Seis anos e tal de Governo de José Sócrates, em que vi gente a defender o indefensável e gente a praticar o inqualificável, bastam-me.
Chega.
vidabreve,
Seis anos e tal de Governo de José Sócrates, em que vi gente a defender o indefensável e gente a praticar o inqualificável, bastam-me.
O repto vem no “Retrato de Ricardina”, de Camilo Castelo Branco. Os irmãos Pimentel, na ruína, são abordados por um abade que pecara na juventude e queria casar duas filhas a troco de um dote de trinta mil cruzados por cabeça. Os irmãos recebem agastados a proposta, depois acalmam-se, depois pedem tempo para reflectir. Finalmente, escreve Camilo, “os noivos acederam, tirando a partido que a mãe das nubentes se recolheria em mosteiro, antes das núpcias das filhas”. Nada feito. “Voltaram os Pimentéis a reflectir. Acharam-se subitamente filósofos”. “Pensemos filosoficamente – dizia o irmão de Clementina. – As raparigas que venham com a condição de cá não pôr o pé a mãe. Comunicaram ao abade a modificação. – Não, senhor – retorquiu o padre. – Onde as filhas estiverem há-de ir a mãe. – Pensemos filosoficamente – disseram entre si os Pimentéis. – A mãe poderá vir alguma vez; mas o abade nunca.. – Não, senhor – insistiu o abade. – Eu hei-de ir ver minhas filhas, porque lhes quero muito, e decerto não dava sessenta mil cruzados com a obrigação de as não ver mais. (…) – Pois deixemos vir o abade. Pensemos filosoficamente. A desonra (…) é coisa em que ninguém já fala. Tudo esquece. Foi uma desgraça; todas as famílias têm destas nódoas. Já agora, sejamos filósofos como toda a gente.” Desde que eclodiu o “caso Relvas” vejo uma parte da nossa direita a meditar com angústia na imperscrutabilidade do mundo, na inacessibilidade do real, nos mistérios da “coisa em si”. É bom sinal. Tal como os irmãos Pimentel, estão a “pensar filosoficamente”.
Parece que ser mentiroso é, além de um pecadilho inocente, uma questão de opinião que deve ser demonstrada. Pois bem, eis um bom resumo que respeita apenas às declarações do ministro na AR : “O jornal Expresso salienta quatro contradições de Miguel Relvas nas declarações que fez na Assembleia da República: 1. O ministro afirmou então: “Nunca recebi nenhum relatório de reestruturação de serviços, não tenho nenhuma relação estreita com Jorge Silva Carvalho, nunca foi meu conselheiro nesta área, nem tinha de ser porque esta não é matéria que eu acompanhe”. Porém, isso não bate certo com as reuniões havidas e com as sugestões do espião. 2. Disse que só conhecia Jorge Silva Carvalho desde abril de 2010 e, desvalorizando as informações que recebia do espião, citou o primeiro clipping que recebeu: uma notícia da Reuters sobre a visita de George Bush ao México. A notícia é de 2007 e não existe nenhuma outra posterior a essa data. 3. O ministro afirmou que nem ele, nem membros do seu gabinete tinham contactos com o espião, mas nesta sexta feira o seu adjunto Adelino Cunha demitiu-se por ter sido conhecido que manteve vários contactos com Silva Carvalho já depois de ter rebentado o escândalo. Na comissão parlamentar, a deputada Cecília Honório do Bloco de Esquerda perguntou por duas vezes se o ministro ou alguém do seu gabinete recebia informações ou tinha ligações à questão das secretas. “Era importante que fosse muito claro e dissesse que nem o senhor nem alguém próximo de si, nomeadamente no seu gabinete, não tem de facto contacto com o ex-diretor do SIED, nem tem de facto recebido informação que não seria da vossa competência, e não tem qualquer responsabilidade em matéria de serviços de informações”, questionou a deputada. Perante a falta de resposta, Cecília Honório insistiu: “Volto a perguntar: o senhor, desde que é ministro não tem contactos, nem informações particulares, nem qualquer espécie de responsabilidade sobre serviços de informações? Nem o senhor ministro nem ninguém do seu gabinete mexe naquilo que diz respeito aos serviços de informações?”. Miguel Relvas respondeu: “Não, não, não, não e mais um não”. 