A esquerda fez outras contas? Então apresente-as.


vidabreve,

Vasco Pulido Valente propõe hoje uma dúzia de decisões para reagir à catástrofe que se aproxima. Algumas parecem-me justas, outras obrigatórias, outras são um insulto dirigido à classe média de um país que precisa de a fortalecer. Analisemos por partes.

1.º Reduzir o número de feriados. Quatro chegam: o Natal, o Ano Novo, o Dia de Portugal e a Sexta-feira Santa. […]

Concordo. Um mês de férias é mais que suficiente para uma pessoa honesta.

2.º Fechar empresas públicas: as que são inteiramente substituíveis (por exemplo, a EPUL e a RTP) e as que perdem dinheiro sem qualquer resultado relevante ou benéfico (a lista é infinita).

Concordo em parte. A EPUL perdeu a sua função social, se alguma vez a teve, e foi até há pouco dirigida por uma quadrilha de malfeitores. A RTP é um sorvedouro e continua a acumular prejuizos. O único serviço público que nos presta é o de levar ao colo as potestades do governo que lhe paga. Quem já trabalhou, como eu, com altos funcionários da casa reconhecerá sem esforço a sua criminosa incompetência. No entanto, discordo da anunciada privatização dos CTT, uma empresa lucrativa que presta um serviço público relevante.

3.º Fechar as fundações e pseudofundações que o Governo sustenta, quer directamente (ou seja, do centro), quer através das câmaras.

Concordo em princípio. As fundações devem ser criadas e sustentadas por privados. Seria útil que não se confundissem com agremiações de boys.

4.ºVender as propriedades do Estado que não servem um interesse nacional evidente (quartéis, prédios, matas, florestas, por aí fora).

Concordo com reservas. No caso das matas e florestas, por exemplo, há que assegurar a sua limpeza e manutenção em condições eficientes. Defendo uma avaliação casuística.

5.º Vender os submarinos e outro armamento inútil ou excessivo.

Concordo, a menos que me demonstrem a necessidade desta tralha aparatosa.

6.ºDemolir e vender o autódromo do Estoril, o autódromo do Algarve e meia dúzia de estádios deficitários, sem indemnização a particulares.

Concordo. O autódromo ainda não foi vendido? Devia. Quanto aos estádios, só falta implodi-los e seviciar quem os ergueu.

Isto ajuda, mas não chega. É preciso continuar. Com o seguinte: 1.ºSuspender imediatamente os grandes projectos (o novo aeroporto, oTGV, a TTT).

Concordo, por partes: nos últimos 3 anos houve uma redução do tráfego aéreo em Portugal que contrariou as previsões do Governo. Os defensores do novo aeroporto devem um esclarecimento ao país. Quanto ao TGV, não gosto deste argumentário — ainda não chegámos à República Dominicana. E no que respeita à terceira travessia sobre o Tejo, espero que o primeiro-ministro consiga oferecer-nos o esboço de um motivo para a defender. Já basta o que basta.

2.º Não construir um único quilómetro de auto-estrada.

Concordo. Portugal é dos países europeus com mais auto-estradas por habitante e densidade geográfica. O dr. Jorge Coelho que me perdoe, mas se calhar já chegam.

3.º Proibir a contratação de mais funcionários públicos.

Discordo. Estas boutades pomposas só ocorrem a quem ignora o que é a gestão de recursos humanos.

4.º Eliminar serviços sem objecto ou mesmo nocivos (por exemplo, o Instituto do Livro).

Concordo em parte. É uma afirmação excessivamente genérica, e desconheço o exemplo.

5.º Congelar as promoções no funcionalismo, pelo menos, durante 5 anos.

Discordo. É imbecil e inexequível. Provocaria uma revolta sem benefícios. 700 mil portugueses não são uma manada de vacas.

6.º Acabar com o chamado “subsídio de férias” (para subsídio, já bastam as férias pagas).

Discordo. O subsídio de férias é o que separa muitos dos nossos compatriotas da mais abjecta miséria.

7.º Pôr um limite legal à despesa do Estado.

Discordo. Os limites legais são um substituto cego do bom senso. Prefiro mecanismos como os que obrigam todas as propostas de aumento da despesa do Estado à menção das suas fontes de financiamento.

