Hélas, pouca ambição.


vidabreve,

 

 

O João e o Rogério estão exultantes: apesar dos pequenos transtornos que descoroçoaram o primeiro-ministro, a popularidade do Partido Socialista alcançou os 38,1%. Sem querer perturbar o foguetório, lamento que os meus amigos se regozijem tanto com resultados tão medíocres. Convém lembrar que ainda esta semana Sílvio Berlusconi obteve quase 50% numa pesquisa semelhante. E se ele é exemplo para umas coisas, também devia ser para outras.

E no entanto, eles mexem-se.


vidabreve,

A defesa do primeiro-ministro está agora reduzida a um só argumento: as formalidades do Direito devem protegê-lo do escrutínio dos cidadãos. Este tema foi ontem desenvolvido em dois posts, de João Pinto e Castro e Isabel Moreira.

 

O primeiro sujeita Kant a tratos de polé e desemboca numa inesperada tontaria a sugerir que somos herdeiros de Hitler e Estaline. Há respostas à altura do doutoral desabafo (embora mais educadas) neste e neste blog, cuja leitura se recomenda.

 

O post de Isabel Moreira seria respeitável se fosse honesto, mas não é. A autora assume uns ares de rigor científico enquanto proclama a impunidade do primeiro-ministro: acho de gargalhada a ideia de sócrates ter tentado fazer o que se diz que tentou fazer, escreve a certa altura.

 

No seu texto explica-nos que quando defende valores como o respeito pela lei, pela privacidade, pela intimidade de cada um, está também a defender todos nós, esta coisa que se chama a cidade e a democracia, pois, acredita ela, não há liberdade sem lei.

 

A seguir, no entanto, estraga tudo ao lamentar que não se possa fazer nada quando fica demonstrado que Belém tem uma tramóia montada contra o Governo.

 

Eis o problema do post, leitores: a tramóia da presidência que ela refere só ficou demonstrada pela divulgação de e-mails privados no jornal em que a Isabel Moreira publica os seus artigos de opinião.

 

Ora, quando o assunto foi discutido a autora não invocou valores, como o respeito pela lei, a privacidade ou a intimidade de cada um para proteger a pólis, a democracia ou os cidadãos.

 

Não o fez antes, e não o faz agora. Ao invocar o caso Fernando Lima, uma tramóia que segundo os seus altos critérios devia ignorar, Isabel Moreira revela-nos os limites da sua doutrina e, muito pior, da sua boa-fé.

O texto de Henrique Monteiro no “Expresso”.


vidabreve,

Sócrates é o pior primeiro-ministro no que respeita à Comunicação Social; o único que telefona e berra com jornalistas, directores, com quem pode. O único em que nestes mais de 30 anos que levo de vida jornalística, se preocupa doentiamente com o que dizem dele, em vez de mostrar grandeza e fair-play com o que de errado e certo propaga a Comunicação Social.

Tirar teimas.


vidabreve,

Sócrates queixou-se de Crespo a director da SIC

Foi o primeiro-ministro a dirigir-se a Nuno Santos, director de programas da SIC, para lhe dizer que o jornalista Mário Crespo era "um problema" que tinha de ser resolvido. Santos almoçava com Bárbara Guimarães no Hotel Tivoli, em Lisboa, no dia da entrega no Parlamento do Orçamento do Estado. (…)

(…) Segundo as mesmas fontes, terá sido José Sócrates e os seus dois ministros dos Assuntos Parlamentares e da Presidência (Jorge Lacão e Silva Pereira) a dirigirem-se à mesa onde se encontrava Nuno Santos a almoçar com a apresentadora de televisão Bárbara Guimarães. (…)

(…) A informação sobre o teor desta conversa chegou ao conhecimento de Mário Crespo, não através dos seus colegas da SIC, mas através de um e-mail "de uma pessoa que estava presente no restaurante e me transmitiu o que ouviu", disse o jornalista ao Expresso. Crespo confirmou, em seguida, as informações junto de Nuno Santos e de Bárbara Guimarães, antes de escrever a sua habitual crónica destinada ao "Jornal de Notícias". Aliás, no artigo – que seria recusado pelo director do JN por, alegadamente, a informação não ter sido confirmada – Mário Crespo sublinha que o relato "é fidedigno. Confirmei-o" e transcreve mesmo partes do e-mail recebido.

Notícia do Expresso, via Henrique Raposo. 

Quando Sócrates berra contra o “Jornal de Sexta” na abertura de um congresso do PS, é normal; mas quando vocifera sobre o Mário Crespo à mesa de um restaurante, isso já é inacreditável.


vidabreve,

 A blogosfera do Primeiro-Ministro já decidiu: é uma cabala dos botabaixistas. O filme é para recordarmos.

“Balaústre gentil”, “Práxis Quotidiana”, “Pópulo de Cristal”.


vidabreve,

 

Quer ser empreendedor? Pretende viver com o sucesso, a performance e a segunda dama de honor da Elite Model Look? Então visite o site da empresa na hora e perca um minuto a vasculhar a lista de firmas disponíveis. Aí encontrará, garanto-lhe, uma inesquecível Paelha d’Oportunidades.

