Estes são os melhores anos de Portugal. Não temos ilusões e está tudo por fazer. Nada esperamos da Europa, das obras públicas ou da canalha que nos prometeu o céu. A geração de filhos da puta que despejou um balde de merda nesta década perdida acabou. Pode ir para casa comer tofu, porque acabou. Pode ir a Londres comprar sapatinhos Miu Miu e beber Sauvignon Blanc, porque acabou.
Estes são os melhores anos de Portugal, os nossos anos dourados. Os velhos ainda berram por Salazar, os destroços de 68 ainda querem revolução — mas o rasto de perfumes caros desvaneceu-se, as putas calam-se e os cabrões devoram os filhos.
Os que saírem dos escombros desta merda, os que limparem a merda desta gente, os que cuspirem nesta gente de merda serão melhores do que somos. Por isso estes são os nossos melhores anos, os nossos anos dourados.
As putas calam-se e os cabrões despedem-se ruidosamente. Estão mortos e ainda não sabem.

“os cabrões despedem-se ruidosamente”
Está enganado. Eles continuam no poder e, por acaso, “até nem lhes passa pela cabeça” vir a largá-lo.
É mais ou menos isso.
Os cabrões despedem-se ruidosamente e comem os filhos, mas as putas não se calam – não todas, pelo menos; ainda não.
Que texto!