8.º Aumentar o IVA dois por cento.

Discordo. Porquê 2 por cento? Já agora 5. Isto é treta: qualquer decisão semelhante tem que ser justificada a partir das suas consequências económicas.

9.º Regular a banca estrita e rigorosamente.

Mais conversa de chacha. Estrita e rigorosamente não quer dizer coisa alguma. O VPV propõe o fim do sigilo bancário? A limitação dos vencimentos e prémios? A tributação do envio de fundos para off-shores à semelhança do que se faz em Espanha? Ou, como parece, deseja uma declaração de intenções sem qualquer efeito prático?

 

Concluo: a crise financeira tem o mérito de nos fazer reflectir no que é essencial e acessório no governo do Estado. A direita, manifestamente, já começou. Se a esquerda fez outras contas, deve apresentá-las. O país não tem tempo nem pachorra para mais generalidades ideológicas.

 

Nota: li o artigo, mas por pura preguiça roubei estas citações ao Eduardo Pitta.


vidabreve,

 

2550 A.C. Confrontado com uma praga de gafanhotos e com a maçadora volubilidade do Nilo,

o faraó decide estimular a procura interna.

Pela blogosfera.


vidabreve,

A culpa das nossas dificuldades é das agências de rating/do Guterres/dos especuladores internacionais. Agora, isto já só lá vai com mais investimento público/mais cortes na despesa.

 

Em qualquer caso, a Alemanha devia pagar-nos.

Resumo.


vidabreve,

Aqui no salão estamos tod@s contentes.
O Névoa safou-se, o Rui Pedro calou-se
e já há sapatinhos Bottega Lasanha.

 

@s noss@s amig@s estão em liberdade,
Foi-se o Cravinho e a bruxa da verdade.
Quer preservativos, sua santidade?

 

O Névoa safou-se, o Rui Pedro calou-se,
e há sapatinhos Bottega Lasanha.

 

As greves passam-nos ao lado,
O Pacheco ainda ladra, coitado.
O chefe anda um pouco agastado.

 

Mas o Névoa safou-se, o Rui Pedro calou-se,
e já há sapatinhos Bottega Lasanha.

Eureka.


vidabreve,

Vi há pouco a entrevista de Passos Coelho a Sousa Tavares. Afinal o homem tem uma estratégia para Portugal, e é fácil resumi-la:

  1. Tirar ao Estado para dar aos ricos.
  2. Tirar aos empregados para dar aos patrões.

O apelo aos impostos indirectos e ao controlo das prestações sociais, uma outra forma de esclavagismo, será acolhido com o atraso do costume pelo país exangue. Sócrates, em campanha, vai defender os pobrezinhos.

 

Queriam uma alternativa? Embrulhem.

O novo Sá Carneiro.


vidabreve,

De repente, a pátria extasiada sensibiliza-se com Passos Coelho. Dizem que ofertou umas amabilidades a Capucho, umas galantarias a Cavaco, umas prebendas a Aguiar, umas sinecuras a Rangel. Em vez de humilhar com gosto a canzoada da doutora Manuela, ele tragou a eito o espesso cálice da reconciliação. Isto, no PSD, é sinal de uma inteligência portentosa.

 

Nem o frete de Menezes, nem o enguiço de Jardim, nem a carcaça ensanguentada de Pacheco Pereira fazem salivar o pagode: lá ao fundo bruxuleia a esperança; e a esperança, como sabemos, é o archote imorredouro da vitória. Agora, juram-nos, o PSD quer ser Governo.

 

E para que diabo quer o PSD ser Governo? Para levar o fado ao Bairro Alto e o copo de três à Madragoa? Para instalar o Rock in Rio em Gaia? Para promover torneios de sueca ou dignificar a Eurovisão?

 

O PSD quer ser Governo para fazer umas cenas — e esta alternativa amável à década e meia em que o PSD quis ser uma sucursal dos Tonton Macoute para cortar cabeças e expor os ministros de Cavaco Silva às tentações da alta finança, por si só, devia encantar o povoléu.