O quinto império.


vidabreve,

O Pedro Lomba assina no Público uma bela análise das quatro dinastias do regime: os históricos (como Soares), os professores (como Cavaco), os discípulos (como Durão Barroso) e os chefes de partido (como o actual primeiro-ministro). Insatisfeito, ele propõe-nos uma nova dinastia, protagonizada por alguém que, depois dos manobristas partidários, seja representativo e reconhecido, não pelo partido, mas pela sociedade.

 

Concordo com tudo: o país carece de novos princípios de legitimação política. O problema são as malditas perguntas: quem representaria hoje essa quinta dinastia? Um empresário de sucesso, como em alguns regimes sul-americanos? Um sindicalista, como Lula? Um magnata da televisão, como Berlusconi? E de que modos chegariam ao poder? Criando um novo partido, como em Itália? Fazendo um take-over a uma ruína anunciada, como fez Paulo Portas? O primeiro caminho é lento, o segundo é pródigo nos manobrismos que o Pedro Lomba aborrece. O terceiro caminho imaginário — criar um grande homem a partir dos jornais — tropeça no triste exemplo do cilindrado António Borges: entradas de leão, saídas de sendeiro.

 

Resta-nos, como de costume, o Quinto Império: tempo, corrupção e decadência.

Dois retratos.


vidabreve,

 

 

No Público de hoje menciona-se seriamente (como o assunto merece) a possibilidade de demolir alguns estádios do Euro 2004. Numa outra página revela-se que o Alentejo obteve em 2009 os melhores resultados turísticos de sempre.

 

Não é difícil compreender o que se passou para chegarmos até aqui. De um lado houve um Governo de incapazes, que alinhou com alacridade numa estratégia de grandes eventos sem a integrar em qualquer visão do país. Do outro lado tivemos o trabalho sério de algumas câmaras que valorizaram os vinhos, a gastronomia, o ordenamento das cidades e até (como no caso de Montemor) a cultura, para criarem um produto de qualidade que agora (e agora é o momento) irão promover internacionalmente.

 

No Alentejo teremos uma nova Toscânia, em Portugal um atamancado Brasil. Uma coisa é certa: a implosão dos estádios será um belo símbolo do regime.

 

Nota posterior — no meu blog pessoal um comentador pergunta: "Não acha que as duas situações podem estar ligadas, sem que uma exclua necessariamente a outra? Ou seja, grandes eventos que elevam o perfil do país na arena internacional, e que depois favorecem o turismo noutras regiões?" A minha resposta: "não, porque nesse caso seriam as regiões com estádios de futebol as mais favorecidas."

Causas para 2010.


vidabreve,

Temo que a consagração do casamento entre pessoas do mesmo sexo provoque uma sensação de orfandade aos meus leitores da esquerda moderna. Agora que o Rubem e o Martim podem juntar os trapinhos, haverá nesse roupeiro cheio de Versaces, Cavallis e Gallianos alguma coisa por que ainda valha a pena lutar? Será a blogosfera de Sócrates forçada a deter-se em temas áridos, como o desemprego, a corrupção ou o défice? Numa palavra: nunca.

 

O mundo continua repleto de apelos galantes, que bramam pelo activismo das senhoras preparadas para cometerem o singular pecado de pensar. Inspirado pelos bons sentimentos desta quadra festiva, apresento-vos o meu conjunto de ideias para 2010.

 

Janeiro: legalização da eutanásia, adopção gay e casamento transgender, corte de relações diplomáticas com o Vaticano, referendo contra a Fox News, proibição dos rodeos e criação de cinco regiões administrativas. A parte das regiões é chata, mas trata-se de um dever patriótico. Em alternativa: acabar com o patriotismo.

 

Fevereiro: educação sexual no primeiro ciclo, com distribuição gratuita de preservativos, lubrificantes, masturbadores, coleiras, anéis vibratórios, lingerie comestível, algemas, correntes para mamilos, arneses e godemichets. As nossas crianças têm direito a uma sexualidade plena, vivida em profundo respeito pelas diferenças. Lançamento do Projecto Vasco da Gama, que levará às escolas o primeiro dildo totalmente fabricado em Portugal.

 

Em Fevereiro, nas mochilinhas deles.

 

 

 

Março: o Grande Festival da Primavera celebrará o naturismo, o vegetarianismo e o swinging num vasto conjunto de eventos que animarão a última semana do mês. Os titulares de cargos políticos, as magistraturas judiciais e os funcionários públicos serão encorajados a despir preconceitos e a estreitarem laços com colegas de ambos os sexos. Também os utentes poderão frequentar as instituições do Estado em pelota, tal como deus (um deus metafórico e tolerante) os trouxe ao mundo.

