Valeu a pena?


vidabreve,

Temos hoje uma classe política corrupta, um governo autoritário, 600 mil desempregados, menos imprensa livre, educação medíocre, justiça lenta, saúde para alguns, mais impostos e um Estado arruinado. E o povo, prosperou? O Eurostat diz que não: Portugal e Malta são os únicos países que, com um PIB per capita inferior à média europeia em 1998, se afastaram desta média até 2009. Ou seja: os outros convergiram, Portugal divergiu. Os números estão aqui. O Jorge Costa comenta-os.

 

É este o balanço que interessa fazer do Governo de Sócrates. Ainda acha que valeu a pena?

Ao pó.


vidabreve,

Ninguém sabia onde repousava a carcaça do imortal escritor. O cenotáfio do panteão, em mármore rosa e letras douradas, continha um maço de poemas de amor legado pela viúva inconsolável à pátria que não o merecia. Sussurava-se que duas tíbias esquerdas, certificadas, originaram uma década de contendas judiciais entre a curadora de um museu municipal e o presidente da fundação registada em seu nome. “Bandido”, “falsária”, “sabujo” eram alguns dos termos que ornamentavam os autos.

 

Um grupo de estudiosos proclamava que o vulto não fora tocado pelos vermes, e que o seu corpo jazia intacto no anexo de uma sede partidária. Outros invocavam os periódicos coevos, truncados, debotados, para proporem que, não se encontrando os ossos, era imperioso que lhe buscassem as cinzas. Este assunto gerou um longo debate sobre os ritos funéreos do século XXI.

O horror, o apocalipse, o fim do jornalismo.


vidabreve,

 

Daniel Oliveira, sempre preocupado com a eficácia dos modelos de negócio capitalistas, denuncia uma função do novo browser da Apple que detecta e apaga os anúncios nas páginas de internet. Afirma ele que essa funcionalidade é uma tragédia. E explica-nos porquê: em resumo, porque a sobrevivência do jornalismo de qualidade, assolado pela crise dos media tradicionais, exige dinheiro. E esse dinheiro, enquanto o vulto amável do Dr. Louçã não ornamentar as tertúlias semanais do Conselho de Ministros, depende — vejam só — do mercado publicitário.  Ou seja, sem mercado não há batatinhas. Acabam-se os jornais de referência e restarão apenas o 24 horas, o Metro e o Destak.

 

Só lhe faltava agradecer ao eng. Belmiro a generosidade extremosa com que suportou, durante duas décadas, os prejuízos de um jornal de referência nessa associação de almas beneméritas que é o grupo Sonae, mas o Daniel não vai por aí.  Em vez disso, ele intima-nos a escolher:

Está na altura dos leitores dizerem que preferem a publicidade nos seus computadores ao fim do jornalismo. (…) Sem imprensa profissional e livre – e para ser livre tem de ser sustentável – não há democracia.

Ó gente ignara, ouvi o Daniel e comprai os jornais do grupo Lena, do Joaquim Oliveira e do Balsemão. Ou, pelo menos, não desdenheis os banners do SAPO, os anúncios da PT. Mortificai-vos, porque sem publicidade não há democracia.

 

Ou haverá?

 

Nos Estados Unidos, país em que, desgraçadamente, nenhuma organização trotskista protege as grandes empresas de media tradicionais, foi criado nos idos de 1999 um produto chamado TIVO, que devolveu anos de vida a milhões de lares. O TIVO permite às famílias verem televisão sem se maçarem com anúncios.

 

Apesar dos protestos das corporações e dos media tradicionais, esses estandartes da democracia, um velho canal de TV por cabo conseguiu prosperar: a HBO. Com séries de grande qualidade (Os Sopranos, O Sexo e a Cidade, Six Feet Under) e orçamento a condizer, a HBO demonstrou urbi et orbi que, embora o dinheiro nos faça falta, a publicidade é dispensável.

 

Em síntese —  os media não precisam de anúncios, precisam de criatividade.

 

E quanto à esquerda portuguesa, que podemos concluir? Que quer a revolução, mas é incapaz de aceitar uma mudança.

Sem confusões.


vidabreve,

Entre os opositores do nazismo encontravam-se, para além de comunistas, inúmeros combatentes pela liberdade. Reparem na diferença: comunismo e liberdade. Sectários como o Renato Teixeira envergonham os cidadãos de boa fé que se comovem com os abusos de poder do governo de Israel. Envergonham mas não manipulam. Não serei eu a escolher entre as imagens de crianças mortas em raids aéreos ou os restos mortais de crianças enviadas com bombas à ilharga para dentro de um autocarro pelo Hamas. Para mim o Renato é um canalha, ainda que leia os livros que eu recomendo. Podemos ler o Fisk, a Bíblia, ou o Corão de muitas maneiras.

