O ocaso do PSD.


vidabreve,

Há quinze dias, quando os nossos politólogos debatiam empates técnicos e os jornais não tinham por hábito revelar as fontes da concorrência, escrevi aqui o seguinte:

O PS conseguiu reposicionar-se como um partido de centro-esquerda (há um ano era de centro-direita). Esvaziou o Bloco das suas causas e carregou nas tintas da protecção social. Sócrates sobrevive a tudo: ao Freeport, aos contentores de Alcântara, ao ódio da administração pública e ao desvelo dos administradores da Prisa. Com Cavaco Silva apardalado (as escutas em Belém deixarão marcas), o primeiro-ministro arrisca-se a que ainda o confundam com um pilar do regime. Quanto às eleições: ganhas, evidentemente. Podemos esconder as carteiras.

O PSD não é um partido, é uma associação recreativa. Nunca uma boa promessa (a política de verdade) se transtornou tão velozmente em ópera bufa. Manuela Ferreira Leite leva um vigarista de bairro com o bracinho ao peito para a Assembleia da República, mete Santana num espectáculo de robertos e vai bater palminhas ao Bokassa dos ananases. Ao redor da líder, afiam-se os cutelos. O cangalheiro tira notas. Os últimos apoiantes buscam sem glória alguma coisa que faça sentido. O pano cai no fim do mês.

Encorajado por esta admirável presciência que as sondagens de ontem confirmam, resolvi agora abusar dela e alongar-me sobre o futuro do PSD. Os barões do Partido Social-Democrata disseram nesta campanha que nos os últimos quatorze anos só governaram três. Para eles isto é uma declaração de virtude, para mim é uma confissão de fracasso. A um partido que perde repetidamente com o seu adversário não fica bem invocar derrotas humilhantes para legitimar a aspiração de uma vitória. Votem em nós porque somos falhados é capaz de não ser um bom argumento para levar hordas às urnas no dia 27.

 

E é bem verdade que o PSD nos revelou mais uma vez a sua condição miserável. Escolheu um líder mal atamancado, fez uma campanha amadora, ornamentada de momentos embaraçosos e executou o arremedo de estratégia que concebeu a desoras com a alacridade e a inconsciência de um pirómano. Agora que Manuela Ferreira Leite se prepara para abandonar o ceptro (ou melhor, o fardo) que carregou com a sua irritável inépcia, abrem-se alas para o meigo depositário das loucas esperanças social-democratas: Pedro Passos Coelho.

 

E quem é este Passos Coelho? Um homem que nunca se distinguiu na academia, nas empresas, nem sequer em cargos ministeriais, que se exprime por truísmos e se apoia em barões; um tipo plano, sem densidade, sem brilho, tão cinzento como um dia de chuva, mas muito menos proveitoso. É este homem que se prepara inspirar o PSD com as suas ideias. E é a este homem, sem provas dadas, sem mérito visível, sem nada que ultrapasse uma vulgaridade burocrática que o PSD nos vai tentar convencer entregar os destinos do país.

 

A isto chegou o partido de Francisco Sá Carneiro.

Os outros.


vidabreve,

Álvaro Santos Pereira:

Em Espanha, o primeiro-ministro propõe um aumento de impostos na ordem dos 1,5% do PIB para fazer face ao crescimento do défice orçamental. Em Inglaterra, todos (repito, todos) os principais partidos políticos debatem que despesas é que se irão cortar para lutar contra o défice orçamental. E em Portugal? Será que nos preocupamos com isso? Claro que não. Para quê? Afinal o défice do subsector Estado só subiu 154% nos 8 primeiros meses do ano.

Mas não faz mal. O dinheiro há-de dar para tudo. Para TGVs, para auto-estradas, para novos aeroportos, para ajudas às PMEs, para aumentar os salários acima da inflação, para Planos Tecnológicos, para para para… É que, como sabemos, as regras que se aplicam aos outros não se aplicam a nós. E, se é assim, para quê nos preocuparmos?