 

Nos gabinetes da Santana à Lapa já se murmura como nos idos de 85: o Pedrito é o novo Sá Carneiro. Gosta da bisca, mas é o novo Sá Carneiro. Não tem ideologia, mas é o novo Sá Carneiro. Não sabe o que quer para nós, mas sabe o que quer para ele: quer ser o novo Sá Carneiro.

Trabalhar


vidabreve,

O Henrique Raposo escreve que

Os portugueses trabalham 38.8 horas por semana, quando a média europeia é de 40. Os portugueses colocaram Portugal a crescer apenas 1,45% (entre 2004 e 2007), enquanto que a média europeia de crescimento foi de 2,63%. Mas, apesar disto, os portugueses receberam um aumento real de salários de 3,9%, enquanto que o aumento real na Europa foi só de 2,1%.

Embora respeite as estatísticas que nos cita, creio que já podíamos ultrapassar a mecânica recorrente destes argumentos. É sempre idêntica: alguém à direita recorda que os portugueses trabalham pouco, e invectiva os direitos adquiridos. Alguém à esquerda retorque que os nossos gestores são os mais ineptos do mundo civilizado e que, apesar dos direitos adquiridos, este ainda é o país com mais desigualdades na distribuição da riqueza.

 

Em compensação, falta quem diga o seguinte:

 

O Estado e o seu sector empresarial não podem ter a cargo o grosso dos nossos trabalhadores qualificados, a menos que o país queira uma economia socializada. Se o país não a quiser, estas pessoas têm que ser colocadas nas empresas — ou encorajadas a formar empresas. A única maneira de fazer isso é por despedimento.

 

Os trabalhadores do Estado não ganham mais do que deviam; pelo contrário, ganham menos porque são comparativamente mais qualificados. Qualquer reforma do Estado eficaz, além da razia, tem que incluir um aumento dos salários da função pública.

 

Um Estado pequeno, com funcionários bem pagos, sob a vigilância de uma opinião pública mais educada. Um economia aberta, reanimada por gente com qualificações superiores à média nacional.

 

Era uma boa ideia. Mas nem a esquerda nem a direita, por razões diferentes, estão para aí viradas.

Do relativismo.


vidabreve,

O deputado João Galamba divulgou no Jugular um colorido discurso da brasileira Cidinha Campos contra aqueles que mamam. Felizmente, cá em Portugal não temos necessidade de tais vociferações. Ricardo Rodrigues, o homem a quem o PS encarregou em debates parlamentares de liderar uma dura batalha contra a corrupção, já esteve envolvido num gang internacional. O João Galamba deve reconhecer que os privilégios da experiência, assinalável entre alguns colegas de bancada, permitirão ao partido que o acolheu debelar este flagelo com outra serenidade.

Calma, Cravinho.


vidabreve,

Para o ex-ministro socialista João Cravinho, “a corrupção política é o principal problema do país” e “está à solta”. “O governo tem uma estratégia explícita, apresentada publicamente, aprovada na Assembleia da República? Não tem. Não bate a bota com a perdigota. Isto é tentar vazar o oceano da corrupção para uma selha rota. Aqui radica o problema fundamental de vontade política e de coerência na luta contra a corrupção”.

Se anda à solta é para benefício do povo. Volta ao banco, e está caladinho.

O horror.


vidabreve,

Portugal descobriu a pedofilia a 23 de Setembro de 2002. Nesse ano a opinião pública concluiu subitamente que era um crime hediondo e repugnante aquilo que antigamente lhe parecia uma conquista singela da ascensão social.

 

Durante toda a minha adolescência, e uma boa parte da idade adulta, não desconhecia que no parque Eduardo VII alguns meninos pobres trocavam favores com senhores importantes. Lisboa inteira tratava pelo petit nom deputados e ministros que divagavam à noite entre as alamedas frondosas, aspirando o perfume vivificante das acácias.

 

Quem travou amizades na mailing list do circuito Lux-Frágil pôde discorrer entre vodkas-tónicos sobre as orgias homossexuais de um figurão das noites Lisboetas — eventos cuidadosamente encenados, dizia-se, em que os mais jovens não iam para a cama com o Vitinho.

