A entrevista


vidabreve,

Na minha meninice devorei os romances de Harold Robbins: nessas narrativas corajosas, em palavras duras, os protagonistas ficavam multimilionários e conduziam bólides nas 24 Horas Le Mans. Mal sabia o dr Pais do Amaral que anos depois cumpriria as aspirações de uma criança intoxicada por má literatura.

 

O que me agradava sobremaneira nas aventuras dos canalhas mais ricos do mundo era a exibição das suas acrobacias eróticas: esses homens, leitor, tinham falos, e esses falos, leitor, só conheciam dois estados — ou estavam erectos ou, hélas, entumescidos. Pontualmente também os encontrávamos rijos, túrgidos, e até mesmo, se a memória não me falha, tumefactos — mas nunca, nunca por amor de deus se achavam moles, tenros, frouxos, indolentes ou descaídos.

 

Recordo um capítulo em particular, no qual o protagonista fodia uma groupie platinada com mamas grandes e botas à cowgirl no jacuzzi de uma penthouse com vista para o rio Hudson — se não foi isto, perdoem a liberdade poética. Pouco antes do orgasmo a mulher gritava com arrebatamento:

 

— Ben, tu és o maior!

 

E ele responde, entre duas bombadinhas:

 

— Obrigado, Mandy.

 

E ela retorque, triunfante:

 

— Eu não sou a Mandy, sou a Sandy. Mas podes chamar-me o que quiseres, desde que continues a foder.

 

Ao assistir à entrevista de José Sócrates na semana passada compreendi finalmente a natureza da relação entre os portugueses e o primeiro-ministro: ele pode dizer o que quiser, desde que continue a fodê-los.

62 comentários em “A entrevista”

  1. Infelizmente, Luís, a melhor imagem para metaforizar Portugal não é o jacuzzi de uma penthouse com vista para o rio Hudson. Mas reconheça-se-lhe: o PM é muito pujante – ou toma viagra -, porque não para de foder.

        1. Dava para perceber, mas mesmo assim fico mais descansada com o seu esclarecimento. Porque se fosse em sentido literal, saaaaaafa! Par Toutatis 🙂

          1. Conhece aquele dito popular que mete presunção e água benta? Pois bem: compenso a escassez duma com, porventura, algum excesso da outra.

      1. …”de la France” e não só… Do resto do mundo inteiro também, pois parece que as queixas já chegam de todo o lado.

  2. Sem pôr de lado a liberdade literária do ‘post’, Luís, só me ocorre parafrasear uma rapariga rural içada à ‘glória’ efémera de protanonista do Big Brother (que Harold Robbins não desdenharia): “fosga-se”!

        1. … pois…, além do mais, também consta que não tinha nenhuma licenciatura em ‘Português técnico’, o que é sempre da maior utilidade.

  3. Um texto curto e grosso, Luís, como se impõe quando a metáfora é o Harold Robbins (que também li, confesso, quando esse tipo de leituras me era interdito). Mas o mais curioso é a coincidência de a entrevista de Sócrates ter sido, também para ti, uma revelação.

  4. Registo que hoje se virou uma página aqui no DO. A partir de agora sempre que um comentador entender dar vazão ao seu variado vernáculo para melhor expressar o que lhe vai na alma, terá aqui certamente uma porta aberta que o acolherá carinhosamente. Pensava eu aqui com os meus botões, que determinada terminologia deveria estar confinada aos blogues individuais. Tontice a minha, afinal ainda tenho muito, muito que aprender…

        1. Pois, logo agora que isto tinha ganho uma “vida nova”…

          Há quem diga que às vezes é bom perder a pose.
          Pois eu sou mais da opinião, que às vezes é necessário ter alguma pose.

      1. Caro Luís, não fui à manifestação da família, porque tenho o hábito de só me juntar com gente que respeita integralmente a liberdade individual de cada um poder foder com quiser, em duo, em trio só com gajos só gajas, à arrecuas em pé ou à canzana e o que a imaginação a vontade e a oportunidade determinar, e que tem mais que fazer na vida do que andar a espiolhar as cuecas do vizinho. Estamos esclarecidos?

          1. Caro Carlos Azevedo, muita simpatia a sua. Irei ler com mais vagar os argumentos que defendeu no mar salgado, mas pelo que me apercebi de uma leitura rápida, estamos completamente sintonizados .
            🙂

  5. Por favor, não parem. Continuem.

    Já o disse uma vez e repito: há caixinhas de comentários no DO que valem um guião humorístico com sucesso garantido. Esta é uma delas.
    O que eu me rio aqui. Obrigada:))

      1. Eu não tenho a certeza disso, João…O Luís M. Jorge esteve ausente por uns tempos – ganhou fôlego e regressou em grande forma :))
        (Pronto, já me atrevi)

  6. Thumbs up!!
    Melhor que o “fuck you” (a ler com pronúncia madeirense) do Joe Berardo, só o “fuck you” (a ler com pronúncia de inglês técnico) do Sócrates.

  7. Fodendo durante a…

    Neste planeta tão fodido,
    fodido miseravelmente,
    mesmo sem fazer o pedido
    há quem foda a nossa mente.

    São viciados a foder
    sem pedir autorização
    ficando por compreender
    tal falta de educação!

    (com o respectivo “link” no meu blogue)

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