Ao pó.


vidabreve,

Ninguém sabia onde repousava a carcaça do imortal escritor. O cenotáfio do panteão, em mármore rosa e letras douradas, continha um maço de poemas de amor legado pela viúva inconsolável à pátria que não o merecia. Sussurava-se que duas tíbias esquerdas, certificadas, originaram uma década de contendas judiciais entre a curadora de um museu municipal e o presidente da fundação registada em seu nome. “Bandido”, “falsária”, “sabujo” eram alguns dos termos que ornamentavam os autos.

 

Um grupo de estudiosos proclamava que o vulto não fora tocado pelos vermes, e que o seu corpo jazia intacto no anexo de uma sede partidária. Outros invocavam os periódicos coevos, truncados, debotados, para proporem que, não se encontrando os ossos, era imperioso que lhe buscassem as cinzas. Este assunto gerou um longo debate sobre os ritos funéreos do século XXI.

14 comentários em “Ao pó.”

    1. Só que assino com o meu nome. Ao contrário de tantos idiotas que gostam de gente “frontal e polémica” mas tentam insultar-nos no anonimato. Deve ser outro fenómeno português, esse das ratazanas.

          1. A palavra é “olhasse”. E V. deve ter roubado esse pseudónimo (?) a um personagem pacífico que costumava aparecer por aqui de vez em quando.
            Pode seguir pelo caminho de onde veio.

  1. A novela das cinzas foi a coisa mais deliciosa que ocorreu nestes dias. Nunca liguei pevide ao Saramago, que era um chato de galochas, mas ver as sumidades locais a esgadanharem-se pelos seus restos, com o Louçã de dedinho em riste e o Cavaco a assobiar para o lado, é pura poesia.

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