4. O ministro afirmou que as sugestões que recebeu de Jorge Silva Carvalho não envolviam nomes de funcionários das secretas, o que é mentira. O jornal salienta que o ministro foi questionado se eram pessoas dos serviços e alertado pela deputada do PS Isabel Oneto de que se fossem pessoas dos serviços se tratava de violação de segredo de Estado, uma vez que a identidade dos funcionários desses serviços é segredo de Estado, afirmou. “Não eram agentes, eram pessoas para responsabilidades, para lugares de topo, que não eram agentes (…) Aqui não há segredos de Estado”. Ora, dois dos nomes sugeridos por sms eram de dois funcionários das secretas: Filomena Teixeira e João Bicho. O ministro mentiu. (…).” Não encontrei o artigo original do Expresso, o resumo vem daqui: http://www.esquerda.net/artigo/“ministro-faltou-à-verdade-ao-parlamento”/23307
Eles apelam à produtividade comentando blogs durante o expediente. Eles querem mais empreendedores mas nunca criaram uma empresa. Eles invectivam o facilitismo em parágrafos de mau português. Eles exigem mais trabalho e menos conversa enquanto conversam e não trabalham. Eles são os mártires da opinião, último refúgio da pátria contra a obsolescência.
O relatório sobre Francisco Pinto Balsemão não foi a única encomenda de Jorge Silva Carvalho enquanto já estava ao serviço da Ongoing. Em Setembro de 2011, o ex-director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), mandou fazer um relatório sobre a Finertec, a empresa de capitais luso-angolanos que opera no sector da energia e ao qual estão ligados dois dos homens com quem se se relacionava: Miguel Relvas, que foi administrador da Finertec até ser eleito dirigente do PSD, e José Braz da Silva, que hoje dirige a empresa.
Parece que há aqui um padrão, não é verdade? Isto, claro, presumindo inocências a eito desta gente toda, porque não estamos no tempo do Sócas e agora há estado de direito, liberdade e muitos caldos de galinha.
À espera dos comentários do professor Marcelo, lá papo uma reportagem da TVI sobre a educação d’antanho. Vinte ou trinta carquejas com o diploma da quarta classe recitam títulos das obras de el rey Duarte e feitos da dona Barbuda de Guimarães. O subtexto da coisa é cristalino: os meninos antigamente sabiam mais que os doutores agora, e tal.
Esta entronização da parolice é a moda da saison desde que o ministro Crato decidiu apresentar às criancinhas as virtudes da lavoura. Pouco importa que os jovens de 2012 saibam programar em PHP e JavaScript, que conheçam países sem entrarem neles a salto e dominem razoavelmente o inglês: para milhões de pategos lusitanos, muitos deles atarantados com os comandos da TV, a única educação que presta é a de Oliveira Salazar.
E isto seria apenas grave, se alguns não estivessem no Governo.
É só uma teoria, mas cá vai.
Um partido com vocação executiva tem apoiantes de vários tipos. O “hardcore” é aquele cujos interesses materiais (trabalho, acesso a negócios) dependem do partido. O “softcore” é o que se motiva por causas, como a despenalização do aborto ou o casamento entre homossexuais. O “missionário”, tradicionalista, é o que vota em quem sempre votou e encara o partido como uma extensão do clube, da família e do contexto local ou regional. Os três grupos têm em comum a fidelidade e o acriticismo: os “nossos” são bons, mesmo que façam mal, e os “outros” são maus, mesmo que façam bem.
O problema é que uma parte importante dos cidadãos que elevam um partido ao Governo não pertence a qualquer destes tipos. A sua avaliação dos partidos é casuística, independente do interesse próprio, e o seu apoio segue a lei da utilidade marginal: mais do mesmo dá-lhes cada vez menos prazer.
Pior, concentram as antipatias em “casos” e “figuras”. Alguns, como eu, são extremamente sensíveis aos indícios de corrupção. Outros rejeitam a arrogância, o controlo, o desleixo e a iniquidade. Em suma, não são fiéis.
A minha tese é que os grandes partidos deviam estar muito atentos a estes eleitores. Porque enquanto Armando Vara, Paulo Campos e Ricardo Rodrigues (no PS) ou Miguel Relvas (no PSD) tiverem rédea solta para exibirem a sua cupidez e impunidade, o desgaste das estruturas será mais rápido do que imaginam as elites que as dirigem.