A guerra pela sensatez.


vidabreve,

 

Robert Fisk é correspondente estrangeiro no Médio Oriente desde 1976. Cobriu todos os conflitos na região, conheceu todos os protagonistas. Para quem se enjoa de confundir estes assuntos com um derby entre os diabos vermelhos e os super dragões, ou de ler os sobredotados da blogosfera portuguesa, são 1200 páginas obrigatórias.

Há um modelo social para Portugal? (1)


vidabreve,

Em novembro de 2005, Andre Sapir, professor da Universidade Livre de Bruxelas, analisou o conceito de modelo social europeu e apelou à sua renovação num documento que podem consultar aqui. O desafio foi suficientemente interessante para merecer destaque na imprensa económica internacional.

 

O autor começa por invocar os riscos e as oportunidades da globalização, e refuta os que defendem a existência de um modelo social indiferenciado nos países do mercado único. Para Sapir, existem quatro modelos sociais europeus, que ele hierarquiza por critérios de eficiência e equidade:

  1. modelo nórdico (Suécia, Holanda, etc.) garante os níveis mais elevados de protecção social, forte correcção fiscal dos rendimentos do trabalho e sindicatos poderosos que asseguram baixa desigualdade.
  2. modelo anglo-saxónico (GB, Irlanda). Com transferências sociais amplas, mas de último recurso, concentradas na população em idade activa, e incentivos à obtenção de emprego. Sindicatos fracos, disparidades na distribuição da riqueza e uma incidência relativamente alta de baixos ordenados.
  3. modelo continental (Alemanha, França, etc.). Segurança social extensa, focada nas pensões. Sindicatos fortes, mas em declínio.
  4. modelo mediterrânico (Itália, Espanha, etc). Concentra as despesas sociais nas pensões. A legislação desencoraja os despedimentos. Proliferação de reformas antecipadas.

Quanto à eficiência de cada um:

  1. O modelo mediterrânico, caracterizado, por altos níveis de desemprego e alto risco de pobreza, não garante eficiência nem equidade.
  2. O modelo continental, com alto desemprego e baixo risco de pobreza, garante equidade mas não é eficiente.
  3. O modelo anglo-saxónico, com desemprego baixo e risco de pobreza alto, não garante a equidade mas é eficiente.
  4. O modelo nórdico, com desemprego baixo e risco de pobreza baixo, satisfaz ambos os critérios.

Uma nota importante: o autor afirma que a equidade exige carga fiscal elevada, mas assegura que esta não prejudica a eficiência do modelo, como se comprova pelos exemplos escandinavos.

 

Para começo de conversa, fiquemos por aqui.

Fausto no Mah-Jong, Mefisto na Mota-Engil.


vidabreve,

 

(A tragédia que ides ler foi inspirada por esta graciosa homenagem).

 

Fausto:

 

O estudo das leis não me consola,
e a física não cura a peste,
a necromancia é a minha escola —
vou chamar Belzebu, invocarei o mestre:

 

Sint mihi dii Acherontis propitii.
Inferni ardentis monarcha propitiamus
vos, ut appareat et surgat
Mephistophilis!*

 

Mefisto:

 

Chamaste-me, lindeza?

 

Fausto:

 

És mesmo o diabo? Tens a certeza?

 

Mefisto:

 

Não vês o fatinho Gucci, o ar determinado?
Faço jogging de manhã e tenho casa no Chiado.

 

Fausto:


Estou farto de alfarrábios,
a ciência é uma chachada —
quero casar com o meu amigo,
e boda na Mealhada.

 

Mefisto:

 

Entrega-me a tua alma,
vem comigo pró Inferno —
onde a vizinhança é calma
e o socialismo é moderno.

 

Fausto:

 

Se me deres o contrato
farei um pacto contigo:
nenhum capricho te nego,
com ânimo estarei cativo.

 

Mefisto:

 

O meu comando é amável,
vou ser um pai para ti —
apenas te obrigarei a ler
o intragável Valupi.

 

Fausto:

 

Faz com que o Ricardão me ame —
toma lá dois pêlos púbicos.

 

Mefisto:

 

E reconhecerás a urgência
dos grandes investimentos públicos?

 

Fausto:

 

Quero ser levada ao altar com vestido de organdi!

 

Mefisto:

 

E não me dás cabo da cabeça quando comprar a TVI?

 

Fausto:

 

Já convidei a Io Apoloni e a duquesa de Guermantes.

 

Mefisto:

 

Divulgarei o teu copo d’água no estaminé dos Abrantes.

 

Fausto:

 

Então vá, que estou com pressa — hoje há sarau no Trumps.