 

Fora de Lisboa o fenómeno tinha outro bucolismo: o pai chegava bêbado a casa, dava um sopapo na mulher e uma pinocada na filha. Na manhã seguinte esta ia guardar cabras, como de costume, e aos treze anos dava o salto para França com o irmãozinho nos braços.

 

Agora, em 2010, a Igreja assume que encobriu a pedofilia.

 

Dizem que leva umas décadas de atraso. Pois leva. Mas não é a única, nem somos todos parvos.

Louçã e a Fitch.


vidabreve,

Vi ontem a reacção de Francisco Louçã ao aumento do risco da dívida portuguesa de longo prazo proposto pela Fitch. Não recordo as suas palavras exactas, mas julgo que não erro ao resumir assim o argumentário do dirigente do Bloco de Esquerda: a Fitch não tem autoridade para avaliar o risco da nossa dívida, pois já se enganou antes e nada nos diz que não se engane outra vez. Por isso, devemos desvalorizar as avaliações das agências de rating internacionais.

 

Aqui reencontramos o velho esqueleto no armário da vida política nacional: wishful thinking. Louçã gostaria que aquelas empresas não tivessem autoridade, e desejaria que as suas avaliações pudessem ser depreciadas por quem nos empresta dinheiro. Mas não são.

 

O Bloco tem o direito de combater a influência das agências de rating, mas não pode honestamente ignorá-la. Quer Louçã goste ou não goste, quer reconheça ou deixe de reconhecer, os juros da nossa dívida vão subir. Isto é um dado objectivo que não desaparece num manto de palavreado moralista.

Tudo na mesma, Alzirinha.


vidabreve,

Uma semana nos souks dá para horas e horas de actualização blogosférica. Eis algumas pérolas:

 

João Pinto e Castro explica aos mortais o que é uma empresa pública.

 

João Gonçalves revela-nos as pulsões da extrema-direita israelita. Isto tem que ser dito, mesmo que as virgens não gostem.

 

Francisco José Viegas resume o que pensam os portugueses da asfixia democrática.

 

O debate sobre o PEC surpreende-me: nunca esperei que o PS ainda fosse capaz de tanta finura, tanta sofisticação. Os posts seleccionados pelo Pedro Correia exibem um partido que se despede lentamente do seu líder através do combate ideológico, como lhe compete. O Eduardo Pitta aguarda esclarecimentos que não chegam.

 

Enquanto isso, Sócrates esperneia em Braga com modos de porteira e o PSD prossegue a sua longa, penosa, inelutável marcha para a dissipação.

 

Passos Coelho ou Rangel — who cares?

A entrevista


vidabreve,

Na minha meninice devorei os romances de Harold Robbins: nessas narrativas corajosas, em palavras duras, os protagonistas ficavam multimilionários e conduziam bólides nas 24 Horas Le Mans. Mal sabia o dr Pais do Amaral que anos depois cumpriria as aspirações de uma criança intoxicada por má literatura.

 

O que me agradava sobremaneira nas aventuras dos canalhas mais ricos do mundo era a exibição das suas acrobacias eróticas: esses homens, leitor, tinham falos, e esses falos, leitor, só conheciam dois estados — ou estavam erectos ou, hélas, entumescidos. Pontualmente também os encontrávamos rijos, túrgidos, e até mesmo, se a memória não me falha, tumefactos — mas nunca, nunca por amor de deus se achavam moles, tenros, frouxos, indolentes ou descaídos.

 

Recordo um capítulo em particular, no qual o protagonista fodia uma groupie platinada com mamas grandes e botas à cowgirl no jacuzzi de uma penthouse com vista para o rio Hudson — se não foi isto, perdoem a liberdade poética. Pouco antes do orgasmo a mulher gritava com arrebatamento:

 

— Ben, tu és o maior!

 

E ele responde, entre duas bombadinhas:

 

— Obrigado, Mandy.

 

E ela retorque, triunfante:

 

— Eu não sou a Mandy, sou a Sandy. Mas podes chamar-me o que quiseres, desde que continues a foder.

 

Ao assistir à entrevista de José Sócrates na semana passada compreendi finalmente a natureza da relação entre os portugueses e o primeiro-ministro: ele pode dizer o que quiser, desde que continue a fodê-los.