E isto até um apoiante “hardcore” devia perceber.
Foi uma boa semana para a república. Miguel Relvas ameaçou revelar detalhes da vida pessoal de uma jornalista, que obteve talvez por “press clipping”, e as reacções iradas dos defensores da liberdade não se fizeram esperar.
Mário Crespo inaugurou outra campanha temerária contra a “asfixia democrática”. Alguns blogues da direita, liderando pelo exemplo, organizaram manifestações à porta da Assembleia a que compareceram dezenas de cidadãos indignados. Rodrigo Moita de Deus vestiu-se de palhaço e fez marketing de guerrilha na Sant’Ana à Lapa.
Deputados do PSD distanciaram-se dos ataques à liberdade de imprensa, “por não admitirem no partido o opróbrio que manchou o Governo de José Sócrates”. Pedro Passos Coelho, compungido, afirmou que em matéria de valores fundamentais “não há esquerda nem direita, e que a todos se exige o mesmo respeito pela democracia”. José Relvas acusou o toque e demitiu-se esta manhã. Ao “Público”, a quem pediu desculpa, confessou que fará umas “curtas férias, para visitar amigos em Angola e no Brasil”.
A nossa opinião pública, e os seus líderes, estão mais uma vez de parabéns.
As caixas de comentários dos grandes blogs colectivos recordam-me sempre uma boutade do Eça de Queirós em que se explicava a alguém que nos bordéis de Lisboa todas as meninas eram miguelistas.
Nenhum outro blog me deu, ao longo dos anos, tanto prazer. Esta semana o destaque sai de Portugal, para o Venice Daily Photo.
A questão não é a de sabermos o que os desempregados podem fazer por si, mas antes o que deve o primeiro-ministro fazer por eles. Para quem ouve Passos Coelho é sempre fácil esquecer que o país lhe confiou um trabalho, não a mesa de um café.
Talvez seja a grande questão política das décadas que agora começam. A inversão de valores de Reagan e Thatcher tornou as economias do Ocidente reféns de um punhado de decisores não eleitos. A crise de 2008, é bom não esquecer, foi provocada por esta gente. Ora, nós estamos tão contaminados pela retórica liberal que se torna necessário um trabalho de higiene: os Estados precisam de recuperar a autoridade que perderam. Os Estados devem decidir que dívidas pagam, quando as pagam e em que condições. Alcançar isto é o trabalho da Esquerda.
A Alemanha adiou a votação do Tratado Orçamental. Os zezinhos da Sra. Merkel bem podem agitar a vesícula.
Tó Zé Seguro venceu em França, e Francisco Louçã obteve um excelente resultado na Grécia.
É um triste sinal da velhice, alguém manter a verrina enquanto descuida o estilo e abandona a inteligência. Vasco Pulido Valente dedica a sua crónica de hoje à tentativa frustre e atordoada de persuadir o leitor que Hollande “não mudará a Europa”. Como se Hollande não tivesse mudado a Europa no próprio minuto em que venceu: bastou-lhe não ser Sarkosy. Nesse minuto, a cumplicidade entre os Governos francês e alemão acabou. Merkel está só. A segunda potência europeia escolheu outro caminho. Nenhuma birra, nenhum azedume altera a realidade.
Era um descontozinho em copos Riedel Sommelier. A estúpida da empregada já me partiu três, e a contragosto lhe cortei os subsídios de férias e de Natal para não viver acima das possibilidades. Agora diz que o dinheiro “não chega”. Não chega? Todos temos de fazer sacrifícios. Vai ao Pingo Doce, filha. Zombie já tu és.
“(…) o oportunismo da esquerda, que para se pôr em bicos de pés, massacra um homem que se sabe e quer ser útil à sociedade, não tem resposta racional que a atinja. Mas ontem, o que a esquerda disse, entre bandeiras e de cima de palanques, apagou-se pelo eco de um gesto largo de quem reclama o reconhecimento da obra de um homem que quer bem aos portugueses!”
JgMenos nas catacumbas do meu post sobre o Pingo Doce. Há muito servo da gleba contentinho em Portugal.