Os anos dourados.


vidabreve,

Estes são os melhores anos de Portugal. Não temos ilusões e está tudo por fazer. Nada esperamos da Europa, das obras públicas ou da canalha que nos prometeu o céu. A geração de filhos da puta que despejou um balde de merda nesta década perdida acabou. Pode ir para casa comer tofu, porque acabou. Pode ir a Londres comprar sapatinhos Miu Miu e beber Sauvignon Blanc, porque acabou.

 

Estes são os melhores anos de Portugal, os nossos anos dourados. Os velhos ainda berram por Salazar, os destroços de 68 ainda querem revolução — mas o rasto de perfumes caros desvaneceu-se, as putas calam-se e os cabrões devoram os filhos.

 

Os que saírem dos escombros desta merda, os que limparem a merda desta gente, os que cuspirem nesta gente de merda serão melhores do que somos. Por isso estes são os nossos melhores anos, os nossos anos dourados.

 

As putas calam-se e os cabrões despedem-se ruidosamente. Estão mortos e ainda não sabem.

Sim, sim.


vidabreve,

A receita e a despesa, e tal. Mas este PSD tem que deixar passar o orçamento: se até ontem tinha margem de manobra, hoje já não a tem. A lindeza que prepare as lágrimas, o copo de água e o batráquio.

Isto vai lá.


vidabreve,

 

Cinco anos e meio de governos PS, de decadência económica, de autoritarismo tacanho, de negociatas impudicas, de demagogia saloia, seriam um colírio para qualquer grande partido da oposição. Mas, chamar partido ao PSD é uma clara desmesura.

O senhor televisão.


vidabreve,

Os nossos comentadores, insatisfeitos com o julgamento dos pedófilos da Casa Pia, querem agora acalmar as suas inquietações no Prós e Contras, em sites com filmes proibidos e na doce ruminação das conferências de imprensa.

 

É fácil desqualificar um veredicto, em especial se tiver duas mil páginas que ninguém leu. Há sempre pormenores suspeitos, merdas infundadas, contradições fulgurantes.

 

A justiça é complexa? Felizmente a televisão é simples. Carlos Cruz, como peixe na água,  agradece-nos.

Armindo.


vidabreve,

Nota: em Janeiro de 2006 publiquei no Franco Atirador o retrato de um pedófilo. O processo Casa Pia ocupava todas as manchetes, Cavaco Silva percorria o país em campanha eleitoral.  Aqui fica, para edificação dos leitores.

Um metro e setenta, oitenta e três quilos, quarenta e oito anos, bacharelato em económicas, casado, um filho de dezanove e uma filha de vinte e quatro anos, apartamento de cinco divisões em Benfica, BMW Série 3, segunda casa perto de Leiria. Armindo é sócio do SLB e frequentador do café “Arabesco”. Há um grupo de amigos no bairro, com quem vai ocasionalmente ao futebol. A mulher é professora primária, os filhos estudam arquitectura e comunicação social.

 

Armindo tem uma pequena empresa de contabilidade, no Conde Redondo. Uma ou duas vezes por semana fica a trabalhar até tarde, e no final de cada trimestre perde um domingo. Já acompanhou clientes ao Elefante Branco e ao Gallery, mas nunca consumiu – com excepção de uma preta que lhe custou cem contos em moeda antiga, mas foi a foda do século, com direito aos três pratos, embora sem recibo. Tem alguma pena que as putas não façam retenção na fonte, pois poderiam pagar-lhe em géneros.

 

Nas noites em que fazia serão acontecia-lhe passar com certo alheamento pelo Parque Eduardo VII, onde metia no carro o Raúl, quando estava livre, ou o pequeno Bernardo, que tinha nome de beto mas era do Casal Ventoso – embora as feições trigueiras e o cabelo à surfista não desmerecessem a baía de Cascais. Preferia o Raúl, porque era mais velhinho: como contabilista não lhe convinha ser acusado de cometer ilegalidades, já bastava o que bastava. Nessa altura ficou a saber muito da vida dos deputados e dos ministros.

 

Quando começou o processo Casa Pia, deixou-se de aventuras. Não acreditava que os miúdos se traumatizavam por causa de uma mamada – mas cautela e caldos de galinha, como dizia a sua mãe. Agora fica pelo Conde Redondo e guarda o telemóvel de dois ou três travestis a quem dá umas pinocadas quando lhe apetece. No fim de contas, são umas boas enrabadelas, sempre com preservativo (elas exigem!) e de costas viradas para a parede, pois nunca gostou de paneleiragens. É católico não praticante, alinha com o PSD e diz que vota em Cavaco Silva, para pôr na ordem esta bandalheira.

Rentrée.


vidabreve,

Sócrates, refeito por umas férias em hotel de cinco estrelas, perna laroca, leituras elevadas, duche Vichy com exfoliação e óleos aromáticos, comove-se com as novas vítimas do estado social: Alegre fez-se triste, Cavaco está no papo, Portas, como sempre, pôs-se a jeito, Louçã, sossegadinho, medita no engulho das presidenciais.

 

Em Massamá, Passos Coelho contempla o remoinho de papéis que se formou nos contentores da reciclagem. Um raio de sol desponta entre dois prédios e ilumina o parque de estacionamento. Quatro gordas saboreiam babás na esplanada da Mizete. Um rafeiro faz cocó à entrada do Minipreço. Ainda há beleza no mundo, mas o líder do PSD não dá por ela: é um homem oprimido, aflito, angustiado.