 

Mefisto:

 

Com os leitores serei clemente

porque esta tragédia vai longa:
assina sem mais delonga —

passemos ao finalmente.

 

Fausto:

 

Isso, isso, vamos ao Finalmente!

 

Saem @s du@s.

* Roubado ao Christopher Marlowe. O corcel é do Delacroix.

Declínio e queda (I).


vidabreve,

1. Ricardo Rodrigues, o deputado ladrão, espera que o Ministério Público tome providências contra Pacheco Pereira.

2. O Miguel Abrantes encanita-se com Belmiro de Azevedo: quando o povo tem fome, tem direito a roubar defendeu ontem o patrão da Sonae. Comprendo bem a irritação do Miguel: todos sabemos que o povo, antes de roubar em liberdade, deve fazer parte do grupo parlamentar do Partido Socialista.

Scrabble.


vidabreve,

 

Nota: Todas as palavras foram extraídas do soneto Tanto do meu estado me acho incerto, de Camões. Julguei que o exercício pudesse ter alguma qualidade poética, mas duvido. Fica a ideia, aparentemente original.

O príncipe


vidabreve,

Sempre soubemos, mas vemos hoje de forma muito mais aterrorizante que a maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado da Igreja. (…) Os ataques contra a Igreja e o Papa não vêm somente de fora, os sofrimentos vêm de dentro da Igreja, do pecado que existe na Igreja. (…) A Igreja tem uma profunda necessidade de aprender o perdão e também a necessidade de justiça (..) o perdão não substitui a justiça.

Ratzinger, sempre fascinante, desmente quem lhe chama retrógrado. Pelo contrário, é a vanguarda de uma igreja em que a inteligência se esvai, de uma gente embrutecida que não o merece. E veio este homem a Portugal.

Estado da nação, 2.


vidabreve,

No momento em que escrevo, sete canais da televisão portuguesa, sete, incluindo a RTPN, a Sic Notícias e a TVI24 transmitem em simultâneo os convocados para uma porcaria qualquer. Um palerma acaba de revelar-me que, à semelhança de todos os portugueses, devo estar com o seleccionador nacional.

É preciso confiança, e tal.


vidabreve,

Dois artigos fundamentais.

 

1. Adam Tooze explica a Alemanha aos maniqueístas de ocasião. O texto inclui uma análise dos anacronismos financeiros da senhora Merkel, mas também das reformas profundas que o país iniciou enquanto andávamos a ganhar o futuro. Pior, revela-nos problemas fiscais graves de âmbito estadual. O autor ensina História em Yale.

 

2. Martin Wolf, que acerta sempre, diz que o financiamento da dívida grega é só o começo da conversa:

Greece is being asked to do what Latin America did in the 1980s. That led to a lost decade, the beneficiaries being foreign creditors. (…) This package will surely fail to return Greece to the market, on manageable terms, in a few years. More money will be needed if debt restructuring is unwisely ruled out.

O resto é ainda mais sombrio.

 

E agora pense — pense com muita força no aeroporto, na ponte, nas auto-estradas, no TGV. Imagine-se a percorrer a Estremadura, uma brisa doce acariciando as searas, a beber orchatas de chufa enquanto a fronteira, lá ao fundo, se esbate num risco violáceo. Você está na Classe Conforto, o país vai bem, o futuro é sorridente — e a Paloma ou a Perla ou a Consuelo acaricia a barriga enquanto aguarda o fruto varão das suas incursões ibéricas.

 

Talvez resulte.

O coelhinho.


vidabreve,

 

Enquanto o professor César das Neves brandia o Velho Testamento para exorcizar decotes na Católica, as mulheres portuguesas tratavam da vida com a sensatez habitual.

 

Cronologia: no Sexo e a Cidade, Miranda oferece um exemplar à sua amiga Charlotte. Esta é assolada por transportes infinitos, começa a viver em reclusão espasmódica e telefona para a Maria, para a Nova Gente e para todo o corpo redactorial da revista Happy. O assunto anima os boudoirs da capital e alastra a meia parvónia com a celeridade de uma divisão panzer. As Cátias e as Carinas não largam a internet. O comércio electrónico envia embalagens cartonadas sem remetente aos confins do Rebordelo e às palhotas de Miranda do Douro. The Rabbit vende tanto como the Rubik.

 

Tudo isto se fez nas vossas barbas, amigos, e agora é tarde demais: não lessem tantos blogues.

 

Aos cavalheiros que se abespinham com o PEC até de madrugada e suspiram pelas gravatas pastel de Pedro Passos Coelho, recordo o sábio aviso da tia de Birre: lá em casa fode-se às quartas — quem está, está; quem não está, estivesse.