilíbrio entre méritos e mediocridades várias. Gostaria muito de ter observado o quartel-general de Paulo Portas durante esta campanha.
Que dizer às pessoas num momento como este? Tenho pensado nisso enquanto leio os outros blogs ou poiso os olhos nos jornais e encontro apenas ressentimento e angústia.
A opinião está barata, como qualquer produto em mercados saturados, mas a esperança não. Talvez não possamos mudar a realidade, mas está ao nosso alcance mudar alguma coisa em nós. Podemos ser um pouco mais observadores, um pouco mais capazes, e tentar fazer coisas que ainda não fizemos.
São raros os seres humanos verdadeiramente indefesos. São poucas as pessoas que não conseguem criar uma estratégia — e onde há uma estratégia há sempre uma esperança.
A esperança não é uma experiência colectiva, é uma experiência individual. Não depende da crise, não depende da idade e pode reforçar-se em contextos prejudiciais.
Por isso devemos aprender a separar os ruídos do mundo da nossa voz interior. Se a carga afectiva dos outros o perturba, ignore-a. Até nos períodos de crise há gente que prospera: procure essas pessoas.
Cada um de nós pode ser um pouco melhor a estabelecer objectivos realistas e a cumpri-los. Jorge Luis Borges escreveu que a coisa mais superficial de um homem são as suas opiniões.
Ignore as opiniões tóxicas.
– Amigo Antunes, oubi dizer que aí em Lisboa podem dejenhar bonecos nos prédios. É berdade, carago?
– Ó pá, não me fales nisso. É uma coisa horrivel, um nojo, um desrespeito infame pela propriedade privada.
– Mas olha que o meu genro biu um numa abenida e gostôu-e!
– Vocês não têm destas porcarias aí em cima?
– Não, que o gáju não deixa. Mas já temos metropolitano.
– Lá isso é verdade.
– É berdade, pois.
– Os meus parabéns.
A cidade acolhe gente com talento, os turistas fotografam-no, as nossas fachadas degradadas agradecem-lhe e com alguma sorte ainda aparece no Guardian. (Além, é claro, de não ter de levar com o Rui Rio). É aquilo a que no Porto se chama uma situaçôn bêncer-bêncer. Ora veja.
Fallen Angel, de Jean-Michel Basquiat; mais um tipo que vandalizava a propriedade alheia e dava aos transeuntes uma imagem degradada de Nova Iorque. Ainda bem que não era do Porto, onde seria detido, regenerado e hoje viveria feliz num balcão do Millenium BCP.
Passos Coelho recebeu Tó Zzzé Seguro, que lhe foi dizer umas merdas. Em duas horas de reunião evitaram falar da Madeira, por estarem na residência oficial do primeiro-ministro. Ainda assim, a coisa foi muito importante.
A invocação da independência da Madeira com que Jardim ornamentou um jantar-comício em que a dívida ascendeu de súbito a cinco mil e tal milhões de euros (coisa pouca) parece um retrato da loucura do soba, mas não é.
O presidente do Governo Regional sabe que os continentais incham de gáudio sempre que nos confronta com a imagem grata e remota de uma casca-de-noz à deriva no Atlântico. Sim, imaginamos com prazer a pandilha fraldiqueira a rumar em direcção às Canárias. Gostaríamos até que levasse com ela o Cavaco e a sua maria, a Manuela e a sua virtude, o Gama e a sua barriga, toda a tropa fandanga que algum dia elogiou no Funchal a obra feita do homem enquanto nos pregava sobriedade e contenção. Jardim sabe o que nós sabemos, por isso apela à independência.
Era só o que faltava.
A Madeira faz parte do território nacional nem que seja de grilhetas. Querem votar no Jardim? Votem. Querem roubar à descarada? Roubem. Mas daqui não saem até pagarem ao tostão. Os impostos que lá estão enterrados remuneram-se com o suor e as lágrimas dos madeirenses. Não há outra estratégia, não há outra maneira. E é bom que isto fique claro a tempo das próximas eleições.
Vasco Pulido Valente, unindo a sua voz à voz sempre serena de Medina Carreira, ergueu hoje bem alto a corneta do apocalipse e anunciou-nos o Declínio do Ocidente. Alarmado, fui logo ver como estavam os relatórios da competitividade global em 2011. Estão assim:
1. Switzerland
2. Singapore
3. Sweden
4. Finland
5. United States
6. Germany
7. Netherlands
8. Denmark
9. Japan
10. United Kingdom
Apesar das dívidas, e apesar das dificuldades institucionais que só um doido pode ignorar, talvez seja um pouco cedo para sugerirmos que os males da pátria se confundem com os males da Europa e da civilização.