 

Abril: em Abril lutaremos por uma imprensa verdadeiramente livre, capaz de romper a canga infame do neoliberalismo. Será tempo de exigirmos que se reconheçam os esforços de uma esquerda actuante, progressista, e de denunciarmos quem se serve ilegitimamente da sua liberdade para promover campanhas de ataques pessoais, calúnias torpes e insinuações vis. A Fogueira das Vaidades, que brilhará no largo do Rato durante três dias, vai ser o ponto alto de uma iniciativa patrocinada pela PT, a que se associam desde já o Diário de Notícias, a TSF, a RTP e o Pedro Marques Lopes.

 

 

Brevemente no Correio da Manhã.

 

 

Maio: em Maio há eleições antecipadas.

“Flight into Egypt” (e feliz Natal).


vidabreve,

Mary prays: the fire soughs;

Joseph frowns into the blaze.

Too small to be fit to do a thing

But sleep, the infant is just sleeping.

 

Another day behind them now,

Its worries past. And the “ho ho ho!”

Of Herod who had sent his troops.

And the centuries a day closer too.

 

That night, as three, they were at peace.

Smoke like a retiring guest Slipped out the door.

There was one far-off

Heavy sigh from the mule. Or the ox.

 

The star looked in across the threshold.

The only one of them who could

Know the meaning of that

Was the infant. But he did not speak.

 

Joseph Brodsky (trad. Seamus Heaney).

 

 


vidabreve,

 

"… e quero que ponhas na ordem o Paulo, o Francisco, a Manela

 

e todos os meninos da oposição."

O triunfo do Tempo e do Desengano.


vidabreve,

Il trionfo del Tempo e del Disinganno. O título deste oratório de Handel foi atraiçoado em libretto nas várias versões. Houve quem lhe chamasse O triunfo do Tempo e da Verdade. Outros, menos optimistas, traduziram-no para O triunfo do Tempo e da Desilusão.

 

 

 

 

Desengano: verdade e desilusão. Nada mau, para um compositor com vinte e dois anos.

 

Adenda: afinal, descobri-o hoje após uma década de enganos, existem duas versões do mesmo oratório. Uma Verdade (ou uma Desilusão) que corrompe este raciocínio tão bonito. 

Como combater a exclusão.


vidabreve,

José António Saraiva, ainda jovem e garboso, quando comandava

os destinos do semanário Expresso.

 

 

Aqui, o pobre homem aguarda que o recebam no Centro de Reinserção Social

da sua área de residência.

 

José Antonio Saraiva foi convocado para um tête-à-tête na cave do Centro de Reinserção Social da Cartuxa em companhia de uma pessoa idónea, de preferência adulta. A coordenadora da equipa queria saber o que pensava ele do segredo de justiça, da violação desse segredo, da relação entre os jornalistas e as suas fontes e dos limites da liberdade de imprensa, entre outros assuntos cabeludos.

 

Em causa está o julgamento de vinte jornalistas por violação do segredo de justiça no processo Casa Pia. As aventuras do director do Sol são relatadas aqui, na página 78. O ministro Alberto Martins mantém por enquanto o silêncio fecundo e a pose de estadista.

A credibilidade.


vidabreve,

Na sexta-feira vivi um dilema ético interessante. Publicitei uma noticia assinada por Felícia Cabrita que acusava o primeiro-ministro de trocar de telemóvel no mesmo dia em que alguns arguidos do processo Face Oculta o fizeram e, algumas horas depois, dei igual destaque ao desmentido que o João Galamba formulou numa caixa de comentários do Delito de Opinião.

 

O Lutz interpretou este acto como a demonstração de uma preferência minha pelo João Galamba, o que é incorrecto. Atribuo tanto valor aos comentários do João como às notícias publicadas pelo semanário Sol. Perante afirmações contraditórias revelei ambas ao leitor, para que este formasse a sua opinião.

 

O que torna as pessoas credíveis? Em primeiro lugar o que exigimos delas, em segundo o que elas têm a perder. As responsabilidades que atribuímos a um político implicam um acto de fé na sua honradez, tal como a leitura de um semanário implica a crença na probidade daqueles que o compõem.

 

O João Galamba é um interlocutor credível, não por ser o Galamba mas porque é um deputado da nação. E a Felícia Cabrita é credível, apenas porque os seus artigos dimanam dos valores da imprensa livre corporizados pelo jornal que a emprega. São juízos apriorísticos, não uma consequência do bom carácter ou de um comportamento exemplar.

 

Quanto aos factos:

 

Embora acredite, tal como o Lutz, que o João é uma pessoa de bem, nada me sugere que Felícia Cabrita não o seja. E se me incomodam as omissões que o Lutz detecta nas notícias do Sol, também me perturbam os inúmeros silêncios, compensados por uma agressividade deslocada, que encontro no Jugular.

 

Quando a Felícia Cabrita sustentar melhor as suas notícias ou o João tiver um discurso com pés e cabeça sobre o abuso de poder e a corrupção em Portugal, eu resolvo o dilema. Mas este em nada altera a minha avaliação do primeiro-ministro, que esgotou há muito a credibilidade do seu cargo.