(Via Clube das Repúblicas Mortas)

A padeira de Penafiel.


vidabreve,

A dona Luzia Rocha encontrou uma mala com nove mil euros na rua, à porta da sua casa. Com uma lógica inatacável mandou chamar a brigada de minas e armadilhas, que esteve quase a fazer explodir o atafulhado invólucro por deformação profissional. Finalmente lá encontraram o proprietário, organizador de bodas e saraus dançantes na região. A dona Luzia é agora uma heroína nos pasquins nortenhos e nem sequer lamenta a ingratidão do homem que abarbatou as notas sem a recompensar.

 

Não faça caso, minha senhora: o país aguarda-a com antecipação. Venha para a política. Forme um novo partido. Honesta como é, não ganhará dinheiro – mas vai conhecer Lisboa, comer pãozinho de forma com oito cereais, e se calhar, quem sabe, ainda conquista uma maioria estável para governar o mistifório durante quatro anos e outros tantos  meses. Deus queira.

 

Deus queira.

Entretanto, em Leiria.


vidabreve,

milagre_das_rosas

 

– Senhora Dona Manuela, onde ides a desoras?

– Hã…hum… Ora, Senhor Dom José, ia apenas passear no horto dos simples. Aqui asfixia-se, nos aposentos reais.

 – Ah, lá estais vós com a asfixia monárquica. Não me agrada que passeis tanto tempo entre os simples. O que levais no regaço?

– Reg… qual reg…

– Aí, nessa dobra dos vossos paramentos. (Desconfiado) Ides outra vez distribuir benefícios aos piquenos e médios mesteres?

– Benef… Cóf, cóf… Ora… Ah Ah Ah! Claro que não, meu bom dom José. Que ideia!

– Não transportais por acaso tenças, liberalidades, perdões?

– (Lívida) Não, não, de modo algum. Sou poupadinha.

– Mostrai-me o que me escondeis…

– Mas, Dom…

– Não resistais. Ainda sou o vosso senhor.

– O meu senhor é o da Galileia…

– Mas esse está lá longe, acoitado em Belém. Vamos, revelai-vos ou ides passear para o pinhal.

– (Implorando aos céus) Ajuda-me, Presidente do Conselho! (Lentamente, deixa cair a aba do saio)

– Ãã… O que é isso?

– Ãã… Não sei.

– Como não sabeis?

– Ãã… Ah, afinal já sei! Isto, meu senhor Dom José, são ex-votos!

– Ex-votos?

– Sim: ex-votos de Lisboa!

– Oh, Santinha. Como pude duvidar da vossa lendária virtude? Vinde a meus braços.

 

Ela revira os olhos para o altíssimo e profere, num sussurro exangue:

– Obrigado, Salazar…

Entretanto, em Palermo.


vidabreve,

– Giggio, vene qui.

– Si, Dom Giuseppe.

– Questo problema de Mora Guedi, stai tratati?

– Si, Dom Giuseppe. No é ancora um problema.

– Bene, bene. E anche…

– Si, Dom Giuseppe…

– …Questo altro problema de Giuseppe Manueli Fernanddi. Come vai?

– Stai tratati, Dom Giuseppi. Anche essi Fernandi no é ancora um problema.

– Bene, bene, Giggio. E Dom Cavaquio Silvio? Anchora vivo?

– No, Dom Giuseppi.

– Bene, bene Giggio. I ai parlato com aquelo catzo, quelo Francesco Louçati, del Bloqui Sinistro?

– Si, Dom Giuseppi. Ai parlato co el.

– E cosa ché?

– Gli ai feto una propostia irrecusabile, Dom Giuseppi.

– No vuollo sapere. Esso es tuo problemi, Giggio…

– Si, Dom Giuseppe.

– E que ha dito esse Francesco? Ai aceptato nostra generosia proposta irrecusabile?

– Si, Dom Giuseppe.

– Bravo, Giggio. Sei un buono ragazzo.

– Grazzie, Dom Giuseppe.