De um dia para o outro toda a gente que andou por aí a defender a despesa pública é inimputável, excepto Alberto João Jardim. Neste assunto tenho a consciência tranquila porque sou de esquerda mas sempre temperei o meu escasso keynesianismo com sensatez. Os arquivos deste e do outro blog estão cá para o provar. Faz parte das peculiaridades do país que quem se calou perante as PPP, o novo aeroporto de Lisboa ou de Beja, a corrupção desbragada, a terceira auto-estrada do norte e o TGV agora berre e vocifere contra as dívidas da Madeira. Mas só há um homem em cargos públicos com autoridade para dizer isto:
Tive uma grande tarefa que foi tapar o buraco financeiro que tenho. Sobre buracos financeiros não tenho mais a acrescentar do que tenho vindo a dizer ao longo de dez anos, aliás com muitas críticas. Chamaram-me muitas vezes contabilista, disseram que tinha pouca ambição e pouco rasgo… agora a Câmara do Porto tem as finanças equilibradas e o rasgo dos outros foi tanto que rasgaram o futuro do país.
E acabou a conversa (via).
No Público de hoje a coisa atingiu níveis nunca antes alcançados (o que não é dizer pouco, porque lá escreve a Helena Matos) graças a uma crónica do Rui Tavares em que ele sugere que a ausência de Governo na Bélgica impediu as políticas de austeridade, o que terá feito crescer a economia.
Está bem, abelha.
Se o Rui Tavares quisesse abordar estes assuntos com algum rigor repararia que a ausência de Governo na Bélgica também impediu as políticas expansionistas, assentes no investimento público e no incremento da dívida, o que se calhar fez crescer a economia.
Portanto, ficamos assim.
Talvez esta seja uma boa altura para recordarmos a Nuno Crato que ele não foi nomeado para contestar os relatórios da OCDE sobre a educação em Portugal, mas sim para ultrapassar o desempenho do Governo anterior nas matérias da sua responsabilidade. As instituições internacionais lá estarão para o avaliarem. Escrevo isto porque me aborreceria muito assistir ao regresso desta conversa de chacha em 2012. Como explica Medeiros Ferreira, o ministro deve esforçar-se mais.
Depois das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa e das Sete Maravilhas da Gastronomia, para quando as Sete Maravilhas da Literatura, reconhecendo os escritores que transportam as nossas palavras para além da Taprobana? Não é todos os dias que temos o privilégio de escolher entre os lusíadas de Camões e os lusíadas do Gonçalo Tavares, ou de integrar o Equador e o Codex 632 no cânone do Ocidente. Além disso, o Malato gosta muito de ler.
Hoje conhecemos bem as circunstâncias em que foi codificada a Solução Final na Conferência de Wannsee. A reconstituição do planeamento do 11 de Setembro, a cargo Khalid Sheikh Mohammed, não seria menos interessante. Impressiona o contraste entre a singeleza da ideia e a complexidade da execução.
A imagem é do grande James Nachtway. Comparem com o que fez por exemplo Steve McCurry a uma distância segura. Fotógrafo de guerra é outra loiça.
O horror, a tragédia, a malandragem. No Jornal de Negócios dá-se hoje voz à angústia sem fim que devasta o sector do calçado. Os empresários do ramo precisam de mais 1500 pessoas, mas não há em Portugal 1500 pessoas que queiram trabalhar. Entre gritos lancinantes de impotência e desânimo, os nossos criadores de empregos confessam que já tentaram tudo, excepto aumentar salários — porque os salários baixos, evidentemente,não explicam a situação.
Claro.
O que explica a situação é o sol e a praia, a ausência de valores, o colapso das famílias, o tabagismo e o consumo de psicotrópicos, o declínio da fé verdadeira, o aborto livre e a natural propensão para a indolência do barrasco lusitano.
Tudo excepto os salários baixos.
Quatrocentos e oitenta euros por mês, em Santo Tirso, dão lindamente para alugar um T4 e pôr os filhos no colégio. Ao fim de semana joga-se golfe em Arcozelo ou dá-se um saltinho ao Bull & Bear.
Os salários não explicam, portanto. As leis da oferta e da procura funcionam em todo o lado mas são miraculosamente suspensas acima de Valongo, nas fábricas de calçado português. As empresas do mundo inteiro atraem funcionários com salários e regalias, excepto na Chancela & Teresinha, na Natália Lda ou na Tavares & Irmãos. Aí podem lançar à rua libras de ouro ou maços de dinheiro que não aparece ninguém.
Esta situação chocante justifica que o Governo tome uma atitude firme para persuadir os nossos compatriotas a trabalharem um pouco mais. Talvez, enfim, com a subida do IVA, um aumento do preço dos transportes ou o fim das comparticipações nos medicamentos.
Já foi feito? Então mandem a polícia.