Penso rápido (41)


Pedro Correia,

Luís de Camões tem o nome numa das principais praças de Lisboa, correspondente ao seu prestígio nas letras portuguesas. Outros escritores estão igualmente bem representados na toponíma alfacinha: Garrett, no coração do Chiado; Alexandre Herculano, numa das principais ruas que atravessam a Avenida da Liberdade; Camilo Castelo Branco, nas placas de uma transversal da Duque de Loulé; Ramalho Ortigão, na principal via de circulação do Bairro Azul, nas imediações da Praça de Espanha; Guerra Junqueiro, que até tem direito a avenida entre a Alameda D. Afonso Henriques e a Praça de Londres.

Vários outros escritores dão nome a ruas no pacato bairro de Alvalade: Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, António Nobre, António Patrício, Afonso Lopes Vieira. Oliveira Martins surge nas placas toponímicas de uma rua paralela à Avenida de Roma, perto do Campo Pequeno. E Cesário Verde dá nome a um jardim, o que é um claro indicador de bom gosto.

Quase todos têm obra ao nível da homenagem que as sucessivas autoridades municipais de Lisboa decidiram atribuir-lhes, embora Pessoa e Oliveira Martins merecessem maior visibilidade. Sobretudo o primeiro, que tanto e tão bem cantou a capital na sua incomparável obra poética.

Mas quem recebe o tratamento mais injusto, e totalmente incompreensível, é Eça de Queirós. Apenas imortalizado numa rua secundária quase escondida, de escassas centenas de metros, algures entre o Marquês de Pombal e as Picoas. Tenho a certeza de que a esmagadora maioria dos lisboetas não faz a menor ideia onde esta rua se situa.

Eça foi o grande romancista da Lisboa oitocentista, que é afinal — em grande parte — ainda a Lisboa dos nossos dias. Merece um tratamento mais condigno por parte dos responsáveis pela toponímia da maior cidade do País. Se o transmontano Guerra Junqueiro — um poeta menor — tem nome numa avenida em zona nobre, Eça merece no mínimo tratamento idêntico.

Para quando uma avenida Eça de Queirós na capital?

Pobres accionistas.


Luís Menezes Leitão,

“Num relance, compreendi que se tramava a Companhia das Esmeraldas da Birmânia, medonha empresa em que cintilavam milhões, e para que os dois confederados da bolsa e da alcova, desde o começo do ano, pediam o nome, a influência, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, no enfado dos negócios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da Ásia. E agora o conde de Trèves assegurava ao meu pobre Príncipe que no Prospecto já preparado, demonstrando a grandeza do negócio, perpassava um fulgor das Mil e Uma Noites. Mas sobretudo aquela escavação de esmeraldas convidava o espírito culto pela sua acção civilizadora. Era uma corrente de ideias ocidentais, invadindo, educando a Birmânia. Ele aceitara a direcção por patriotismo…

— De resto é um negócio de jóias, de arte, de progresso, que deve ser feito, num mundo superior, entre amigos…

E do outro lado o terrível Efraim, passando a mão curta e gorda sobre a bela barba, mais frisada e negra que a de um Rei Assírio, afiançava o triunfo da empresa pelas grossas forças que nela entravam, os Nagayers, os Bolsans, os Saccart…

Jacinto franzia o nariz, enervado:

— Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que há esmeraldas?

Tanta ingenuidade exasperou Efraim:

— Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!… Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!

E eu admirava a grandeza daquela máxima…”

 

Eça de Queiroz, A cidade e as serras.

Eça.


vidabreve,

As caixas de comentários dos grandes blogs colectivos recordam-me sempre uma boutade do Eça de Queirós em que se explicava a alguém que nos bordéis de Lisboa todas as meninas eram miguelistas.

Um país só comparável à Grécia


jmmcc,

 

«Eça escreveu sobre os dias de hoje e já lá vão mais de cem anos».

«Conhecido pelo realismo da palavra, Eça de Queirós versou sobre um país só comparável à Grécia, n’ As Farpas, de 1872. Mais de cem anos depois, a Renascença encontrou “queirosianos” num espaço que o próprio escritor frequentou e foi tentar perceber, com Eça como mote, o que mudou em Portugal.»

Uma leitura rápida e recomendável. Sem surpresas, mas muito recomendável. Um encontro com Pedro Rebelo de Sousa, Francisco Seixas da Costa, Miguel Sousa Tavares, Mário Vilalva e Mariana Eça de Queirós.