 

A revisão constitucional não lhe correu tão bem como dissera o Ângelo. Algumas ideias promissoras, como a de privatizar a CGD, claudicaram perante a misteriosa resistência dos rapazes. As sondagens desencorajam-no. O Senhor Presidente da República marcou  a audiência que tanto lhe pedira para depois do dia 9 — o que fazer agora?

 

O que resta, quando já não tem estratégia, a um homem sem convicções?

 

(Continua).

Os últimos dias.


vidabreve,

Um jornalista serve para descobrir factos que permitam ao público formar opinião sobre os assuntos da república. Se com esse objectivo recorrer a um estatuto tipificado por lei e aprovado por um juiz, isso, para usarmos a sentença que o João Galamba aplicou em tempos mais felizes às decisões dos tribunais, num estado de direito devia bastar.

 

Que o José António Cerejo seja assistente do processo Freeport e utilize o seu estatuto para informar os leitores não envergonha os jornalistas. O que desonra e envergonha a profissão é que a Fernanda Câncio, assinando como jornalista, se esforce para que o calem.

 

A pandilha, decididamente, enlouqueceu.

As virgens e os arquitectos.


vidabreve,

Uma semana depois do chumbo da segunda avaliação do impacto ambiental do Freeport, a 6 de Dezembro de 2001, tudo estava decidido: o gabinete de arquitectos Promontório, que trabalhava há ano e meio no projecto, era dispensado e o trabalho era entregue ao atelier do arquitecto Capinha Lopes, que nessa altura participava, graciosamente, na montagem das campanhas eleitorais socialistas em Alcochete e noutros concelhos da margem sul.

Como foi tomada essa decisão, que deixou estupefactos os altos quadros da Freeport e o gabinete de arquitectos inglês Benoy – principal parceiro da empresa nessa área -, é qualquer coisa que os investigadores não conseguiram apurar, tanto mais que a investigação foi encerrada por decisão hierárquica antes de ser concluída. (…)

A surpresa das testemunhas inglesas assenta, fundamentalmente, em três ordens de razões: o Promontório era um reputado gabinete de arquitectura, enquanto Capinha Lopes não tinha qualquer currículo naquele tipo de trabalho; o projecto estava feito e só havia necessidade de fazer pequenas alterações para o adaptar às exigências da declaração do impacto ambiental; e Capinha Lopes ia receber, para fazer esses acertos, entre o dobro e três vezes mais do que estava contratado com o Promontório.

Leiam tudo, que vale a pena.

Um homem transparente.


vidabreve,

Portas, o justiceiro, relata ao país cinco julgamentos de meliantes da Amadora ou da Damaia, não percebi bem, que sobressaltaram velhinhas nos autocarros e foram absolvidos. Um escândalo, uma vergonha.

 

Um minuto depois, Crespo pergunta-lhe pelos submarinos. Portas, homem de estado, responde-lhe que não comenta casos concretos da justiça.

O problema.


vidabreve,

Estes são os portugueses que moram em Portugal:

 

 

Estes são os portugueses que moram na cabeça do presidente do PSD:

 

 

Se quiser governar para os portugueses que moram na sua cabeça, Passos Coelho não será eleito pelos portugueses que moram no país.

Mas pode fazer um blogue.

Pequenos Passos.


vidabreve,

Quando um administrador recém-chegado a uma empresa em crise não sabe o que fazer, encomenda um novo logótipo.

 

Quando um presidente recém-chegado a um partido em crise não sabe o que fazer, encomenda uma nova constituição.

O blogue da mãozinha aponta-nos o dedo.


vidabreve,

O leitor João Magalhães comete uma grave injustiça ao apodar o Delito de Opinião “blogue oficioso da actual liderança do PSD”. Reconheço com modéstia que nos é difícil alcançar os patamares de independência e imparcialidade a que o Câmara Corporativa habituou os seus émulos. Mas recordo-lhe que neste e noutros posts eu próprio verberei Passos Coelho com assinalável crueza.

 

No Delito de Opinião, a esquerda gira e moderna confronta a direita neoliberal em batalhas épicas travadas ao redor de um leitãozinho da Bairrada ou de um bife à marrare. Tanto brindamos com Lellos como bebemos com os Soares.

 

Por isso, caro João, não vamos trair o seu exemplo inspirador de tolerância, isenção e boa fé.

Lemmings.


vidabreve,

Segundo o “Creative Economy Report 2008″ das Nações Unidas, o sector cultural e criativo representava, em 2005, 3,4% do comércio mundial. Mais recentemente, Augusto Mateus coordenou um estudo onde se concluía que o sector cultural e criativo representava 2,8% da riqueza gerada em Portugal (3,691 milhões de euros) e que dava emprego a 126 mil pessoas.

Os que agora berram contra a subsídio-dependência da cultura portuguesa (reparem no vocabulário desta gente) são provavelmente os mesmos que lamentaram a destruição das pescas e o fim da nossa indústria. Custa-nos assim tanto compreender que num país periférico de um continente envelhecido as actividades culturais são uma fonte rara de bens e serviços transacionáveis, vocacionados para a exportação? Ou ainda não é desta?