Na semana passada, os colegas do Delito de Opinião quiseram ir jantar ao Clube de Jornalistas. Como poderia recusar o convite? Adoro jornalistas. Já gostava deles quando não trabalhavam para o Governo, nem namoravam com primeiros-ministros, nem roubavam emails uns aos outros, e a passagem dos anos, o frisson das ligações perigosas, o perfume dos escândalos só transformou essa benevolência em ardor. Tenho amigos entre assessores políticos e profissionais da imprensa (perdoem o pleonasmo), e algumas das boas refeições que até hoje recordo foram incluídas na factura de um ou outro semanário. O mesmo não ocorreu com esta, que me obrigaram a desembolsar.
Apesar desse faux pas, a noite foi agradável. Mal atravessei a porta vi o Mário Zambujal, que ainda está vivo, e tão lúcido como o António José Saraiva. Na salinha dos cocktails cavaqueavam o Carlos Barbosa de Oliveira e a Teresa Ribeiro. O Carlos é um gentleman — a Teresa, felizmente, não. Revelou-se uma mulher elegante, simpática, com a língua afiada: fiquei ao seu lado durante o jantar.
O belo sexo fez-se representar com brio. A Ana, uma aventureira extraordinaire, relatou-nos como tinha explorado o Camboja, a Tailândia e o mundo perdido do grande lama Jampehl Gyatso Tangá, em Xanadu (deu-me um cone de incenso capaz de o provar). A Leonor e a Ana Margarida discorreram com tanto espírito sobre a nossa vida pública que fariam inveja à madame De Stael, se a sua pobre carcaça não estivesse sepultada em Paris. Quanto à Cláudia: ela conhece os segredos da blogosfera portuguesa, amigos. Sim, todos os segredos. Portanto, don’t fuck with us.
Entre os homens contávamos dois políticos: o Adolfo, um sujeito demasiado estimável para alguém que apoiou Paulo Portas e espera conduzir à miséria as velhinhas do rendimento mínimo e os órfãos desamparados — e também o André Couto, um socialista que se atrasou várias horas, como é hábito entre os poderosos, mas teve a delicadeza de não recitar as oito cabalas urdidas pela justiça contra o senhor primeiro-ministro ainda em funções.
Nós, os cidadãos anónimos, também nos divertimos muito. O António ficou calado e o José falou sobre a América, pelos dois. Assim se confirma que em todos os blogs colectivos há um Nuno Rogeiro. Mas a grande surpresa da noite foi o Pedro Correia: eu aguardava um rapaz de chinela e calção encardido, com prancha de surf à ilharga, recém-chegado de uma das melhores praias portuguesas, e em vez dele conheci um senhor com ar de banqueiro, bon chic, bon genre, glamoroso, soigné. Passei todo o jantar à espera que aparecesse o irmãozinho.
Os colegas ausentes deixaram saudades mas, vendo o lado positivo, assim não faltou comida. O chef André Magalhães esteve bem: o creme de castanhas com presunto estaladiço pareceu-me excelente, o bacalhau salgado mas as migas saborosas, o naco de porco très outonal, o leite creme de marmelos um achado, os vinhos muito adequados ao preço (melhor o branco que o tinto). As castanhas assadas, infelizmente, más — despeçam o fornecedor. O espaço é magnífico, o jardim amável, a mesa redonda é ideal.
Nos próximos dias publicarei aqui algumas fotos, a menos que enviem os chequezinhos ao apartado do costume. Para a Ana Cláudia é mais caro, por questões de segurança.